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O BOM OUVINTE >> Carla Dias >>


Seu pai está cansado de lhe dizer, a voz rascante, que ele pare de ser infeliz. Que a vida não espera os infelizes encontrarem a felicidade em um esbarrão. Que a vida quer nem saber dos infelizes. Diz, ainda, que infeliz feito ele, se não tomar rumo, jamais deitará lábios nos seios fartos e macios da felicidade.

Ele escuta o pai desfiar suas teorias sobre infelicidade, vida, lábios e seios fartos e macios. Ele é paciente, bom ouvinte, e até acompanha com o olhar as voltas do velho pela sala. Ultimamente, sente o pai mais atuante na sua função de curar infelicidade de filho. Semana passada, ele organizou festa surpresa de aniversário para seu rebento, mesmo a data sendo daqui a três meses. Contratou bufê, DJ e dançarinas exóticas em roupas minúsculas. Proibiu a esposa de dar as caras, isolando-a de seus atrevimentos ao mandá-la para a casa de uma de suas filhas.

As filhas dele sabem ser felizes. São parideiras de primeira grandeza, além de profissionais freelancer, que assim sobra tempo para cuidar de suas proles, porque elas podem trabalhar em casa. É o que ele imagina, mas segue longe da verdade. Freelancer? Vinte e quatro horas se dividindo entre maternidade, profissão e ocasionais orgasmos.

Não interessa o trabalho que dê, seu pai se diz correndo atrás do prejuízo, porque cansou de ser pai de filho escravo de infelicidade. Os amigos comentam, as amantes perguntam sobre o motivo e receitam rezas e unguentos, os cães da casa detestam sair com o infeliz de seu filho.

Não é de falar muito ou de sair de casa. Ainda assim, aprendeu um ofício e se tornou mestre na sua profissão. Saiu cedo da casa dos pais, comprou um bom apartamento, leva uma vida cercada por prazeres que cultivou, como aprender a tocar um instrumento, o violino. Recentemente, tornou-se spalla em uma orquestra da qual assistiu muitas apresentações quando criança. Gosta de pensar que este é um dos raros milagres que a vida oferece.

Não atendeu às expectativas do pai, quem nunca conseguiu arrastá-lo para o boteco para exibi-lo como belo exemplar de homem feliz, debochador de bobagens do cotidiano. Ele que tem verdadeira fixação pela felicidade do filho, ou melhor, pela falta dela. Acha um desperdício que um homem bem-apessoado feito ele não tenha uma mulher em cada bairro das redondezas, nem mesmo o perdoa por ter escolhido outra profissão que não a dele. Com o tempo, tornou-se perito em listar as falhas do filho, e de elucidar o desapontamento que é ter filho infeliz.

O pai diz e o filho escuta, atento, porque é bom ouvinte e jamais deixaria o pai falando sozinho. Herdou a paciência da mãe e o talento avô. Tornou-se um brilhante alfaiate. Por conta e risco, tornou-se um violinista inspirado. Para seu pai, alfaiates são ultrapassados e infelizes escolados. Músicos de orquestra são palhaços em finos trajes, executando música desnecessária.

Ofereceu outra festa ao filho, desta vez alegando que ele pretende mudar de profissão, tornar-se advogado feito o pai. Estranhos brindaram, ainda que não entendessem o teor da comemoração, porém completamente satisfeitos com seus drinques. Alguns vieram dos botecos gourmet que o pai frequenta, outros dos tribunais. O que importava era celebrar o fato de que ele, em breve, não teria mais filho infeliz. Teria filho advogado.

O que o pai ignora - e o filho acredita que por temer tal verdade -, é que o filho não é infeliz, apenas não precisa do deboche, das conversas gritadas, das mulheres seminuas e seus codinomes, do exibicionismo profissional. Não precisa da ilusão de ser melhor do que o outro. Sua melancolia, que o pai confunde com infelicidade, é matéria-prima de sua capacidade de se situar no mundo sem dar aos dissabores mais espaço do que eles merecem. Sem gritar suas vitórias.

A melancolia o ampara, o mantém humano. O humano o mantém capaz de ser o bom ouvinte que seu pai precisa, enquanto se debate na realidade trincada que vem construindo.

Imagem: Nós © Ismael Nery

carladias.com

Comentários

Alami Academia disse…
Este é um texto de começo, meio e fim. que emociona de fio a pavio. que trás um tema sempre atual que é a busca da felicidade, felicidade que está tão pertinho da gente que se pode pegar com a mão, mas cadê discernimento para tanto? ler uma crônica da Carla Dias, por exemplo, é um momento feliz!

saúde, Carla Dias!

abraços,
Enio
Carla Dias disse…
Enio, fico feliz por poder inspirar alguma felicidade com meus textos. Obrigada por dar atenção a eles. Grande abraço!

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