quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MEU DIA DE INCRÍVEL HULK
>> Mariana Scherma

Tem gente que morre de pânico de ficar sozinho, já reparou? Chega em casa e entra na internet, liga pra alguém e liga a tevê também. Tudo ao mesmo tempo. Tudo pra passar a impressão fake de estar bem rodeado. Talvez seja a falta de preparação pra morar sozinho. Medo de ficar na sua própria companhia e ouvir seus pensamentos, eu acho.

Pra mim, morar sozinha tem um quê de mágico. Todo dia me sinto numa HQ de super-herói (no masculino, porque odeio falar super-heroína, soa como uma droga megapesada) com poderes semibestinhas, como fazer um café melhor que o de ontem e conseguir tirar uma mancha da camiseta branca. E todo dia também sou obrigada a controlar minhas variações de humor quando algo sai errado dentro de casa (equilíbrio, faça o favor de me visitar dia desses...). Isso é superpoder pra caramba, meu amigo!

Domingo passado, eu estive cara a cara com meu arqui-inimigo mais temível: uma barata. Não uma baratinha, uma dessas cascudas, grandes e com aquelas antenas de meio metro (ok, exagerei 10cm no tamanho da antena). Eu odeio barata. Senhor, que terror! Elas são nojentas, cabem em qualquer frestinha, voam (Deus dá o poder de voar pra cada bicho, né?) e – o pior de tudo – podem sobreviver a um ataque nuclear. Eu, você, meus pais fofos, meus amigos queridos, o Johnny Depp, o Ryan Gosling, todos viramos pó num ataque, mas elas sambam na cara da sociedade que nem existe mais. Foi essa minha sede de vingança de um bicho que sobrevive a quase tudo que me fez correr na direção dela, gritei o mais alto que pude, joguei o chinelo e ela sumiu. Fiquei me achando por tê-la assustado no grito, pensando que ela voou longe do meu apê.

Caramba, eu sou inocente. Achando que ela tinha ido embora, fui pra cama com meu livro e comecei a escutar barulhinhos, tipo tsc, tsc. Jurei que eram coisa da minha imaginação (quem vive sozinho também precisa controlar alguns medinhos, sobretudo à noite), voltei pro livro até a hora de me entregar ao sono. Quando decidi largar, dormir pra valer, vi a barata se dirigindo ao banheiro (a cascuda devia querer algum hidratante meu) e aí virei uma versão de 50 quilos com pijaminha fofo do Incrível Hulk. Urrava de raiva, medo e adrenalina e jogava minhas havaianas como o Hulk poderia bem fazer, talvez com menos graciosidade. Matei tanto a bicha que na próxima encarnação ela já chega morta. Depois de lavar meu chinelo e dar descarga na barata, fui dormir com a minha autoestima nas alturas. Sim, eu me livrei de uma fulana que sobrevive a ataques nucleares. Eu vinguei um pouco a raça humana. Me enrolei no lençol fingindo que era minha capa de super-herói e dormi com a sensação de dever cumprido.

Morar sozinho tem muito dessas pequenas vitórias. Você X a barata. Você X o chuveiro que anda pifando. Você X a lâmpada que queima justo à noite. Você X a geladeira vazia. Você X a maldita rolha do vinho que não quer sair. E principalmente: você X você. Seus pensamentos, seus medos, suas paranoias, suas ansiedades... Claro que dá pra chamar amigos quando quiser, brincar com o gato da vizinha, bater papo com a vizinha, ouvir música no volume máximo permitido. Mas na hora de fechar as portas, é só você. E às vezes uma barata pedindo pra ser exterminada. Domar seus medos nessa hora é o grande teste pra virar super-herói. Um teste feito todo santo dia.

Ah, e um P.S.: comentei com minha mãe por telefone do quanto me senti Incrível Hulk ao matar a barata. Ela me disse que, como toda essa minha força, tô mais pra Incrível Rúcula. Achei que era eu a responsável pelas piadas e trocadilhos bestinhas entre meus pais, poxa vida.


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6 comentários:

Zoraya disse...

Só o fato de decidir morar sozinha já é prova de coragem suficiente. Voto em você para a nova Hulk do pedaço. Uma vez voltei para o apartamento pq tinha uma barata no corredor, entre mim e o elevador. Tive de interfonar pro porteiro ir matá-la, vê se pode! Voto também por mais dessas aventuras de morar consigo mesma, ficou muito legal, me diverti muito.

Mariana Scherma disse...

Obrigada, Zoraya! Morar sozinha, na verdade, foi mais uma questão de necessidade. Mesmo assim é uma baita aventura :)

João disse...

Hilário, Mariana. Só por você não ter chamado alguém para matar a barata, merece o título d super-herói. Eu adoro ficar sozinho, não vejo a hora de ter condição suficiente para sair de casa. Ótima crônica!

albir disse...

Mariana
Essa relação mulher X barata merecia uma análise mais detalhada dos especialistas. Conheci uma (mulher), que passava a noite acordada, olhando pra barata, mas com medo de matá-la e ser atacada pelos famíliares da barata que se precipitariam dos esconderijos para a vingança. Peço permissão pra gostar da barata, só porque ela lhe inspirou esse texto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Mariana, continue vingando a humanidade por nós, pobres cidadãos comuns. Bela crônica!

silvia tibo disse...

Haha. Muito boa, Mariana!
Moro sozinha há treze anos e então me vi em várias partes do seu texto!
Para além das baratas e dos chuveiros queimados, talvez o mais difícil nessa história todas seja mesmo o tal encontro diário consigo mesmo, né?
Mas chega um dia em que a gente se aceita e aprende a apreciar muito a própria companhia...rsrs.
Grande beijo!
Parabéns pela crônica!