sexta-feira, 24 de julho de 2009

A CHEGADA DOS VELHOS AMIGOS >> Leonardo Marona

Vocês estão para chegar, a essa altura já estão aqui, e me pergunto: Será que nos reconheceremos? Não mais de um ano se passou desde a última partida. Jogávamos um jogo intenso de olhares, mas havia algo a ser dito que se enterrou na garganta. Pergunta: São os engasgos do que deve ser dito que nos tornam mais velhos? De todo modo, espero por vocês, mas sei que essa frase é inviável. Não espero, porque estou em pedaços, e cada pedaço espera alguma coisa. Mas tenho uma única boca, então sou obrigado a generalizar: Espero por vocês. Mas, na verdade, o que são vocês, aquilo que espero? Talvez que a amizade venha dos códigos silenciosos, e agora é como se precisássemos dizer qualquer coisa – e faltam mais que palavras, falta o fôlego, o mesmo com que disputávamos irreais corridas pelas ruas onde o resto do povo se acotovelava rumo à doença, e nós éramos poetas franceses com nossos largos colarinhos. Mas agora me acotovelo junto a macas infectadas. Máscaras nos rostos, eles já não esperam por ninguém e estou na multidão. Não quero saber mais onde vocês estão, mas quero o sentimento dos pulmões ainda cor-de-rosa, das sílabas preciosas que, ingênuos, colhíamos a dedo, do desespero fácil da ressaca romântica. Onde nós os que colhíamos mendigos ensangüentados? Onde nós os que púnhamos as câmeras pelas janelas dos carros? Onde nós os que desafiávamos a natureza com silêncios desconfortáveis? Ficamos nalgum porto? Desbravamos guerras setentrionais? Seguimos as correntes apresentadas e puxamos nossos chapéus na direção de níqueis temporários. Minhas lágrimas são do tipo que afugenta o rosto na direção contrária ao vento. Queria agora a delicada situação de estarmos, uma vez mais, vendados diante do milagre. Espero por vocês nessa tarde fria de vento forte, ruim para as folhas amareladas, que se despencam, elas também, excluídas. Debruço-me à janela e algo em mim pressiona na direção inadequada. Queria o algo se diluindo em excêntricos passos de dança. Os passos sem volume de uma constelação permitida. Mas fui calçado com fogo a quatro patas por uma urgência padronizada. É exigido que progridamos. Arrematado com um tiro, cumprimento estranhos nas ruas, faço o meu melhor, morro aos pedacinhos e, acima de tudo, esqueço, a cada dia, um pouco mais. Contudo, o sangue escorrendo, espero por vocês. Espero por vocês como quem, amordaçado, espera pelo grito.


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Um comentário:

C. S. Muhammad disse...

sangue, suor e grito... quem espera por quem? ;)