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EU FUI AO TEATRO >> Sandra Modesto


 

Quando você ler minha crônica, eu estarei incompleta. Ou não. Talvez catando alguns momentos no atropelo de um quase dois mil e vinte e um. 
 
Escrevi o texto numa noite de terça-feira. Acho. Porque escrever é um ato político. Eu tenho minhas escolhas. Invento palavras no ar, desenho o perfume delas. 
 
Esqueletando minha crônica de domingo, virei restos. Ou não. 
 
Sabe de uma coisa? Eu já fui atriz durante minha graduação em Letras. Já faz tanto tempo, tempo, tempo, tempo - “és dos deuses o mais lindo”. Por isso eu ouço Caetano Veloso. 
 
Crio um palco meio memorial do agora. Prefiro as bruxas. 
 
Você está lendo minha crônica? Mas eu já fui ao teatro. Ontem, assisti on line, no teatro Porto Seguro, “Cara Palavra” — sarau poético, com atrizes talentosas. Fiz um investimento precioso comprando o ingresso. Respirei. 
 
Você não sabe, meu ansiolítico está sem efeito. Estou sem fome, não durmo o necessário, e minha libido deu uma parada. Sigo... 
 
Neste mundo, vasto mundo de Drummond. Abro um livro e me deparo com José. E agora? 
 
O mês de outubro não perdoou. Uma quarentena tão carregada. Viajei pra uma cidade próxima rumo ao meu cardiologista. A cada seis meses meu marca–passo é meticulosamente visto no computador. Sou movida à bateria, parece piada e é verdade. 
 
Tudo bem. Não. Não está tudo bem. Amanhã será um feriado atípico, sem aglomerações nos cemitérios. Cento e cinquenta e nove mil mortes oficializadas na sexta–feira. 
 
A vida virou uma tragédia diária no contar de tanta dor. Eu perdi duas amigas e dois amigos. Desabei. 
 
Por conta de tudo isso, decidi ir ao teatro. A arte é minha companheira. Em todas as partes. 
 
Quando você terminar de ler esta crônica, eu já fiz tatuagem, escrevi um livro, tive netos, postei uma foto nua, troquei meu nome por Luna, contei que vou anular meu voto, avisei que correntes do Watsapp não são jornais, e ninguém percebeu. E eu chorei.

Comentários

Clara Braga disse…
Me lembrou Nietzsche, “temos a arte para não morrer ou enlouquecer perante a verdade. Somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida”.

Muito forte sua crônica, Sandra!
Laercio disse…
Excelente crônica. Da minha telinha me deleito com ela.nesse momento tão difícil nos agarramos ao que uma boa leitura proporciona.
Parabéns!
Sandra Modesto disse…
Clara e Laercio, obrigada pelos comentários. Abraços 😘
Albir disse…
Para a arte até a morte é palatável. Belíssima crônica, Sandra!