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CANÇÃO 1 DE 7 | FOR NO ONE >> Carla Dias >>

Medo é coisinha que vive a persegui-la, todo envolvido no como assim? Quando? Será? Sei não...  Medo, acredita, é o que garante limites para a criatura ousada ousar danadamente e sobreviver à própria temeridade. A pessoa que se quebrará toda – corpo, mente e coração –, mas não acuará diante da vida, lamentando o quanto a dita foi cruel ao tricotar as cicatrizes da cria da vez. Não que se considere capaz dessas ousadias, das transformadas em grandes descobertas pelo poder da casualidade em maquinar epifanias encharcadas de conhecimentos, as tais alinhadas aos neurônios mais dedicados dos seus autores. Não nasceu com a capacidade de mudar jeito do mundo, nem como as pessoas lidam com ele ao criarem milagres da ciência ou o que o valha. Não sabe consertar corações partidos, puídos, cheio das questões e uma e outra via congestionada por sentimentos engavetados.   Contudo, mesmo o medo sendo essa coisinha nada diminutiva, mas sim coisa que se espalha dentro dela e a domina, fazendo com que ela se sinta sua fiel marionete; ainda que não seja dona de invenção revolucionária, criadora de obra inesquecível, detentora da sabedoria sobre tudo quanto é engrenagem que figura no vocabulário do planeta. Na insignificância da sua existência, todos os dias ela se levanta agarrada à única ousadia da qual jamais abrirá mão, tenha o medo o tamanho que seja; berre o dito com requintes de estridência. Não há medo que aplaque o entusiasmo dela em prolongar fins. Quem sabe ali, no meio do caminho, na resistência da sua espera, ele desista de ser fim e se renda a algum começo. O medo acha isso um tanto ridículo e debocha dela. Sabe que, na escala das conquistas excepcionais, ela circula pelas ruas do improvável, tocando as bainhas do de jeito nenhum!, como quem escuta canção que dói e decide não apenas doer com ela, mas se embrenhar em seus sons, aliar-se à história que contam. Na insignificância da sua existência, ela coloca a música e sai cantando, o idioma todo bagunçado. Não há medo que bote medo nela, durante canção invadindo cômodos da casa. E dentro dela, cômodos abarrotados de esperas por começos que nunca chegam.






carladias.com


Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Não há medo que aplaque a entusiasmo dela em prolongar fins. Quem sabe ali, no meio do caminho, na resistência da sua espera, ele desista de ser fim e se renda a algum começo."

Nem deveria ter coragem de comentar qq coisa depois dessa explosão.
Mas me rendo a Sir Paul e a uma das mais belas canções de todos os tempos. Como se as canções do Inigualável naõ fossem praticamente, todas das mais belas canções de todos os tempos.

Obrigada, Carla por seu texto e por essa música, o casamento perfeito.
Carla Dias disse…
Zoraya, minha cara... essa música é linda demais, não? Ah, o Paul...
Obrigada pela gentileza de sempre com a qual você trata meus desatinos literários.
Beijo!