domingo, 17 de fevereiro de 2013

DOIS ENCONTROS
>> Whisner Fraga

Ano passado, pouco antes do Natal, fui a Ituiutaba, a convite do meu amigo Anésio, para uma mesa na UFU, que compartilharia com Gazy Andraus e Tina Curtis. Durante o evento, li um trecho de um conto inédito e aproveito para pedir desculpas à minha mãe, atenciosa na plateia. O pedido se justifica pelo fato de que o texto é bastante forte, quase pornográfico, e não pega bem para uma senhora de setenta anos ficar escutando essas indecências. Findo o bate-papo, saímos à procura de um hotel. Não me preocupei em fazer reservas, pois a cidade sempre foi sossegada, ainda não tinha ouvido falar em falta de um canto para pousar. Só que estava sendo inaugurado um grande supermercado naquele dia, erguido sobre as ruínas de um prédio histórico, devidamente demolido para dar passagem ao progresso. E, evidentemente, pensões e hotéis estavam lotados para o acontecimento. Como não tínhamos escolha, resolvi colocar o carro na estrada e rumamos para Uberlândia.

Como estávamos com fome, eu e minha mãe resolvemos parar num posto, engastalhado na quina de um trevo que distribui rodovias para quatro cantos de Minas e Goiás. Ainda na fila dos pastéis, ouvi um grito: Wisley. Wisley. Por via das dúvidas, olhei ao redor: ninguém acenava. Então, um sujeito veio caminhando em minha direção. Como eu não me recordava da figura, continuei no meu canto, fingindo um interesse anormal por uma coca-cola zero. É evidente que o cara iria disparar algo do tipo: você se lembra de mim? Não, não, nada. Por sorte, os ituiutabanos não se deixam vencer tão facilmente, não desanimam diante de uma cara fechada e assim ele prosseguiu.

Sou o Eliseu. Tá, e...? O negócio é que essa apresentação não ajudou muito. O Eliseu, do Polivalente. Bom, eu precisava de mais dados, porque minha memória é terrível: o curso de Engenharia fez o favor de trucidá-la. Aí foi me contando. Ele era o menino que todo mundo usava como saco de pancada. Estava esquentando, mais um pouco e eu saberia com quem falava. Como não há nada melhor para avivar a lembrança do que uma boa história, ele mandou a dele.

Que vinha da roça, que era inocente, um bicho do mato, que morava com o tio, que fora para a cidade para estudar e que jogava bola com a gente todos os sábados, na quadra do colégio Polivalente. Aos poucos fui me inteirando e fui conectando aquele rosto infantil ao semblante maduro, de quem já passou um pouco dos quarenta. Fiquei ponderando a respeito do encontro: como pode acontecer? Como alguém passa quase trinta anos sem encontrar um colega e, assim que o vê, já sabe de quem se trata? Invejo gente com essa capacidade.

Daí que ficamos conversando e degustando frituras até tarde. Falamos dos colegas, contamos algumas histórias do nosso tempo de estudantes do primeiro grau. Perguntei sobre os mais chegados e ele me deu notícias de vários. Gente sobre a qual eu não ouvia falar há décadas. Como acontece, alguns estão bem, outros nem tanto, mas são coisas da vida. Evidentemente, trocamos telefones, combinamos um almoço para breve, consideramos que seria interessante se conseguíssemos organizar um encontro da turma, do tipo 25 anos depois ou algo semelhante. Nos despedimos contentes, sabendo que provavelmente não cumpriríamos nenhuma promessa. Mineiro é assim mesmo, polido, faz convites somente por educação.

Chegamos de madrugada a Uberlândia, atravessamos uma chuva violenta nesse meio tempo, mas, ao abrirmos a porta do apartamento de minha mãe, nos sentíamos contentes, de bem com tudo. É bom rever amigos, é bom ter um dia de surpresas. Dormi em paz, sabendo que o dia seguinte seria difícil e que a realidade me chamaria de volta à rotina do esquecimento e que, daqui a um ou dois anos, eu já não me lembraria mais de Eliseu e de sua polidez exemplar.

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5 comentários:

Zoraya disse...

"a realidade me chamaria de volta à rotina do esquecimento" foi lindo! Uma pena que essa seja mesmo uma rotina em nossas vidas afetivas (pq as contas nós nao esquecemos de pagar, né?). Sério qu a faculdade de engenharia destruiu sua pouca memória? E eu pensando que engenheiros eram o máximo! rrsrs. Beijos

albir disse...

Vivo culpado por causa dos Eliseus que esqueço, encontro e torno a esquecer. Mas também tenho os meus dias de Eliseu esquecido, e isso eu acho que me redime um pouco.

Carla Dias disse...

Já assumi minha falta de tato em me lembrar dos rostos. Sou meio assim, também... Conte a história que eu localizo, caso ela tenha feito alguma diferença para mim. Acho esses encontros muito interessantes. Parece que eles nos acordam para a pessoa que fomos, da qual nos distanciamos, e é bom revisitar a si naquele momento, para então voltar ao agora e continuar com a vida.

whisner disse...

Zoraya, sim, a engenharia destruiu minha memória. Durante o curso, deduzíamos todas as equações, tudo ali tinha de partir do zero, não precisávamos memorizar nada e isso me fez preguiçoso, hoje não suporto decorar.
Albir, eu também tenho muitos dias de Eliseu e sou muito esquecido, o que também é bom.
Carla, eu não consigo me lembrar de nomes de livros, esqueço nomes de autores consagrados, sou uma negação. Às vezes é divertido.
Abraços a vocês.

Vanderley José Pereira disse...

Nossa que texto próximo a mim... adorei... adorei como vc retratou o trevão! famoso por seu empadão, uma delicia....