quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

SOBRE DIVIDIR A COMIDA >> Mariana Scherma

Esqueça presentes caros. Bolsas. Joias. Vestidos e sapatos. A coisa que mais amo ganhar no mundo é comida. Um bombonzinho fora de hora. Um pedaço de bolo na hora do café – ou um convite pra tomar café seja onde for. Quem dá comida a alguém também dá carinho. Sei lá, mas eu só dou um pedaço de algo que fiz quando fica gostoso. E também só dou comida pra quem mora mesmo no coração. Você não vai dar beijinho (o doce, tá?) pra alguém duas caras ou pra alguém que não tenha intimidade, certo?

Essa história de dar comida, eu aprendi com meus pais. Em todo almoço feito em casa, sai um prato para o porteiro. Meu pai sempre guarda um pedaço de bolo/pavê/o que for para o personal trainer (o personal põe meu pai na linha e meu pai tira o personal da linha, vamos resumir assim). Quando era mais nova, detestava sair com o prato de comida até a portaria, achava nada a ver, "que mico, pai". Hoje sei que essa é uma baita demonstração de afeto.

Por sorte, vim morar vizinha de uma senhora que pensa parecido com meus pais. Ganho um teco de tudo o que ela faz e ela ganha outro de tudo o que eu faço. Quando não tenho nada, não devolvo o prato vazio. Nem que for um bombom comprado. O importante, segundo minha mãe, é não devolver pratos nem tappewares vazios. “Isso é falta de educação”. Na real, acho que isso seria mais “falta de carinho”, “cuidado”. É mais ou menos assim: você dá um pedacinho do seu coração num pote transparente e a pessoa o devolve vazio? Ah, sacanagem. Só não é pior do que não devolver o pote... Mas isso não entra nessa coluna.


Felicidade pra mim é um brigadeiro no meio do trabalho. É um pão de queijo no fim da tarde de sábado. É um respiro no meio do turbilhão. É um carinho no estômago e na alma. Quem divide comida também divide o coração. Só não vamos exagerar: dividir Ouro Branco é a maior sacanagem do mundo. Quando você oferece um pedaço do seu Ouro Branco, está subentendido que a outra pessoa vai dizer “não, obrigada”. Não vamos apelar, minha gente.


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