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Vizinha Fake News >>> NÁDIA COLDEBELLA

As consequências das fofocas – Portal QuinariA primeira fake news da vida de Ana chegou quando ela devia ter três, quatro anos:
– Menina, não aponta o dedo pro céu pra contar estrela que vai nascer verruga – era a vizinha quem dizia.
Isso foi terrível, primeiro porque ela não queria ter verruga nos dedos, depois porque amava contar estrelas. E ela tinha contado muitas estrelas aquele dia. Junto com a filha da vizinha.
Foi dormir e o sono não foi tranquilo. Estava muito preocupada com a quantidade de verrugas que iriam nascer nos seus dedos.
– Será que vai ser uma verruga para cada estrela? – pensou no meio da noite, desatando a chorar.
Felizmente em seus dedos nenhuma verruga nasceu. Alguns dias depois, percebeu que os dedos da filha da vizinha estavam infestados de bolinhas estranhas. Anos mais tarde, Ana descobriu que isso era comum em crianças ansiosas, o que fazia todo o sentido em se tratando da filha da vizinha, que tinha uma mãe como aquela.
Ana cresceu e passou a subir escondida no telhado da casa. Gostava de ficar lá, só olhando o céu e imaginando de onde teria vindo. Porém, nunca mais em sua vida contou estrelas.
Depois destas, outras fake news vieram, geralmente da mesma fonte. Não entendo porque algumas crianças gostam tanto de ouvir disparates, talvez porque aguça a imaginação fértil. Ana escutava muito a vizinha, sem perceber, na época, que ela dizia o que dizia com um prazer cruel estampado no rosto.
As fake news mais ouvidas eram as que a faziam sofrer, geralmente relacionadas com a possível morte de alguém de sua família. Ela se tornou obcecada em deixar o chinelo milimetricamente arrumado ao lado da cama, fora do caminho de qualquer um. Se ele estivesse virado, provavelmente sua mãe morreria. E protagonizou uma briga faraônica com o filho da vizinha, criativamente apelidado pela mãe de Mindinho – embora ele fosse bem grande. O Mindinho a acusou de querer matar a própria mãe, porque Ana brincava de andar para traz. Essa era uma das únicas brincadeiras em que ela e a irmã não brigavam, mas que foi cortada do seu rol de diversões porque não poderia conviver com a culpa de ser a responsável pela morte da mãe.
Na medida em que crescia, Ana resolveu testar algumas das histórias plantadas pela vizinha entre a criançada da rua e que, ao seu ver, eram menos perigosas. Saiu várias vezes de casa, escondida, em dia de chuva, procurando um arco-íris acessível. Tinha esperança de passar por debaixo dele e voltar logo depois, só pra ver por alguns instantes como era ser menino. Vivia deitada no chão pedindo para os irmãos passarem por cima dela, só para não crescer.
Assim, foi desvendando pouco a pouco as mentiras de que vinha sendo vítima. Quando a vizinha aparecia em casa, Ana insistentemente colocava a vassoura atrás da porta, bem a sua vista.
– Para com isso, Ana – dizia a mãe. Mas, a menina se fazia de surda. Esperava que a vizinha percebesse o recado e errasse o rumo da sua casa. Logo a mãe entendeu e, já farta de tantas fake news espalhadas pela abominável criatura, parou de abrir a porta de sua casa para ela, sempre inventando alguma desculpa para estar ocupada exatamente naquela hora, fosse que hora fosse.
Amigos do Freud: A Fofoca
Depois disso, Ana passou algum tempo sem saber da vizinha. Mas já era tarde. As fake news da vizinha alteraram para sempre sua espontaneidade infantil. Anos depois marcaram, de forma muito cruel, o fim de sua adolescência, quando aquele ser humano foi responsável por mergulhar sua jovem vida numa nova onda de falsas notícias, completamente assombrosas, chamadas fofoca.
É que a vizinha nunca havia esquecido da vassoura atrás da porta.
Quero esclarecer que existem dois tipos de fofoca e duas intenções que a acompanham. Um tipo de fofoca é falar mentiras sobre a vida de alguém a terceiros, como se estas mentiras fossem verdades; o segundo tipo é divulgar os fatos verídicos da vida de uma pessoa, sem que essa pessoa tenha dado consentimento para isso. Das intenções, uma se trata de um simples comentário, pretensamente “inocente”; a outra intenção tem a finalidade maligna da difamação.
No caso de Ana, foi o primeiro tipo de fofoca com a segunda das intenções.
Faço aqui um parênteses: se algum leitor deseja saber como é o inferno, sugiro que prove o efeito da fofoca sobre sua vida. Vejam o que aconteceu com Ana.
Dia após dia, a vizinha batia na porta de sua família para contar o que havia descoberto sobre a Ana.
– A menina não estava na escola. Não! Não estava, não.. Ela estava por aí, se é que você me entende.
Ou então:
– Ela não tá trabalhando não. Vocês nem imaginam o que ela está fazendo agora.
Embora os pais conhecessem a fama da boca maldita da rua, passaram a sondar a pobre adolescente e logo, para sua própria segurança, Ana passou a ter os passos vigiados. A vizinha foi desmascarada quando sugeriu que, noite dessas, Ana teria fugido de casa na madrugada e voltado antes de os pais acordarem. Curiosamente, essa foi a mesma noite em que Ana foi levada ao hospital pelo pai por conta de uma forte febre.
Ana só se livrou da velha boca suja quando fui embora, estudar, em outra cidade. Levou anos para juntar os cacos das fake news do início da vida. Ela não só sobreviveu, como superou e esqueceu da vizinha.
Recentemente, porém, Ana procurou uma psicóloga. Precisava de ajuda. O trauma havia voltado com força. É que ela tem acompanhado as notícias nas redes sociais e reconhece o padrão. Não fala nada para ninguém por medo de ser chamada de louca, mas tem certeza de que a vizinha anda dando consultoria em fake news por aí.

Comentários

Albir disse…
Hahahaha, pelo jeito a vizinha controla o gabinete do ódio.