INTROMETIMENTO >> Carla Dias


"O homem segura a mão do menino que faz birra. A mãe da criança disfarça com um sorriso incomodamente largo. Ele segura a mão do menino choroso, cansado. Segura tão apertado, que a criança não consegue escapar. A mãe penteia os cabelos da criança com a mão, antes de entregá-la ao homem, que o sacode, alegoricamente, arrancando gritos histéricos de seus admiradores e o choro desesperado do menino."

Espanta-me essa indecência, porque não consigo compreender o motivo de se admirar o raso. Você pode até ir com a cara do raso, aproveitá-lo como material de comparação para o que não deseja para si. Agora, admirar? Admiro nada... desprezo com o desprezo borbulhando.

Pena que meu desprezo vale nada.

A Narradora Intrometida que sou anda muito irritada com as histórias que tem narrado. Acho que a minha habilidade de me intrometer na história dos personagens anda incomodando os distribuidores de histórias. Ontem, eu narrei uma história de amor, na qual não havia rastro de amor. Anteontem, eu narrei uma sobre honrar a justiça, mas, meus caros leitores, era a injustiça contundente, disfarçada de amparo por uma eficiente e dispendiosa campanha de marketing.

Além do mais, minha intromissão é apenas uma condição que me permite gritar o que me pasma e o que me encanta nesses sujeitos-personagens e seus criadores indomáveis... ok, às vezes, eles são chatos. Eu posso mostrar minha indignação ou deslumbramento, mas não posso mudar as histórias deles.

"O homem devolve o menino para a mãe. Apesar do sorriso, dentro dele reverbera o desejo selvagem de fazer a criança sumir. Ele visualiza a cena e respira fundo, alentado pela cena imaginada. Pergunta-se, ecoando a pergunta dentro de sua cabeça: para que servirá esse moleque que vai aprender nada que valha a pena?

É que aquele chororô todo o impacienta violentamente. Lamenta ter de fazer esse papel, mas seu assessor prometeu que isso reverterá em benefícios. Então, que fui pesquisar quais seriam esses benefícios e percebi que ele não se estende, de maneira alguma, aos admiradores desse senhor.

Daí que estou confusa: admirar para quê? Admiro nada! Nem a pau!

Não que meu desprezo possa mudar o rumo dessa história. 

"A mãe abraça o menino e o acalma. Ele tem de mamar, sabe? Por isso a manha... fome. O homem e seu sorriso de dentes extremamente brancos, escancarando uma boca que engole comidas que jamais chegarão às bocas daqueles que o alimentam." 

Narrar esta história tem sido um curso intensivo sobre falta de noção. O autor deve ter um desejo poderoso de ser poderoso sem fazer esforço, porque é isso o que vai acontecer, se ele continuar com essa historinha dos infernos. Ele vai vender milhares e milhares de exemplares do livro, porque ele será uma repetição à qual muitos já se apegaram.

Do apego é duro se despir, não impossível.

"Já dentro do carro, o homem pergunta sobre os próximos compromissos: tomara que eu não tenha que pegar outro fedelho no colo! Esses malcheirosos ignorantes! O assistente lê a agenda e o homem escuta sem olhar para ele, a testa franzida, os olhos espelhando uma indignação sem fim, por ter de lidar com seres inferiores."

Ah, a prepotência... 

Algo que a minha experiência de narradora me ofereceu: o entendimento sobre o superpoder dos clichês. Eles costumam ser verdades, mas das verdades arrasadoras para quem tem um pingo de decência. E tem outra coisa...o autor anda sentindo uma culpazinha por fazer personagem querer sumir com a criança. Ele ficou deprimido com o que escreveu, porque, dias depois, a avó dele o abraçou e disse: você é um homem de coração tão bom. A culpa o tomou, porque, assim como seu personagem, ele desejou profundamente sumir de vez com aquele moleque birrento.

