sexta-feira, 8 de julho de 2016

A ARTE DA CURA >> Paulo Meireles Barguil


Saúde.

Quem não a deseja?

Há quem diga que, com ela, a pessoa pode correr — voar, andar, pular... — atrás do que deseja.

Eu acrescento: e também fugir do que não almeja!

Saúde.

Dente, cotovelo, dedo do pé: eu nem me lembrava que os tinha antes de eles doerem!

Ainda bem que o protesto deles é isolado: um de cada vez...

Acho que eles são parentes de cometas adolescentes, cujas aparições são esporádicas e não esperadas.

Saúde.

De quem?

Do corpo, da alma, da mente?

É possível separá-los?

É possível uni-los?

Seria a doença a manifestação da cisão da harmonia entre eles?

Saúde.

Arte, Ciência, Filosofia e Religião: qual construto cultural tem a poção curadora?

O outro pode cuidar de mim?

Pajé, curandeira, xamã, rezadeira, mago, clérigo, médico, psicólogo: múltiplas opções.

Escolha uma, se assim desejar, ou até mais de uma!

Saúde.

Afinal, por que adoecemos? 

Buda declarou que a causa do sofrimento humano é o fato de que a felicidade está sempre acabando, pois o que caracteriza a vida é a impermanência, mas, como desconhecemos isso, nos apegamos ao que é agradável e sentimos raiva quando algo ou alguém destrói essa ilusão, fruto da nossa ignorância.

Ah, essa raiva...

Esse desejo insano — literalmente, doente — de vingança que nos arrasta para o inferno.

Saúde.

Como adoecemos?

Jesus falou: "Os olhos são como uma luz para o corpo: quando os olhos de você são bons, todo o seu corpo fica cheio de luz. Porém, se os seus olhos forem maus, o seu corpo ficará cheio de escuridão." (Lc 11, 34). 

O mirar do corpo: separação, focado no passado ou no futuro, queixa...

O fitar da alma: unidade/totalidade, imerso no presente, gratidão...

Saúde.

Tão simples.

Olhar também para dentro e não somente para fora.

Substituir culpa por compreensão.

Mudar intolerância por paciência.

Converter raiva em compaixão.

Afastar-se do ressentimento e aproximar-se do perdão.

Trocar guerra por paz.

Permutar falar por silenciar.

Comutar o correr em parar.

Transformar o apego em desprendimento.

Olhos, mente, coração: todo o nosso ser.

Desejo-lhe saúde!


[Crônica dedicada a Fabiana Portante e Kelli Gisse, que me instigaram a escrever sobre a temática]


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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Saúde para todos nós. :)

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Como dizia um velho professor meu: "consideremos a saúde sob vários aspectos". Considerava-o uma espécie deslocada na faculdade. Um poeta, quem sabe, fugido lá do departamento de Letras ou de Direito. Ele era adepto da visão holística. De lá para cá, virou moda nas profissões de saúde. Parabéns! O texto me fez lembrar daquelas aulas.