DESALMA >> Carla Dias


Desentende-se com certos desejos. Os que o cercam vivem a satirizar sua indignação diante de tais prazeres, o que nunca cala seu incômodo.

Sobre aquilo que não entende, mas que exige a decência da compreensão, ele luta para não permitir que o questionamento se afogue na saliva das conversas fúteis. Sabe que descarrilar-se da importância é uma perversidade que um ser humano é capaz de arremessar ao outro com o rótulo de trabalho concluído ou caridade providencial.

Dizem que não dá para levar a vida como a que tem levado, desentendendo-se com o é como é. Conhece quem acha que cada geração tem de lidar com o problema da sua época. Assim, não se preocupa em cuidar do que não desfrutará, levando essa determinação a um entendimento tão distorcido, que indivíduos dessa categoria só fazem ajuda a alimentar decisões que não têm volta.

Abateu a árvore, nasce outra. Secou o rio, tem um monte de água no mundo e a chuva resolve. Se eu fizer, ah, só eu fazendo não prejudica. Se fica parado, melhor esse dinheiro ser meu. Já que tenho o poder de fazê-lo, vou resolver do jeito que eu quero. Temos de modernizar o mundo, índio pra quê? Vamos construir um hotel vinte estrelas naquela área protegida e lucrar muito. Defensores de índios pra quê? Envenenaram a terra, mas fizeram a economia andar, isso que importa. Sumiram com eles? Aposto que mereciam! Gente que não consegue comprar comida? Mas fizemos a economia andar, isso que importa. Não tem o que comer, porque não trabalha. Vamos ajustar esse ensino, porque os outros pensarem prejudica os negócios. Violência é coisa de periferia. O futuro que trabalhe para sobreviver.

Não é um amargurado, conhece o que de bom a vida oferece: paisagens que vão além das fotografias publicadas na internet, aqueles que respeitam essas paisagens. Música, comidas diferentes, idiomas, pessoas diferentes. Gentilezas que não dão ibope, mas fazem comunidades sobreviverem ao esquecimento. A diversidade das culturas que podem existir em um mesmo país. Acredita que a vida é um milagre atrás do outro, mas que, infelizmente, vem sendo sufocada pela quantidade aviltante de quem não se importa, porque não tem a ver com a história que ela luta para contar.

O que o incomoda vem daqueles que pensam que seus universos pessoais representam o universo de todos. E, se não cabe nesse lugar, o sujeito é descartado na ação ou no esquecimento. 

O que teme é ser envolvido no enredo dos desejos atendidos a qualquer custo, do ter o melhor isso que o melhor aquilo pode oferecer e fechar os olhos de jeito a não conseguir mais enxergar o outro. Então, feri-lo continuamente, convencendo-se que a culpa é dele.

Questiona, inclusive a si mesmo, para não se desalmar. 

Imagem © 愚木混株 Cdd20 por Pixabay

carladias.com


Comentários

Anônimo disse…
Só uma coisa a dizer: FODA! 👏👏👏
Zoraya Cesar disse…
Carla, arrebentando como sempre. Arrebentando nao, que a Princesa das Palavras é gentil demais pra isso. Antes, jogando nossas certezas superficiais pelos ares com mãos gentis e firmes. Arrasou.
Nadia Coldebella disse…
"O que o incomoda vem daqueles que pensam que seus universos pessoais representam o universo de todos". Nem sei o que dizer desse trecho. De um lado é estranho ver outras formas de viver, de outro é desesperador achar que o mundinho que se vive é único. Se bem que pra muita gente, fazer de conta que a sua forma de vida é o centro da existência talvez seja bálsamo para a insignificante vida que levam.

Pára! Acabei de ter um vislumbre agora do que me incomoda mesmo, mas acabou de escapar pelos meus dedos... Aff! Agora achei coisa pra pensar durante o resto da semana...

Texto matador e profundo como sempre!

Bjka
Albir disse…
Carla escreve em terceira pessoa, mas é como se apontasse pro leitor. Não há como escapar. Não adianta não querer pensar.

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