Preciso explicar que a pobre da criança é apenas uma metáfora para tudo aquilo que eles, autor e personagem, odeiam em si mesmos? Uma miséria que que os alcança feito golpe, que os obriga a encarar a própria pobreza, muito mais profunda, entranhada, da qual não conseguem se desfazer, porque ela os controla, uma maestrina conduzindo a desinibição para que eles sejam cruéis, apenas por prazer?

A criança é apenas uma criança cansada e com fome.

O autor reescreveu o trecho: 

"O homem abraça a sua acompanhante, uma ex-garota de programa. Ela se dedicou e abandonou aquela vida, que de fácil tem nada. Estudou muito, esforçou-se até conseguir o diploma. Defendia a meritocracia com unhas e dentes. Um dia, uma rival gratuita contou aos colegas do escritório que ela “dava uns rolés por [sic] uns caras aí”. Depois disso, e de disseminarem a história dela pela internet, só restou a ela voltar para a profissão original." 

O homem a contratou como acompanhante para eventos da firma e blábláblá. O autor fez quase copy/paste de Uma linda mulher. Então, teve de voltar à versão original, evitar plágio e driblar a vovozinha, mantendo a fama de homem de coração tão bom.

Autoengano é uma coisa, não?

Os personagens se enganam, delegando aos bons de conversa fiada as suas vidas. Então, escoram-se em promessas, como se elas fossem o alicerce da sua existência. Como se não fossem capazes de pensar por si mesmos, de se cuidarem, de compreenderem que os falastrões não são idiotas, como preferem se mostrar, mas rasteiros, perigosos.

"O homem passou quase uma hora debaixo do chuveiro, esfregando as mãos e os braços com a bucha, até que minasse sangue. Pensa nele, no menino. Lembra da mãe dele, uma mulher desengonçada, miúda na sua pobreza de espírito, com grandes olhos engolidores de verdades. Pensa em quando a conheceu, naquele mesmo parque que ele reinaugurou, sem fazer grandes esforços para melhorá-lo. Ele disse a ela que seria alguém. Ele disse isso mil vezes e ela apenas sorria, um sorriso insignificante, de dentes se amontoando em uma boca que ele beijava em noites em que a solidão era mais cruel. Um sorriso de quem se bastava naquela vida medíocre que ele se recusou aceitar."

Aqui comigo, leitores... 

Ele tentou tirá-la de lá, do bairro onde eles nasceram, cresceram, amaram-se e desacataram-se. Ofereceu a ela uma vida mais digna, longe daquelas terras destinadas a ser lar de ninguéns. Ela não quis deixar seus afetos, as pessoas e os cenários. E não se deixem levar, caros leitores, pelo o que ele usa para justificar não ter conseguido tirá-la de lá. Aquela mulher miúda, enfiada em roupas simples, sofrida, sim, infeliz, não, ela fez mais pelos outros do que ele e seu terno chique, seus sapados lustrosos, seus cabelos bem-cortados e seu prestigioso cargo.

"O homem janta sozinho, barulhos de televisão a ampará-lo na sua solidão. É um sujeito importante, com cargo importante, com muito dinheiro e poder. Ainda assim, é o superpoder do clichê que o enreda. Não demora para ele relembrar o que, durante longas sessões de meditação e terapia, tentou apagar da memória. Por que voltei lá? Por quê?!"

Nosso arrogante da vez, esse ser vil e intragável, na tentativa de ajudar aquela mulher, mas para beneficiar a si mesmo, caiu novamente nas graças dela. Por que foi insistir, depois de tantos anos? Agora, como não vou deixá-los com a versão indigesta do autor, peço que entendam: 

"O homem segura as mãos do menino entre as suas, e tão forte, de tão emocionado, que a criança faz careta. Ele se enxerga naquela careta, naquele jeito marrento de ser. A mãe o entrega ao homem, seus grandes olhos marejados de emoção. Finalmente, o amor de uma vida conhece a criança que tornou a vida dela repleta de significado."

