quarta-feira, 14 de novembro de 2007

RECONSTRUÇÃO >> Carla Dias >>

Dia desses, eu gastei horas a observar minhas mãos sobre o papel em branco. Meus dedos não estavam ágeis, mas sim repousavam sob a vigília das pausas de semínimas preguiçosas.

Lembrei-me da canção, do poema, da festa na qual não estive presente. E também dos feriados prolongados, em que passei ruminando quais seriam as decisões, reflexões e anseios dos personagens aos quais eu dera a luz. Meus filhos impacientes, envolvidos em tramas inventadas que misturei com algumas das minhas próprias experiências.

O escritor que rouba a história da moça; que se apaixona por ela de um jeito que para ele é novo, por isso foge, até perceber que correu em círculos, e cai de vez no abraço dela que para ele foi único. A moça que sente não caber no mundo, apodera-se de uma câmera que é para fisgar a verdade na encenação do outro. Que tem medo do que sente pelo escritor e foge dele... Até perceber que andou em círculos, e se depara com um olhar que põe seu mundo do avesso.

A moça magoada que só, aquela que o pai tenta enlouquecer só para ficar com a herança. E o moço que apontaram como assassino, mas, mesmo não sendo, sabe que depois que apontam o dedo da acusação a você, já foi condenado. Uma anarquista e um homem em busca de paz de espírito, ambos apaixonados pela idéia de fazer uma cidade inteira compreender que seus valores são rasos. Ambos empenhados em trazer para o centro dela as beiradas, o gueto.

A moça que se trancou no apartamento durante três dias e abusou da reflexão, da profundidade de sentimentos. Viajou lonjuras emocionais para buscar a si, porque quem se tornou não fazia sentido. Assumiu o amor não só por alguém, mas também pela possibilidade de se reinventar.

O moço que se apaixonou pela cidade, que compreendeu que tanto a beleza quanto suas mazelas tinham significado e faziam parte de um todo. Da janela de seu apartamento, vislumbrou o concreto e plantou flores nele, através de seu olhar. Conheceu a moça irônica quando trabalhava no telemarketing. Ela disse ser acrobata e ele, em anos de conversa por telefone, não chegou mesmo a acreditar nisso, mas pensava nela equilibrando alegrias e tristezas, enquanto voava sob a lona da solidão. Na jornada em busca pela paz de espírito (ela realmente é famosa nos meus escritos), conheceu outra moça que, pelos acontecimentos de uma breve convivência, fez com que ele acreditasse que era uma corajosa militante, o que a levou a denunciar um figurão pelos seus crimes. O figurão virou governador e ela sumiu do mapa. A paz de espírito do moço não chegava... Mas veio rasgando o tempo a saudade dele pela moça com quem pouco conviveu, mas tanto o marcou. Enquanto isso, a acrobata vivenciava a solidão do moço.

Poderia continuar falando sobre todos os personagens que já criei, mas confesso que os quero tão bem, até mesmo aos bandidos bem quero... Pois são meus, eus, são um pouco de invenção misturada nesse caldeirão de verdades que, ainda que nem sempre sejam minhas, são da vida.

Melhor parar por aqui, antes que coloque a todos numa mesma trama, e reconstrua aquilo que, do jeito que está, já é.

Imagens >> Nilton Mendonça


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ô mulher da prosa boa! Vontade de continuar passeado por seus mundos de gentes, mas, como disse em seu final perfeito, vamos deixar do jeito que é.