AS FÚRIAS NÃO PERDOAM - 2a parte >> Zoraya Cesar

Oréstia envelhecia. Suas artimanhas para provocar discórdias e cizânias ainda eram eficazes; porém, ela desejava ardentemente um último grande golpe antes de morrer. 

E eis que o Destino (esse Senhor inescrutável e surpreendente) lhe dá uma neta. Oréstia aboletou-se na casa da filha, sob a desculpa de ajudá-la a cuidar da criança. Que seria criada para ser maleável à sua influência - a última, de uma sucessão de vítimas inocentes, enganadas pela máscara perfeita de ser angelical que Oréstia tecia com a solércia de um Iago. 

Oréstia estava feliz como há muito não se sentia. O gozo em desgraçar a vida da mãe, induzir o pai ao suicídio, matar o marido e fazer da vida da filha e do genro um inferno, sem que percebessem, estava distante e apagado. Precisava imolar uma nova vítima em seu altar de atrocidades. Gaia, a neta, seria seu grand finale

A Pitonisa revira os olhos, serena, sabedora que é das leis da vida e da morte. Nesse mundo ou no Tártaro, os crimes sempre são pesados, medidos e punidos. Ela sabe, também, que as Fúrias estão indóceis, mas saberão esperar a hora certa. 

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Gaia nasceu mansa e reservada. E com uma repulsa inexplicável pela avó. Todos achavam a menina esquisita e ingrata, afinal, não poderia haver melhor avó no mundo que Oréstia. Que dava um jeito de estragar ou impedir a neta de fazer ou ter qualquer coisa que gostasse. Sempre, sutilmente, como era seu feitio, parecendo estar do lado da vítima. Com o passar dos anos, Gaia aprendeu, silenciosamente, a se defender. E aprendeu outras coisas também...

O tempo é mestre e senhor. Sua mão pesada se abate mesmo sobre os mais fortes e solertes. A Pitonisa agora tem uma aprendiz. E ambas, sopram os vapores do caldeirão, inquietas, susurrando: “Implacável Alecto, venha. Traga sua chama imorredoura, afaste Morpheus dos olhos da criminosa

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Oréstia sempre tivera uma saúde invejável; dormia como um belzebu saciado e não havia vírus ou bactéria que a derrubasse. 

Até que, do nada, acordou cheia de bolhas e manchas pelo corpo. Uma coceira insuportável, que se transformava em feridas de aspecto nauseabundo. Oréstia tinha de ficar mergulhada numa banheira de violeta genciana. Só podia sair depois do entardecer, pois a luz do sol a machucava, e sempre com roupas de manga comprida, para esconder o aspecto repugnante de sua pele. Seu hálito estava tão pútrido que, mesmo que essa história não se passasse em tempos de Covid, ela teria que, obrigatoriamente, usar máscara. 

E os médicos? Batiam cabeça. Os exames eram o de uma pessoa saudável.

Para piorar, não dormia mais. Mesmo sob o efeito dos soníferos mais pesados, a cada vez que ia caindo no sono, um vulto aproximava-se e encostava nela a flama de uma tocha, provocando dores excruciantes. Oréstia gritava, mas sua voz não saía. Amanhecia com marcas de queimadura misturando-se às das feridas provocadas pelas coceiras. E, uma noite, tão repentinamente como começou, tudo cessou. 

Nessa época, a Pitonisa e sua aprendiz murmuram “Megaira, nós te chamamos, solte sua voz acusadora, desassossegue a existência da criminosa” por entre a fumaça das ervas jogadas no carvão incandescente.

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Oréstia, embora combalida, aproveitou a trégua dada por seus sintomas e começou a preparar o terreno para que os pais de Gaia acreditassem que a menina estava se envolvendo com o traficante da escola. Mas, então, os gritos começaram. 

Ela os ouvia a qualquer hora do dia, esganiçados e perturbadores como os de uma banshee, ossos se arrastando uns contra os outros. Não poucas vezes ela distinguia, entre os gritos, as palavras parricida, destruidora, assassinaaaaaa estamos chegando… 

Oréstia não sabia mais o que era ter paz. Não comia, não dormia, entupia-se de remédios, e nada de descobrir de onde vinha aquilo tudo. Não tinha coragem de ir a um psiquiatra. E se a internassem? 