Um pai conhecer seu filho, nascido sem a presença dele, é emocionante em livros, artigos, filmes, séries de televisão e telejornais sensacionalistas, certo? 

Mas tenho de lhes dizer que tem jeito, não.

O autor insistiu no desfecho, porque também ele se sentia propenso a fazer a escolha do personagem. Como assim ver sua ilibada reputação ser arrastada por uma história de amor? O terapeuta de mentira, um tipo de treinador de emoções, sugeriu ao homem que ele teria de, a cada vez que se visse tomado pelos sentimentos por aqueles dois, amante e filho, pensar no oposto.

Não queria contar as verdades escondidas nas entrelinhas dessa história, mas sobrou para mim, que não vou deixá-los sem os detalhes. Permitam-me narrar intrometidamente:

"O homem disse, seguindo a orientação do treinador de emoções, em uma voz decidida, dentro de sua cabeça: eu gostaria que esse moleque sumisse. Repetiu a frase, até que a mãe tirou o menino do colo do pai, esbarrando a mão na dele, levemente. Então, ele repetiu mais alto, aos berros, com mais raiva, enquanto bancava um homem distinto, agradável. Funcionou, por algumas horas, até ele ficar sozinho, lembrando de quando abraçou o menino, o esbarrar mãos com a mãe dele. 

Não se iludam, leitores... o homem não mudará por causa deles. Não se tornará quem ele nunca foi. Essa história, por trás da história, é apenas uma ironia que o homem amarga, uma lembrança que não permite a ele viver completamente a verdade que inventou para alimentar seus admiradores."

The end, bem acabado mesmo.


Imagem © Cdd20 por Pixabay 


carladias.com

Comentários

Paulo Barguil disse…
Linhas e nós me(n)tidos em cada pessoa. :-)
Zoraya Cesar disse…
Que forte, Carla! Tenho a impressão q vc quase sentiu uma dor física ao expor esses intrometimentos. Não deve ter sido fácil. Excelente, como sempre.
Nadia Coldebella disse…
Olha Carla, vc vai me dar trabalho nas lives.
Que texto poderoso!
Li duas vezes e vou deixar quieto aqui em mim. Até assentar, porque com certeza vai borbulhar por aqui. Ai vou ter que ler novamente e volto a comentar.
Mas já posso dizer que adorei esse intrometimento. Vc escancarou as máscaras, derrubou as segundas intenções. Expôs as mentiras e os engôdos que o autor/personagem (nós) cria para si mesmo, TENDO A CONSCIÊNCIA DA PRÓPRIA DESONESTIDADE.
Isso foi o pulo do gato!
Veja, em "Uma linda mulher" ,há a ideia romântica do inevitável, do "fiz aquilo porque não tinha escolha", "acreditei na minha própria mentira". Mas vc aprofunda, seu intrometimento abre uma porta, janela ou tira a tampa de um poço. "você acreditou na própria mentira, mas sabia que mentia".
Vc humanizou um desumano.
Gostei muito da sua caneta afiada (pra não dizer língua), desse sincericídio que atinge o núcleo do átomo. Dessa realidade nua e crua, sem mascaras, sem enganos, dessa necessidade de encarar a verdade, o fato, a foto, sem disfarces.
Você tem noção que sua escrita é incômoda, reveladora e poderosa?
Preciso elaborar mais. To lidando com umas verdades aqui.
Grande beijo.
Carla Dias disse…
Paulo, a sua frase é fantástica.

Zoraya, essa narradora intrometida vive me dando dor de cabeça... rs. Obrigada!

Nádia, obrigada por comentário tão gentil com o meu texto.
Essa narradora intrometida nasceu porque toda vez que eu escrevo como narradora, acabo incluindo percepções de observadora. Não adianta, não sei não me intrometer. Meus personagens sofrem na minha mão.
Já disse e repito: vamos tirar a live de letra.

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