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AS FÚRIAS NÃO PERDOAM - 1ª parte >> Zoraya Cesar

Oréstia era a pessoa mais gentil e bondosa do mundo. Pelo menos, assim pensavam as pessoas do seu
mundo. 

Mal ela entrara na adolescência, o pai descobriu que a esposa o traía reiterada e desavergonhadamente. Expulsou-a de casa com uma mão na frente, outra só com as marcas das cintadas que lhe dera. O pobre homem, depois desse destempero contra uma esposa que, até então, idolatrava, entrou em depressão profunda, e só não se matou porque tinha Oréstia, a filha amada, para tomar conta. 

Se bem que imediatamente os papéis se inverteram e quem passou a tomar conta de tudo era Oréstia. Nunca deixou o pai sem assistência - cozinhava, lavava, passava, a perfeita dona de casa. Aos poucos, o pai foi dependendo dela para tudo. E tudo ela resolvia. Os remédios que ele tomava, as contas a pagar, tudo. Uma trabalheira insana, da qual nunca se queixava. Vizinhos e amigos a tinham por verdadeiro anjo caído dos céus.

Esse anjo merecia que algo de bom lhe acontecesse. E aconteceu! Aos 45 minutos do 2º tempo, encontrou um homem honesto e decente para casar. Um pouco fraco de personalidade, um pouco frágil e impressionável. Mas, veja você, nada é perfeito, certo? Casaram, portanto, para contentamento de todos os que achavam que Oréstia finalmente teria uma alegria na vida e… vida e morte andam sempre de mãos dadas, num casamento eterno, forjado muito antes de a primeira vida aparecer na Terra e que perdurará muito tempo depois de a última alma abandonar esse mundo. 

Portanto, lamento informar que logo depois das núpcias, o pai de Oréstia deixou de tomar os remédios e, bem, vocês sabem, encontrou a Paz Eterna. Oréstia sofreu? Não sei, mas deve ter sofrido, né? Pelo menos até a filha nascer. Ah, todos respiram aliviados, a vida toma mas também dá, até que enfim, criança traz tanta alegria…

Ainda bem. Porque, olha como é o Destino (esse senhor que leva a culpa por muita coisa, indevida e injustamente). Um dia, o marido de Oréstia adoeceu. Adoeceu de acamar e de na cama ficar por longos e tenebrosos anos.  O que Oréstia fez? 

O de sempre. Desdobrou-se para cuidar do marido e da filha com denodo, esmero, dedicação. Mas que pessoa excepcionalmente boa, diziam todos (e um pouco azarada, diriam os mais cínicos).

E nenhum deles estaria certo. 

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A menina cresceu. Não era uma beldade, não tinha sorte no amor, a coitada, e sua personalidade era ainda mais fraca que a de seu acamado pai. Mas, e daí?  

Importante é que a vida às vezes surpreende e, um dia, a menina – já não tão menina, mas balzaquiana - finalmente, assim como a mãe, encontrou um homem minimamente decente.  Oréstia revelou-se a sogra perfeita, boa, provedora. O casal vivia se desentendendo, e era ela quem resolvia os conflitos. Fazia-se presente e necessária, indispensável mesmo. 

Agora, esperem. Não estamos esquecendo nada? Como fica Oréstia nessa história de pesares, sempre cuidando dos outros, sem tempo para mais nada? Mãe expulsa de casa por adultério, pai suicida, marido eternamente acamado - e que morreu depois do nascimento da neta -, filha com dedo podre para relacionamentos… Que sina, hein? 

Como fica Oréstia nessa história toda, perguntei? Ah, ela fica muito bem, obrigada. Até porque tudo se encaminhava do jeito que sempre quis e sempre fez acontecer. 

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Não se deixem enganar. Oréstia não era um anjo caído do céu para ajudar aqueles infortunados - era, antes, um anjo que decaíra acompanhando as hostes de Lúcifer. Pois nada, absolutamente nada na vida de Oréstia acontecia por acaso ou por artes do... Destino.

Ela forjara as provas da traição contra a própria mãe (que sumiu no mundo, avexada por desconfiar da filha e por não ter como provar sua inocência). Levara o pai ao desespero e manipulava os remédios para que ficasse sempre e cada vez mais deprimido e dependente. E o induzira ao suicídio tão logo arranjou outra vítima, o marido. 

