quinta-feira, 8 de abril de 2010

O CÚMPLICE >> Kika Coutinho

Era um dia normal, eu tinha feito a minha filhota dormir sua sonequinha da tarde e, depois de colocá-la no berço, de bruços, saí do quarto. Nem meia hora se passou quando eu ouvi o chorinho dela, acordando. Voltei lá e tive uma enorme surpresa. No berço, minha menina me olhava, acordada, de barriga para cima.

Fiquei alguns segundos em choque. Eu tinha certeza de que ela estava de bruços, eu a deixara de bruços, como ela estava de barriga pra cima? Meu Deus, ela virou! Foi a resposta que dei a mim mesma, em pensamento. Ela virou! Ela tem só quatro meses, mas ela vira sozinha, não acredito! Eu ri, animada pela conquista da minha menina que ainda olhava para mim, um bocado perdida, certamente sem entender como ela mesma havia feito aquilo. Corri pela casa para compartilhar com alguém a minha alegria.

Na cozinha, a empregada fazia o almoço e nem se mexeu quando eu gritei: “Rose, ela virou!”. Falei mais uma vez, achando que ela não tinha entendido: “Ela virou Rose, virou sozinha!”. A moça me olhou, segurando uma colher de pau e disse, simplesmente: “E ela voltou a dormir ou não?”. “É, não... Não voltou.” Eu respondi sem graça, fingindo que nem tinha mesmo muita importância aquilo...

Voltei para o quarto, frustrada. Quando meu marido chegou em casa, se aproximou e perguntou o que houve: “Amor, ela virou!” falei, reconquistando a empolgação... Ele, no mesmo instante, deu um grito que chegou a me assustar: “Virou?! Como foi? Ela virou mesmo? Como foi?” Pronto. Alguém tinha compreendido o evento. Ele, aquele homem que comemorava nossa pequenina conquista, era meu cúmplice nessa vida.

Ele, que compra chupetas erradas, que se atrapalha numa fralda muito cheia, que entra em pânico quando ela chora de madrugada, ele, que erra e acerta cheio de amor, era meu grande cúmplice nessa jornada.

Foi em um instante, naquele minuto único, que eu notei: Não se pode ter um filho sem ter um cúmplice. Não é necessário que seja seu marido, seu namorado, não. Mas é preciso ter um cúmplice. Alguém que vai vibrar por coisas banais, que vai comemorar atitudes tolas e rotineiras, alguém disposto a passar noites em claro e dias escuros, alguém que irá discutir com você sobre a cor do cocô e quantidade do xixi. Alguém, alguma pessoa nesse mundo que irá, um dia, entender a grandiosidade sem tamanho de coisas muito, muito pequenas como, simplesmente, uma menina que se vira sozinha de barriga para cima...

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, as coisas pequenas ficam grandes nas suas crônicas. :)

Bia disse...

Que delícia ler uma coisa boa na internet no meio de tantas notícias trágicas...

Debora Bottcher disse...

Ana, querida, Vc está guardando essas seus textos para a Sofia ler, né? Porque só então ela vai entender, com real precisão, o tamanho do amor seu e do Bruno. :)
Super beijo.

Cláudia disse...

Kika, parabéns pela conquista da Sofia. Pequenas conquistas como esta a gente nunca esquece! Continue nos brindando com estas doces conquistas.