domingo, 18 de novembro de 2007

O CHAMADO >> Eduardo Loureiro Jr.

Nada acontece sem um aviso. Desde as histórias que Vó Izolda contava, tudo acontece depois de um anúncio. Minha amiga Juliana dizia "aqui, quando chove forte, de relâmpago e trovão, venta forte antes e a gente sente, ouve a chuva chegando". Tinha uma luz no meio do caminho: uma chama, um chama, um chamado.

A gente resiste, claro, faz charme, faz de conta que não é com a gente. Peixe que carrega pra longe a isca que já mordeu. E o pescador dando corda: "Vai, foge, curte a liberdade, o mar é todo teu..." E zás! O fio do destino puxa o peixe pela boca. E se o peixe morre pela boca, o poeta vive pela palavra.

Na saída do Labirinto, eu, Dédalo, falei para o Minotauro e para Teseu: "Tantos anos e vocês aqui, dentro de uma idéia minha. Tantos anos a se perder e a se encontrar. Tantos anos de pedra, de couro, de espada. Inventem agora vocês alguma coisa na qual eu possa entrar."

Vocês foram lá e inventaram. Teseu no céu tecendo seu fio. Minotauro na terra cavando a mina. E o chamado: "Está tudo pronto. Você nos deu o labirinto, o labor interno, o trabalho de si. Nós lhe devolvemos o trabalho do outro, o labor externo, as sete moças e os sete rapazes que já não vêm para o sacrifício — estão soltos, a gente por aí."

E eu aqui, olhando pra vocês, como quem estica o pescoço pelo orifício do portal. Vou? Não vou? Fico? Não fico? "Se alguém obriga você a andar um quilômetro, caminhe dois quilômetros com ele". Mas, Mestre, e se alguém pede ao invés de obrigar, quantos 1.789 quilômetros devo andar?

"O poeta aprofunda meu dilema", diz meu amigo Fabiano. "Um poeta inspira outro poeta que respira", diz meu amigo Fabiano. E eu, o que digo? "Eu nunca fiz uma canção pra você, nem um plágio de bolero sequer."

O badalo do sino bate alternado: som, eco, silêncio. A chama do chamado dança ao ar do pátio. Não posso ser forte nem fraco. Nem inflamo nem apago, guardo. Um pedido de amor não tem lados. Um portal é só uma janela que dá para o que receber. Um só coração em dois corpos. Um só copo pra nós dois beber.

O que acontece depois do chamado?

Partilhar

4 comentários:

Renata disse...

Dear Edu,
you have a strange way of makink us think...do you believe in destiny?If you do who is responsible for it in your opinion?if you do not how do you explain this"call"?Love

Anônimo disse...

O chamado pode ser atendido,pode passar despercebido e pode ser negado ou pode causar dúvidas...vou ou nao vou...

Carla Dias disse...

Ah, o chamado e seus mistérios, e suas sei lá quantas mil facetas.
Há dias em que tudo se resolveria num chamado, não? Ou se chamássemos... Quem sabe se nos chamassem.
Há muito que se refletir sobre os chamados. Há muito que viver a partir deles.

Anônimo disse...

O Chamado não é o nome daquele filme da meninazinha das madeixas compridas? Tem um filme assim que eu sei. Ou eu nada sei, enfim?