Que não caiu doente do nada. Oréstia misturava ervas e remédios na comida do infeliz a fim de mantê-lo acamado e indisposto, sem ânimo para nada que não fosse trabalhar. E como era um moleirão, entregava-se aos cuidados da mulher, tão ativa, tão carinhosa, tão sagaz. 

Assim que a filha - a quem educou para ser a cópia do pai, uma massa dútil, moldável a seus intentos – encontrou um homem de personalidade submissa, libertou-a para casar.  

Quando a neta nasceu, Oréstia percebeu que não daria conta de estragar a vida de tanta gente ao mesmo tempo. Afinal, ela também já não era tão jovem. Então, provocou a morte do marido. Sem o menor constrangimento. Agora tinha mais espaço para continuar a provocar discórdias no casamento da filha - para então assumir seu papel de conciliadora - e educar a neta para ser mais uma vítima. O ciclo nefasto havia de se perpetuar. 

Que fique claro que tudo isso Oréstia fazia com a maestria de um Iago, sem que ninguém, ninguém mesmo, se desse conta de suas perfídias, e ainda a achassem um paradigma de bondade, desprendimento e altruísmo humanos. 

Agora chegou a hora de perguntarem: por que isso tudo? O que Oréstia lucrava com essa crueldade consciente e finamente elaborada, que atingia diretamente sua própria família de maneira brutal e avassaladora?


Eu, de nada sei. Mas a Pitonisa sabe. E desdenhando de teorias psicológicas e filosóficas, revelou, apenas, que a maldade é um atributo em si, não precisa de explicações para existir. E vaticinou que Oréstia, fazendo tudo apenas pelo prazer de manipular a vida alheia, infligindo sofrimento em quem nela confiava, debaixo de seu próprio teto, desrespeitando as leis do sangue, da família e do lar, não sairia desse mundo sem que o Destino (novamente ele!) batesse à sua porta. 

As Fúrias, murmurou a Pitonisa, estavam chegando.  


Continua dia 27 a 2a e última parte.

Comentários

Marcio disse…
Se a Oréstia passar a vida inteira fingindo que é uma boa pessoa, já estará bem acima daqueles numerosos exemplos que nem mesmo se esforçam em fingir.
"A hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude", já lecionava LaRoche Foucauld.
Anônimo disse…
História estranha! Psicopatia de prejudicar os outros para cuidar e manter sob seu jugo! Vamos ver como vai acabar isso! Já temos 3 defuntos nessa história, eu acho! Já perdi a conta! Hehehe...
Anônimo disse…
história de ficção que nada... infelizmente, tem muita gente feliz com a infelicidade alheia
branco disse…
bem...... dizer que está ótimo já não é preciso, isso é uma constante. mas, imperceptível, mudança, e explico: seu estilo, antes era narrativo, ago9ra, pelo menos pra mim, além do narrativo você acrescentou o "bate papo", em alguns momentos é como se você estivesse conversando com o seu leitor, achei isso fantástico.
você conseguindo se melhorar? parecia impossível, afinal já era tudo do melhor.
enfim, vamos ver se a "senhora do destino" pega essa "naza" lazarenta....
Nadia Coldebella disse…
um psicopata é sempre um psicopata, mesmo angelical.
uma ótima historia para uma sexta-feira 13.
vou aguardar aqui, até a próxima parte, querendo que o destino encharque essa cobra infernal com a justiça divina...
(nao mata ela não, faz ela sofrer, bem consciente da dor)
Erica disse…
Se o final dessa história não tiver castigo pro anjo caído, nunca mais te leio, Zoraya kkkk
Albir disse…
Que interessante! Seus demônios são mesmo demônios. E os seus anjos também são demônios.
Não sei como isso pode piorar, mas, é Lady Zô, vai piorar!
Zoraya Cesar disse…
Pessoal, obrigada pelos comentários gentis de sempre!

Márcio, pois é. A gente nem tem noção. Afundamos na hipocrisia como um vício.

Anônimo, matemática básica nem sempre é a resposta hehehe.

lord white, de vez em quando faço isso, quando sinto intimidade, sabe. Mas é a história que me dirige, faço nada nao!E obrigada!

Nádia, vc sabe, nao depende de mim, mas das Senhoras do Destino. Eu só relato...

Erica: ai ai ai, a Oréstia é que é a malvada e eu é que sou ameaçada? kkkkkk

Albir, amei seu comentário! Elogio puro! ownnnn