sábado, 2 de julho de 2016

ESPIANDO >> Sergio Geia



Na casa de muro verde duas pessoas conversam no portão. A dona, do lado de dentro; a outra, do lado de fora. Ficam algum tempo, depois a dona da casa entra, mas a outra não vai embora. A dona da casa volta e a conversa recomeça. A que está do lado de fora usa roupas brancas, parece uma enfermeira. Deve ser cuidadora. Deve haver doente naquela casa, ou idoso que requer cuidados.
São sete horas. O domingo é cinza e frio. Não tem ninguém na rua. O Pops está fechado. Nos bares que funcionaram madrugada adentro reina o mais inspirador silêncio. A quietude só é quebrada de vez em quando pela cantoria que vem da igreja. É canto de comunhão e a missa deve estar terminando; missa das seis e meia. Não ouço mais o sino chamando pra missa das seis e meia. Decerto, alguém reclamou.
Um homem se instala em frente ao Pops e começa a espiar. “Não há nada a espiar aí, amigo!”. Desiste. Fuça o lixo. Cata latas. Vai embora.
Dona Teresa caiu doente. É o que diz Braga, a respeito de sua empregada. Achou-se pega por reumatismo. Depois, refez o diagnóstico, culpando uma corrente de ar do apartamento dele por sua enfermidade. Corrente de ar é um perigo. Disse-lhe que a última vez que se viu doente de cama fora há quinze anos, e tudo graças a uma corrente de ar.  O fato é que Braga ficou sem sua empregada graças a uma corrente de ar. Corrente de ar é uma tragédia.
Lá embaixo a Marechal vazia. Nada de gente, nem de corrente de ar. Mas logo a missa termina e as pessoas se achegam. Uma senhora, com mecha branca no cabelo, caminha na calçada parecendo me observar. Noto que realmente me observa. “Oi”, “Bom dia”, digo. Ela pode estar se perguntando: “O que faz um homem na sacada a uma hora dessas?”.
“Pois sou homem do dia, minha senhora! Questão de biorritmo. Pela manhã, tudo funciona melhor. Acordo cedo. E se acordo para caminhar, ou ler, ainda melhor. Pois somos parecidos. A única diferença é que a senhora, pela manhã, prefere Deus, e sua casa; eu prefiro a minha casa, e o Braga”. Nem bem termino a frase e ela já anda longe. Na certa, mais feliz que eu, por ter começado bem o dia, afinal, domingo é o dia do Senhor.
Vejo num quintal uma mãe tentando fazer o bebê dormir. Não dormiu no horário que devia, ora, pois; atrapalhou a noite da casa. Ou trocou dia por noite; bebê tem dessas coisas. Pais de primeira viagem se desesperam. Simples dor de barriga transforma a casa num inferno. As experientes, como fez minha sogra quando João era um bebê chorão, tratam de esquentar pano a ferro, colocar na barriguinha da criança, e tudo bem. Se deixar por conta dos ingênuos pais, o bebê amanhece soltando gases num pronto-socorro.
 


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2 comentários:

Zoraya disse...

Que excelente domingo, Sérgio! Consegue transformar em graça o que poderia parecer, aos incautos, um domingo qualquer. Visto assim, do jeito q vc fez, nenhum domingo é qualquer! (em tempo, correntes de ar podem ser fatais. sério...)

sergio geia disse...

Grato, Zoraya! Só espero que um dia a vizinhança não venha bater à minha porta reclamando rsrs. Gde abraço!