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VENDEDOR DO MÊS >> Carla Dias


Não se sente tropical o suficiente para sobreviver ao sol escaldante. É estrangeiro na terra do calor e das risadas. Prefere sorvete de baunilha e uma sombra em canto disponível. Prefere o silêncio às notas vibrantes da rumba ou de seja qual for o ritmo que ecoa, em bom volume, pelo salão. 

Eventos da firma vêm em tons que não o acomodam. Durante os tais, sempre sente como se fosse incapaz de sobreviver, até o final da festa.

Ganhou um bônus pela venda de um lote encalhado de capas para celular personalizadas com defeito. Erro na prensagem da logomarca famosa, que perdeu valor com a ausência de um “r”. Ficou conhecido por ser o vendedor que desencalhou o erro, sem perder um centavo do valor original do produto.

Gol!, foi o que gritaram, quando ele confirmou a venda. Saiu da reserva e foi para o campo esverdeado dos vendedores da primeira divisão. 

Remói ter usado o bônus para pagar a estadia daquelas capas para celular amarelas com defeito, que hoje vivem no porão da sua casa.

Imagem © Georges Seurat 

Comentários

Fiquei ao mesmo tempo com dó e querendo saber mais sobre o personagem, que gastou o dinheiro do bônus nas capas de celulares. Você deu aqui um relance de uma personalidade complexa que deixou com gosto de quero mais!
Zoraya Cesar disse…
O estilete da dor colocado sutilmente sob a nossa pele. Um personagem melancólico e ao mesmo tempo desconcertante. Tinha que ser Carla Dias, claro!
Carla Dias disse…
Alfonsina e Zoraya, quando escrevi este conto, imaginei o personagem exausto, de tanto tentar bater meta - no trabalho e na vida -, esgotado por ter se esforçado tanto para ganhar um título. Totalmente envergonhado por ter conseguido isso enganando a todos, inclusive a si e sem ter com quem desabafar a respeito, já que seus supostos amigos são companheiros de trabalho. Então, sim, trata-se de um homem com personalidade complexa, uma pessoa melancólica.

Beijos!
Albir disse…
Em preto e branco, o sigificado do sucesso nestes tempos de pós-verdade em que se chora o sucesso e a falta dele.
Carla Dias disse…
Albir, eu não sei como as pessoas não acham extremamente cansativo essa coisa de se iludir com rótulos e posições. Há tanta leveza na vida sendo escoada nessas buscas que levam a lugar nenhum. Espero nunca fazer esse papel. Vou me esforçar pra isso.
Paulo Barguil disse…
O que se perde quando se ganha? O que se ganha quando se perde? Uma temática sempre atual e pertinente.