quarta-feira, 29 de julho de 2009

CODINOME >> Carla Dias >>

Adotei um codinome.

Ontem eu era isso, anteontem aquilo, mas hoje eu tenho um codinome que é para ele assumir minha existência e viver os segredos que não cabem no meu nome. E o meu codinome tem um heterônimo, porque está escrevendo um livro imaginário e não quer se assumir intelectual ou autor de diário.

Antes, bastava ter codinome, mas já às portas dos quarenta anos de idade e de toda modernidade que veio junto, tive de dar a ele abrigo. Então, além de heterônimo, meu codinome tem Twitter, Blog, Facebook, Orkut, Myspace, MSN, e-mail, até conta no Youtube!

Ele quer ganhar o mundo.

Meu codinome é metido a cineasta... Gosta de filmar pessoas que gargalham à toa, que choram à toa, que amam à toa, que odeiam à toa. Adora as expressões dos rostos delas quando o sentimento as tomam.

Esse codinome não pode ter nome no SPC, no address book do Outlook de ninguém, não frequenta lista de convidados de festas, não está em certidão de nascimento. É um codinome itinerante e que não deixa rastros.

Solitário, meu codinome vaga entre invenções pragmáticas, porque deu de ser rebento dos dramas. Atua como se vivesse a própria vida, alheio ao fato de que sua existência consiste em assinar a autoria dos meus desvarios.

Às vezes, invejo meu codinome e me ofereço para lhe fazer companhia. Escorpiano no âmago do signo solar, ele se nega a abandonar a melancolia que o sustenta para sorrir ao meu lado, esquecido de que basta eu apertar a tecla DEL e ele não existirá mais.

Mas quem disse que tenho essa intimidade toda com a tecla DEL?

Antes do meu codinome, codinomes assinavam cartas de amor, missivas sobre abandono e encontros fascinavam transeuntes do imaginário alheio. Alguns viviam à mercê dos casos e descasos, outros até conseguiam superar o nome do seu autor, vivendo a vida como se estivessem interpretando um personagem inesquecível, dos que espectadores desejam encontrar na rua e se sentirem próximos a ele.

Acho que meu codinome é ‘das antigas’, como já ouvi dizerem de algumas pessoas. Ele gosta de passar tempo olhando horizonte, os gestos das mãos dos que buscam liberdade, os cabelos dançarinos dos que correm em busca de si mesmos... e encontram outros tão parecidos com eles que soam diferentes.

Há dias em que pego emprestado meu codinome e, ao invés de responder mensagens, selecionar imagens, publicar frases, eu saio pelo mundo sendo.



http://www.carladias.com/
http://talhe.blogspot.com/



Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, codinome com heterônimo foi o cúmulo do esconderijo. Gostei. :)

Carla Dias disse...

Pois é, Eduardo... Os cúmulos às vezes são bem interessantes : )
Bjs!

Marisa Nascimento disse...

Carla, lindo texto e verdadeiro neste mundo que habitamos hoje.