sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

TERAPIA ANIMALANÍMICA
>> Zoraya Cesar

Hoje, com a variedade de terapias ao alcance de qualquer freguês, só os muito renitentes continuam a carregar o peso de suas inseguranças, diziam os amigos. E tanto insistiram que ele, cansado de sua própria personalidade fraca, de nunca ser notado, de ser sempre o preterido, resolveu fazer terapia.

Agora, como escolher entre o extenso cardápio de ofertas? Terapia do inconsciente, das vidas passadas, presentes e futuras, astrológica, lacaniana, dos cristais... Acabou por aceitar a indicação do cunhado do primo de um amigo.

A terapia animalanímica – esse era o nome – consistia em ativar a memória atávica da época em que, muito antes da civilização, homens e bichos viviam em harmonia, e despertar o animal interior cujas qualidades faltavam à personalidade do paciente. Daí o termo animalanímico, de animal e anímico (relativo à alma), explicava a entusiasmada terapeuta, garantindo que o método, criado por ela mesma, era infalível, rápido e duradouro, nada de ficar dez anos no consultório do analista. Ou seja, nosso amigo começou escolhendo bem.

Mas não sejamos preconceituosos, pois a verdade é que, depois da primeira sessão, durante a qual entoou 81 vezes seguidas o mantra “sou um leão” – que deveria ser repetido a cada quatro horas, inclusive de madrugada – sentiu-se um aventureiro, arrojado e destemido. Estava disposto a ocupar o lugar de honra que lhe cabia no mundo, pegar a melhor fatia de carne, passar à frente de todos. Leões não pedem. Tomam.

O rei da floresta começou a treinar suas recém-descobertas garras. Agradeceu com um grunhido ininteligível ao rapaz que abrira a porta, e entrou no elevador, altaneiro e confiante. “Ei, você não tem educação?”, perguntou o rapaz, apontando para uma velhinha que ficara do lado de fora do elevador lotado. O que fazer, desculpar-se, com altivez, ou ignorar? Afinal, o mundo era dos fortes e... tão rápido quanto uma cobra dando o bote, o rapaz arrancou-o para fora, e, num momento cinematográfico, entrou, juntamente com a velhinha. O senhor das savanas ainda ouviu, enquanto a porta fechava, as hienas rindo lá dentro.

Suas pernas tremiam, mas o mantra, 81 vezes repetido em voz alta, sustentou-o, "eu sou um leão, eu sou um leão".  E, afinal, o que pode, mesmo o animal mais poderoso, contra tantas hienas? E foi-se o nosso felino, em busca de um novo momento em que pudesse pôr em prática sua leonice.

A segunda chance não demorou a aparecer, pois, sabemos todos, quem procura, acha. O peito estufado, a juba meio escassa balançando ao vento, nosso Panthera leo entrou na enorme e tensa fila do banco. Concentrado em repetir o mantra, acariciando-o como o Tio Patinhas à sua preciosa moedinha número 1, mal ouviu um senhor idoso, mas ainda rijo, pedir-lhe, educadamente, para dirigir-se à outra fila. Ligeiramente irritado por ter sido interrompido em seu devaneio, o leão rugiu que havia chegado primeiro e dali não sairia. Sentiu um assomo de orgulho por si mesmo, ah, se a Jessica, do escritório, pudesse vê-lo agora! Ainda bem que ela não viu, pois o tal senhor ergueu-o pelas lapelas do terno, tão facilmente quanto pegasse um gatinho, e praticamente o jogou nos braços do segurança, que acudira correndo. O banco inteiro aplaudindo um, apupando outro, o leão desnorteado, o velho era maluco e ele é quem estava errado? Do lado de fora, o segurança passou-lhe um sermão acachapante, era vergonhoso ver um homem jovem fazer escândalo na fila dos idosos.

Nosso amigo estava desconsolado, quase desistindo de assumir sua verdadeira personalidade leonina. Respirou fundo e repetiu o mantra mais 81 vezes. A vida na selva não era fácil, mas ele haveria de vencer.

No dia seguinte inscreveu-se numa aula de karatê, convencido de que seu leão interior precisava de uma ajudinha para despertar a autoestima. Já sonhava em ser faixa preta sênior, mas não durou nem a aula inteira. No primeiro treino, ele se complicou na coreografia ensinada e por duas vezes socou, primeiro, a parede, depois o olho do colega.

Porém felinos não desistem facilmente.

Decidiu sair com alguns amigos para a noitada e, querendo expor sua virilidade leonina, agarrou uma das mulheres do bar. Ela, que não entendia absolutamente nada de leões, reagiu indignada, assim como os companheiros da ingrata, que o expulsaram do recinto de maneira deveras humilhante. Os amigos ficaram atônitos, nunca o tinham visto agir de forma tão tresloucada.

Dia seguinte, a família internou-o, pois ele, numa crise nervosa sem precedentes, passara a noite rugindo e berrando "sou um leão, sou um leão"...

A terapeuta está sendo processada.


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11 comentários:

Anônimo disse...

há que se ter cuidado com as curas que se pretende, rs...

bj!

Ana

Erica disse...

A terapeuta devia estar é enjaulada... ela escolheu o animal errado pro paciente... deveria ter indicado o burro... talvez ele tivesse se dado melhor... fala sério... rsrs

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Zoraya, eu não processaria a terapeuta, pois sem "ela" não haveria essa divertida crônica. :)

Alexandre Durão disse...

Zoraya, mais uma vez, como quem não quer nada, expõe o comportamento masculino tal como ele é.
Querida Zoraya, por favor nos dê uma chance. Crie um personagem masculino (falso, claro) que nos faça sentir orgulho do gênero. Beijos.

aretuza disse...

Como diria minha sábia avó "mas esta terapeuta é uma cavalgadura..."

Zoraya disse...

Pois é, o pior é essas terapias esquisitas são muito procuradas, Ana!
Eduardo, que bom que você se divertiu, a "terapeuta" também rindo à toa, hahahaha (que maldade...)
Érica, não seja cruel. Tenho certeza de que você bem gostaria de indicar essa terapia para umas conhecidas suas...
Alexandre, vou aceitar o desafio, mas depois nao reclame, hein?
Aretuza, a terapeuta é uma esperta, de cavalgadura ela nao tem nada nao...

albir disse...

Não é culpa da terapeuta, Zoraya. Muita gente tem dificuldade em retornar à posição bípede depois de experimentar os quatro apoios.

Anônimo disse...

Oi Zo, adorei a cronica. O que não falta hj são novas modalidades de terapia... E muita gente se achando leão por aí...
bjs

Carla Dias disse...

Poxa, que pena que deu errado. Já estava pensando em fazer essa terapia, para descobrir qual é o meu bicho-do-mato interior... Os dos primórdios de Deus sabe quando :)

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

É como o sujeito que fazia terapia de vidas passadas e, no meio da regressão, descobriu-se um arenque em via de ser defumado. Pode ser perigoso ou, no mínimo, decepcionante! Ótimo e divertido texto.

Zoraya disse...

Albir, você é cruel! hahaha, boa observação!
Carla, sai fora dessas terapias, vai que a gente descobre que o animal que precisamos despertar é um gafanhoto?
André, por favor, me manda essa história do cara que se descobriu um arenque prestes a ser defumado! Só de ler esse pedaço já morri de rir! E se é criaçao sua, tá desafiado a publicar aqui, quero rir!
Beijos a todos