sábado, 3 de novembro de 2007

RECALL [Ana Coutinho]


A embalagem do sorvete foi produzida errada, falaram que não continha glúten, mas continha. Os brinquedos tinham peças que não tinham que ter. Os carros sempre têm qualquer coisa imprevista também e, daí, tratam de corrigir. Em todos esses casos e outros mais, utiliza-se o recall.

Chamam os compradores dos produtos que, provavelmente, não previam esse trabalho, mas, de certa forma, ficam gratos por terem a chance de corrigir o que já deveria ter vindo certo e não veio. E daí lá vão eles procurar a empresa responsável, levar seu produto, receber um tratamento mais ou menos e sair com o produto correto, novo - ou não - mas perfeito, como eles gostariam que fosse desde o início.

Fiquei pensado que, embora chato, o mecanismo é imprescindível. E, infelizmente, é natural também. Porque as coisas não saem sempre como planejadas. Os bancos dos carros, por mais rigorosamente que sejam checados, acabam saindo das suas fábricas com um defeitinho que ninguém percebeu antes. E vamos condenar as fábricas? Como, se fazemos isso o tempo todo?

Os relacionamentos estão cheios de erros que passam sem que sejam notados por uma das partes. Você pode ter tentado absurdamente, insistentemente, fez todas as checagens necessárias, usou sua voz mais doce e seu melhor sorriso, mas não deu certo. Passam-se meses, talvez décadas, e você percebe que pode ter pesado um pouco no ciúme. Talvez tenha sido muito exigente, talvez tenha sido muito melosa, talvez tenha reparado demais na sua própria doçura e esquecido as necessidades do rapaz, talvez... E aí, dá vontade de fazer um recall.

Anunciar em um jornal: “Você, que conviveu comigo entre 1998 e 2001, experimentou o mais doce dos meus sorrisos, aguentou lágrimas infindáveis e tentou arduamente, mas, no final, desistiu. Você que ficou me esperando na noite de sábado mais fria e chuvosa de junho, quando eu não consegui sair do trabalho. Cheque se minhas cartas têm data de um inverno de 1999 e, caso positivo, favor comparecer no endereço blablabla, com a documentação necessária para efetuarmos um recall.”

Pronto. A pessoa bateria na sua casa com as cartas em punho, e você falaria que era imatura demais, boboca demais, não sabia valorizar ou entender um amor de verdade, você se desculparia, mostraria que agora é adulta, sabe inclusive cozinhar um bom macarrão e ofereceria ali, aos dois, uma nova chance, um recall da relação, já sem os destemperos e defeitos antes inevitáveis. Ah, que bom seria...

E o contrário. E se ele, aquele panaca, te chamasse para um recall? Você poderia ler o anúncio no jornal, espantar-se e dizer, quase sem respirar: “Sou eu! É ele!” e, antes de dormir, pensar se iria no recall ou, de repente, deixaria o panaca esperando - afinal, quem mandou perder o timing?

O recall deveria servir também para o mundo profissional. Sabe aquele emprego? Aquele que você adorava, mas que fez aquela bobagem ou deixou de ter aquela idéia brilhante tão habitualmente sua? Pois bem. Ligue para a Globo e anúncie em um comercial do Fantástico, com letras garrafais: “A psicóloga Maria da Silva vem por meio dessa anunciar a todas as empresas nas quais trabalhou entre 1994 e 1999, tanto como estagiária, quanto como funcionária efetiva, que as mesmas devem comparecer a partir da próxima semana para um recall de atualização de conhecimento. A psicóloga pede desculpas pelo incômodo, mas faz esse comunicado visando garantir a qualidade de seus trabalhos e a satisfação dos que acreditaram nela, ainda um pouquinho antes da hora ideal”. Já imaginou? Eles te ligando pra uma outra chance?

Quem não precisa de uma chance a mais na vida? Tantos erros, tantas peças que precisávamos ter ajustado melhor, mas não vimos. Deixamos passar e liberamos os brinquedos com peças pequeninas...

Isso sem falar na tristeza imposta pela mais dura lei da vida. Quem perdeu o pai ou a mãe no auge da adolescência, quando ele/ela pareciam grandes tolos antiquados e ignorantes e, agora, com o tempo passado, muitas rugas no rosto, a força se esvaindo, gostaria de fazer um recall? Chamar aqui, por uma vez mais, o seu parente mais amado e dizer a ele o que não foi dito. Fazer um recall desse amor, explicar que você não o odiava, que agora você vê o quanto ele foi sábio e brilhante, o quanto você é grata por tê-lo tido como pai/irmão/marido e aquilo tudo que você tinha dito não era bem assim, você simplesmente não sabia o tamanho certo das coisas, você simplesmente era tola e estava com a vista tapada, hoje, deixa eu te dizer, hoje eu sei o quanto você foi o homem mais genial desse mundo e, olha só que coisa, você foi meu...

Ah, o recall. A gente entra com o velho e sai com o novo. Eu queria até fazer um recall de mim mesma. Chamar quem eu fui quando criança, quando adolescente, e mudar o que era ruim. O que eu fiz de ruim comigo mesma. Chamaria a menina e diria que não precisava tê-la maltratado tanto, que não era de todo feia, que não era a mais burra da classe, que, apesar de ter o nariz sempre entupido era uma menina boa e esperta, que poderia ter sido mais doce e desinibida, mesmo usando aqueles óculos ridículos...

Ah, que bom seria... Se pudéssemos acertar essas contas de um passado errado. Se fôssemos assim, uma montadora que errou numa fabricação. Certamente elas também agradeceriam, já que o odiado recall deixaria de ser vilão para ser a chance. E se a Volks e a Kibon precisam, como não iríamos precisar, não é?

Imagens: Jack in The Box with Chart, Dennis Harms; A Kiss in the Park, Kim Andersen; Father Son Talk, Donna Eaton; Girlin Orange Coat, Kim Andersen

Doce Rotina

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6 comentários:

nicoleteimosia disse...

Amiga, está perfeito. Fiquei realmente cismada... se a gente pode fazer recall de tanta coisa, por que não fazer de nossa vida, de tanta porcaria que fizemos e poderíamos fazer de novo e bem? Parabéns, de verdade, pela criatividade. Você é fantástica. /Beijos, meu melhor.
Maria Rita

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Parabéns, Ana! Muito bem sacada a idéia. E muito bem executada também. A gente deveria fazer mais "recalls". :)

Carla Dias disse...

Muito bacana, Ana!

Cris Ebecken disse...

Lindo, Ana! Teve um momento em que imaginei pessoas folheando páginas e páginas de recall... depois, um gosto bom à novas chances, desses de abrir os braços e ser leve... por fim, o melhor de todos: entrar com o velho e sair com o novo...

Carol disse...

E não é q estou precisando fazer um recall, pra ganhar de volta meu ex-namorado? Será que procurando direitinho, não tem uma página na internet, ou uma seção no jornal pro recall? Hahaha, Beijos! Parabéns pela criatividade!!!

Anônimo disse...

Uma crônica maravilhosa, que realmente conseguer retratar os sentimentos das pessoas,e aproxima o leitor de uma realidade,a qual ele nem sempre quer enfrentar,o arrependimento e as marcas que ele pode deixar em nossa vidas. Parabêns, pelo recall que possibilitou a cada leitor fazer.