sábado, 14 de janeiro de 2017

MEU PASSO ERA UMA FOLHA VADIA >> Sergio Geia

 

As cigarras chiavam, não no pátio de cinamomos caiados, mas na ruazinha boba mesmo, de arvoredos chinfrins, a Domingos Cordeiro Gil. Pois bobo também era ele, sentado no chão da sala, sozinho, com o campo sobre o tapete, mirando o ângulo com seu melhor jogador de botão. Na mesa da cozinha havia uma jarra de plástico vermelha com suco de abacaxi que sua mãe deixara pronto; no fogão, arroz e feijão pra esquentar. Seu pai chegava, o encontrava pronto para o colégio; fritava o bife, almoçavam e juntos saíam, por volta das vinte pra uma.
Foram algumas vezes. Estava tremendo, confuso, mas saiu do carro sem cometer gafes; depois de uma reprovação, conseguira enfim a habilitação. Estava tremendo, confuso, mas venceu a timidez e fez seus lábios se colarem ao dela. Estava tremendo, confuso, mas conseguiu digitar o texto e ser aprovado. Estava tremendo, bravo, mas, assim como Caio, conseguira que o Exército Brasileiro o dispensasse, mesmo depois da briga com um milico.
Pois esse cidadão, às vezes melancólico, às vezes perdido, às vezes alegre e entusiasmado e senhor de si, pois esse cidadão que cresceu sozinho, esse cidadão tímido, ansioso, que apesar de calmo não era de levar desaforo pra casa, esse cidadão aí era o Geia; e em todas essas vezes, e em algumas mais, ele experimentou um sentimento tão bom, tão belo e fresco, tão renovador e altíssimo, que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha.
Em que pese o tom imperativo, e com a devida vênia, eu lhe peço, estimado leitor: pare! Neste momento, pare! Agora volte. Volte um pouquinho até o parágrafo anterior e releia saboreando o final da penúltima linha até o fim.
Se você atendeu ao pedido do Geia, deve ter lido “(...) que seu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha”.
Ah, essa poesia fina que salva tudo o que foi escrito até agora, essa poesia delicada e rica, monumental e simples, não é do Geia, mas do Caio Fernando Abreu, e foi pescada outro dia, em “Morangos Mofados”, no conto “Sargento Garcia”. Era um trecho em que o personagem acabara de ser dispensado do exército: “Pois, seu filósofo, o senhor está dispensado de servir à Pátria. Seu certificado fica pronto daqui a três meses. Pode se vestir. – Olhou em volta, o alemão, o crioulo, os outros machos. — E vocês, seus analfabetos, deviam era criar vergonha nessa cara porca e se mirar no exemplo aí do moço. Como se não bastasse ser arrimo de família, um dia ainda vai sair filosofando por aí, enquanto vocês vão continuar pastando que nem gado até a morte. Caminhei para a porta, tão vitorioso que meu passo era uma folha vadia, dançando na brisa da tardezinha. Abriram caminho para que eu passasse. Lerdos, vencidos. Antes de entrar na outra sala, ouvi o rebenque estalando contra a bota negra. — Sen-tido! Estão pensando que isso aqui é o cu-da-mãe-joana?”.
Não há, certamente não há ― que me perdoem os grandes mestres, literatos, poetas, cronistas, romancistas, contistas —, não há nesse imenso mundo das letras, metáfora tão singela e bela, que represente esse estado de espírito que parece fazer flutuar.
A folha vadia, a folha vagabunda e largada, a folha que voa e pula e sobe, e que dança ao sabor da brisa da tardezinha, essa folha esvoaçante um dia foi o senhor, a senhora, o adolescente que pela primeira vez sentiu o calor da caverna vaginal, o estudante que enxergando nomes e números, descobriu que sua jornada na escola terminara; foi o amigo que se deleitou com uma notícia do jornal, o taxista que se entregou a uma conversa fiada, a estagiária que recebeu um elogio honesto; foi o agreste que se atirou faminto a um prato de arroz e feijão, foi o Geia; são todos aqueles que num instante desta confusa vida, experimentam o gozo de um naco de felicidade, que parece pleno, mas que levará o tempo de uma chama de fósforo para se apagar.
Pois as cigarras não chiavam no pátio de cinamomos caiados — como nos Morangos, mas numa ruela mesmo, em toscas e velhas árvores, a Domingos. E no sol intenso do meio do dia, no calor excessivo do verão, às vinte pra uma ele saía de casa, ao lado do pai, e sentia uma coisa leve, macia, difícil de entender. Hoje ele entende essa coisa que o fazia se sentir um verdadeiro vitorioso, e o deixava tão feliz e tão satisfeito, tão contente da vida, que seu passo era uma folha vadia... 

Ilustração: oglobo.globo.com.rio


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3 comentários:

Zoraya disse...

Você está cada vez mais lírico, Sergio, e essa foi muito, muito comovente mesmo. Obrigada!

paulo pereira disse...

Uma das mais belas crônicas que você escreveu. Uma das mais belas crônicas que eu já li.
Parabéns.

sergio geia disse...

Grato, amigos