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A MULHER DA ÁRVORE - Parte 3 >>> Nádia Coldebella

MENININHA


Anteriormente...

Depois de Domênico sonhar vários dias com Vilma, Odete sonhou também. O mesmo sonho.  Na delegacia, soube que ela desaparecera e que tudo era muito estranho. Então, Odete decidiu que o marido precisava ir a Rio da Fortuna.


Plec, plec, plec.

A chuva continuava caindo.

Uma menininha, de três ou quatro anos, estava sentada na área do fundo da casa, bem a beira da calçada, observando as gotinhas caírem nas poças e formarem pequenas ondas. Seus cabelos eram cacheados, da cor do ouro, e contrastavam com o vermelhão brilhante da calçada e com as paredes muito brancas da casa. Alguns respingos marrons macularam a parede e, no chão a frente, o que não era lama era terra vermelha que afundava ao menor toque.




Atraída por um barulho, ela arregalou os olhos azuis quando viu o matagal se mexer. Seus olhinhos ficaram ainda maiores quando um sapato muito grande tentou pisar sobre uma pedrinha para evitar a água, enquanto o outro, desavisadamente, enterrava-se na lama. Levantou os olhinhos e pode ver o dono daqueles sapatos enlameados. Era um homem alto, que carregava um guarda-chuva colorido. Ele tentava equilibrar, sem sucesso, o  corpanzil avantajado sobre as pedrinhas minúsculas. A criança riu alto quando ele pisou nelas com a ponta dos pés e fez pose de bailarina para não cair.

Atrás dele vinham mais dois, de farda. Apesar de bem menores, pareciam mais desajeitados que o primeiro. Vendo-os, a criança os reconheceu. Eles haviam estado lá no dia em que a mamãe havia ido embora. A menina abaixou os olhinhos e o sorriso desapareceu dos lábios. A curiosidade infantil, porém, venceu e ela olhou novamente o homem grande que agora também a olhava. Ele sorria abertamente.

Vendo a criança, Domênico pensou, com aperto no peito, estar vendo a própria  Vilma de seus tempos de infância. O riso dela era igual ao da mãe. Ele aproximou-se da calçada e abaixou-se, tentando ficar com os olhos na mesma altura que a menininha.

- Oi,  sou Domênico. - A menina se contraiu, mas logo explodiu numa grande gargalhada. Ao abaixar-se, Domênico desequilibrara-se e havia sido rapidamente socorrido pelos homens de farda que esforçaram-se para conter o seu peso e não deixá-lo cair estatelado na lama. 

Ele procurou recompor-se, meio sem graça pela situação que protagonizara. De dentro da casa, atraídos pelo riso da criança, saíram um homem e uma mulher. 

O homem era alto e muito branco, quase albino. Tinha os cabelos loiros-cinza e olhos muito pequenos, de um azul apagado, rodeados por vincos de quem trabalha ao ar livre e procura evitar o sol. Era magro, mas forte. Da ponta dos seus braços pendiam mãos muito grandes, que Domênico pensou serem desproporcionais ao corpo. A mulher tinha uma aparência envelhecida, amarelada e já começava a encurvar-se. Seu cabelo era branco e grosso, meio frisado, rareando em várias partes do couro cabeludo. A boca era espremida e, na parte inferior, voltava-se para dentro, tentando preencher os espaços deixados por alguns dentes perdidos. Os olhos, acinzentados e sem viço, carregavam consigo uma catarata já em fase adiantada. Ela os estreitou para ver melhor quem estava à porta, mas isso fez com que se assemelhasse a um reptil que sorria sarcasticamente. Ao dar-se conta da presença dos policiais, um tique nervoso, logo percebido por Domênico, passou a se desenrolar: ela deslocava a prótese dentária superior e a colocava de volta com a língua. Enojado, Domênico desviou os olhos da velha caquética e fixou-os novamente no homem. Antes que falasse, ouviu uma vozinha infantil bem estridente:

- Eu sei quem você é! - A menininha parecia eufórica. -  Você é o amigo da mamãe!  Veio achar ela, né?

O homem magro perdeu o resto da cor que ainda tentava colorir suas bochechas. Seus olhos arregalaram e ele rapidamente tentou disfarçar a ansiedade:

- Entra homem, sai dessa chuva. - Disse, numa expressão forçadamente espontânea. Domênico e os policiais tiraram os sapatos sujos e subiram na calçada só de meias. O homem voltou-se para a velha, mas ela já tinha lhe dado as costas.

- Vou fazer café - grunhiu.

O homem se chamava Elísio e era esposo de Vilma. Fez um relato detalhado e mecânico do dia em que a esposa havia ido embora. Nenhuma emoção brotou em  seu rosto. Na verdade, Elísio se comportava como um poste, sem se mexer  ou alterar qualquer músculo do seu corpo. Enquanto ele falava, a criança pôs-se de costas para o pai, pegou a mão de Domênico e passou a olhá-lo fixamente. Pela primeira vez, Elísio esboçou uma expressão. Ele pareceu incomodado com a atitude da filha, mas esforçou-se para não demonstrar. Então, a menininha começou a cantarolar baixinho e a batucar os dedinhos na mão de Domênico que se deixou embalar pela nostalgia de uma melodia que conhecia não sabia de onde. O pai encheu-se de uma súbita onda de ira e todo o seu rosto contorceu, vermelho de raiva:

- Carolina!  Pára com isso!  - ele havia se levantado da cadeira e gritava histericamente com a criança, que estremeceu e apertou a mão de Domênico.

Ele olhou friamente para Elísio. Não conseguindo suportar o peso daqueles olhos, sentou-se novamente na cadeira e começou a chorar:

- Vilma cantava isso toda noite para Carolina dormir.-  Agora  soluçava.  Elisio apoiou a cabeça no peito da velha, que havia chegado com o café.  Ela passou, condescendente, a mão na cabeça do filho, mas seu rosto era de uma dureza impassível, quase de desprezo.

Domênico olhou para criança que agora achegara-se nele. Então, subitamente lembrou-se do sonho e entendeu, pasmo, que, enquanto Vilma apontava para árvore, a melodia cantarolada pela criança acompanhava seu gestos. 

A menina já o encarava novamente:

- Mamãe disse que está te esperando lá -  Ela falou para um homem aturdido, apontando o dedinho para uma direção que Domênico não não soube determinar. 


Continua…

Você pode acompanhar a parte um aqui: http://www.cronicadodia.com.br/2020/10/a-mulher-da-arvore-parte-1-nadia.html

Você pode ler a parte dois aqui: http://www.cronicadodia.com.br/2020/10/a-mulher-da-arvore-parte-2-nadia.html


Comentários

Selma Leão disse…
👏🏻👏🏻👏🏻 Emocionante🥰🥰
Zoraya Cesar disse…
Nádia, pelo Amor de Deus, isso nao se faz! Ainda bem q nao tenho o vício de roer as unhas! vou te pressionar a me dar um spoiler!
Albir disse…
E a agonia continua, né, Nádia? Só nos resta esperar!