sábado, 17 de abril de 2010

ONDAS [Debora Bottcher]

Todo mundo passa por fases em que, de repente, uma enorme onda parece descer sobre tudo e a vida perde o compasso: o amor (geralmente do outro) acaba e o romance finda; o trabalho desanda, a saúde baqueia, os amigos desaparecem, pessoas queridas morrem, você bate o carro, fica sem dinheiro. É uma sucessão de tragédias pessoais, acondicionada a uma terrível solidão se instalando pelas bordas: você está consigo mesmo e tem mesmo é que tratar de sair do buraco de areia em que foi enterrado - com que força, só você será capaz de saber.

Mas tem épocas em que, por um milagre vindo não se sabe de onde, nenhum contratempo nos assalta. Os dias transcorrem em profunda tranquilidade — manhãs, tardes e noites constantemente ensolaradas, não importa quanto chova ou faça frio lá fora. Aliás, lá fora passa a ser um lugar distante — onde tudo continua a acontecer sem, curiosamente, nos atingir. Não há aborrecimentos nem sombras — parecemos até personagens de um filme perfeito, com script de final feliz sem passar sequer pelas tramas intermediárias.

Pode ser que essa segunda temporada seja um prêmio, um presente do universo, por conta da primeira safra — que é a mais natural. Sim, porque comum mesmo é ter a vida, senão inteiramente, pelo menos meio de pernas pro ar.

O mais curioso, no entanto, é que temos uma tendência em pensar que, quando tudo vai mal, é assim mesmo: há algo em nós que administra melhor o caos que a calmaria. Quando as coisas vão bem demais, a gente se pega, vez ou outra, sobressaltado, à espera do que vai acontecer — ah!, alguma coisa tem que acontecer! — a fim de nos roubar a paz — que, geralmente, sem que se dê conta, foi arduamente conquistada.

Não é raro surpreender-se assim, na contramão, espreitando pelas brechas, tentando antever a esquina do tropeço em que, por engano ou descuido, se possa fazer um retorno às avessas — e ser pego pela onda novamente.

Será que nunca é possível relaxar? Quando é que a gente vai aprender a ser simplesmente feliz? Que medo é esse que nos governa?

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Debora, estou adorando essa onda Bottcher que tomou conta dos sábados do Crônica do Dia há algumas semanas. :) Sua escrita está com um tempero que não sei se é novo, mas que é muito bom. Você está cozinhando tão bem quanto está escrevendo? :)

Juliêta Barbosa disse...

Debora,

Ler você é igual a ganhar um presente de Natal diretamente das mãos de Papai Noel. Pura alegria e encantamento! Li de uma só vez: Ondas, Deus mora nos detalhes, Das Pontes De Cada Um e VIDA. Obrigada!

Debora disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Debora disse...

Olá, Julieta, Obrigada pelo carinho!
Eduardo, amigo, É que Artemis anda sem escrever, então acabo me habilitando. Ainda bem que, por hora, não estou a cansar os leitores da Crônica com minhas reflexões, indagações e 'eventuais constantes' melancolias - e esse 'tempero' que deve ser da idade... :)))
Beijo enorme em vcs dois e todos que 'mastigam' minhas palavras por aqui. :)

Carla Dias disse...

Débora... Só você para colocar em pauta questões profundas com a leveza de quem compreende que elas são apenas um meio e, às vezes, sem fim.