quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

NOTAS DE QUEM SABIA >> Carla Dias >>




No fundo, sempre soube, assim, desse jeito de criança que observa o futuro, feito criatura que se mistura às idades que ainda não completou. Como quando se sentava em frente de casa, roçando o pé na grama, observando o sereno chegar e com ele o silêncio que só cabe nas tardes serenadas. De enquanto era pessoa que não sabia que pessoa se tornaria dali duas, três décadas. Aliás, pensar em décadas era muito complicado, dava em dor de cabeça quase como aquela que chegava depois de observar o céu por horas, tentando entender onde terminava o universo. Porque flertar com o infinito lhe parecia perigoso. Por isso imaginava futuro com auxílio da tabuada: daqui 2 x 3 anos, 4 x 2, 3 x 3.

Sempre soube, feito a menina desamparada de presença, que nem se importava em passar quase todo o tempo na própria companhia a dobrar roupas, varrer o chão, cuidar do jantar. Tampouco temia o silêncio que antecipava as tempestades. E calçava os chinelos por conta dos relâmpagos, porque temia que eles lhe entrassem no corpo rastejando pelo chão e alcançando seus pés. Que cobria os espelhos por conta dos relâmpagos, porque acreditava que, se estivesse observando seu reflexo, um relâmpago poderia roubá-lo, e ela nunca mais se reconheceria. Que trancava as portas por conta dos relâmpagos, porque nunca quis que eles entrassem em sua casa, sentassem em seu sofá e discutissem a vida com ela. Não apreciava a filosofia dos relâmpagos que teimam em mudar o curso da vida das pessoas. Ainda assim, confessa a si, em um arrastar as palavras, que adora observá-los de longe.

Soube muito antes de os desejos borbulharem no seu dentro, alguns confusos e outros tão certos de seu alvo, o que não lhe impediu de aceitar que se tornaria uma pessoa capaz de mudar a cada vez que a vida pedisse sentido, quando lhe faltasse amparo, prumo. E apesar dos planos, e das falseadas certezas que consumiu enquanto tentava evitar o sopro das mudanças.

Como sempre soube, ainda que evitasse a consciência de que sabia, comportava-se como quem jamais a alcançaria. E assim viveu muito bem, obrigada, por tanto tempo, tantas tabuadas. E aquela fisgada, a sensação recorrente do que fazia falta, mas não se sabia do quê, a acompanhou e a ensinou a ser muitas: a que batalhava pelo direito de comer, beber e vestir, a que se arriscava em projetos fadados ao fracasso, mas que, às vezes, davam certo. Aquela que aprendeu, de maneira nada fácil, que benevolência quase sempre é via de mão única, e que certamente a receberemos não daqueles a quem a oferecemos, mas de outros, dos transeuntes, dos seres humanos que mais parecem personagem em passagem breve pelas nossas vidas. E que se pode ter o amor de uma vida a cada vida que se vive.

Mudou-se, então, para dentro de si e para a rua arborizada de um bairro diferente. Mudou-se para as sombras dessa rua, para as peculiaridades do bairro, para a experiência de caminhar pelo futuro que nunca imaginou. E também para a correria das crianças, as calçadas como testemunhas de suas brincadeiras. E para os céus do verão desnorteado, que oferecia, em um mesmo dia, céu azul, azul e então cinza, cinza.

Qual não foi sua surpresa ao se pegar sentindo o mesmo sentimento de quando era ela quem brincava de ser tantas, nas calçadas de sua infância.

Sempre soube - de um jeito escondido, misterioso, temido até - que a vida aconteceria de modo a lhe ensinar as levezas. Só que nunca imaginou que, para aprender a existir, sem o peso do mundo nos ombros, teria de conhecer as suas asperezas, reconhecer suas dolências, apreciar sua psicologia inversa. E que demoraria tanto para alcançá-la assim, a vida em festa, musicalmente aprazível como a gargalhada do menino que brinca nas calçadas da vida, sem nada saber além de que, naquele momento, a vida é alegria.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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4 comentários:

Zoraya disse...

Mais uma leveza da Carla. Se um dia você publicar (aliás, cadê, hein?) um livros com essas suas crônicas leves, periga de eles saírem voando por aí."Mudou-se, então, para dentro de si e para a rua arborizada de um bairro diferente.", lindo. E aprender que o bem que fazemos quase nunca é retornado pela mesma via è um primeiro passo para a libertação do ego. Seria bom já nascer sabendo isso.

albir disse...

E por que esquecemos, Carla, que, quando brincamos nas calçadas da vida, não precisamos saber nada além de que, naquele momento, a vida é alegria?

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Carla, li não apenas como se fosse a meu respeito, mas como se fosse meu. :)

Carla Dias disse...

Zoraya... Eu vou construindo livros com essas crônicas leves. Se um dia ele resolver sair pra vida, pra ganhar dedos para folheá-los, quem sou eu para impedi-los, não? Vamos ver aonde eles vão chegar.

Albir... Acho que esquecemos de propósito, viu? Porque seria impossível realizar coisas, conquistar coisas que julgamos necessárias sem nos distrairmos com aquele momento, aquela alegria.

Eduardo... Te dou de presente. É seu :)