E, novamente, assim como as coceiras, aparições e queimaduras, os gritos também cessaram repentinamente. Oréstia respirou, aliviada. Ainda não fora dessa vez. Mal sabia ela que, realmente, ainda não fora daquela vez. Seria da próxima.

Os vapores que saíam das fendas rochosas inebriavam a Pitonisa e sua aprendiz. Jogando sementes de carvalho e salgueiro no caldeirão fumegante, clamaram ‘Intransigente Tisífone, é sua vez. A perda da razão é a punição para os destruidores de lares e homicidas, esperamos sua justiça.”

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Oréstia, agora, tinha pressa em tirar de uma vez o equilíbrio emocional da filha e desgraçar a vida da neta. Temia não ter forças para concretizar seu grand finale.

E quando seu plano estava em vias de ser executado, começaram os açoites. 

Mal dormia, Oréstia ficava presa no sonho, sendo chicoteada sem dó. Só conseguia acordar ao amanhecer, o corpo lanhado, o sangue escorrendo. Não podia ir ao médico. Como explicar aquilo?  

Não conseguia colocar roupas, não podia sair de casa, recusava-se a receber visitas. A situação estava insustentável. Quando tomou coragem para ir a um psiquiatra, os gritos recomeçaram. E as coceiras e queimaduras também. Seu corpo era uma chaga aberta e mal cheirosa. As enxaquecas, excruciantes, por causa dos gritos incessantes, que não a deixavam em paz. 

Virou pele e osso, os olhos esgazeados, trancada em casa, sem comer nem dormir. Enlouquecia, berrando todos os malfeitos que fizera, desnudando a alma. 

Isso durou três dias. E, então, a Pitonisa e sua aprendiz deixaram escapar, por entre os lábios, solenemente: “Clemente Átropos, fechou-se o círculo. Pedimos que corte o fio.”

Átropos ouviu o clamor. Cortou o fio. E Oréstia morreu. 

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Gaia ajoelhou-se, respeitosa, preparando-se para os dias de orações, abstinência, banhos de ervas. Precisava purificar-se. 

As Fúrias só agiam quando convenientemente invocadas. E fora ela, Gaia, quem o fizera, com a ajuda de sua mestra, sabendo que a lei dos homens jamais alcançaria Oréstia. Acabara com a carreira de perfídias da avó, vingara seus ascendentes, e protegera sua família, como devia mesmo fazer, a menina que nascera para ser Pitonisa e fazer justiça. 

Cumprida sua missão, Gaia estava em paz. Oréstia pagara por seus crimes antes de sair desse mundo. Mas Gaia sabia que a avó continuaria pagando até o dia do Juízo Final. Porque as Fúrias, as Fúrias não perdoam. 

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As Fúrias não perdoam - parte 1 

http://www.cronicadodia.com.br/2020/11/as-furias-nao-perdoam-1-parte-zoraya.html


Para matar curiosidade sobre as Fúrias, ou Erínias, a quem já citei em diversos contos anteriores:

https://www.mitoselendas.com.br/2019/01/furias-erinias-criatura-mitica.html

https://www.academia.edu/40466826/Mitologia_Grega_Vol_2_Junito_de_Souza_Brand%C3%A3o

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Er%C3%ADnias

As erínias, deusas encarregadas de castigar os crimes, especialmente os delitos de sangue, são também chamadas Eumênides (Εὐμενίδες), que em grego significa as bondosas ou as Benevolentes, eufemismo usado para evitar pronunciar o seu verdadeiro nome, por medo de atrair a sua cólera. Em Atenas, usava-se como eufemismo a expressão Semnai Theai (σεμναὶ θεαί), ou deusas veneradas.


  • Alecto (Ἀληκτώ, a implacável), eternamente encolerizada. Encarrega-se de castigar delitos morais como a ira, a cólera e a soberba. Tem um papel muito similar ao da deusa Nêmesis, com diferença de que esta se ocupa do referente aos deuses, tendo Alecto uma dimensão mais "terrena". Alecto é a Erínia que espalha pestes e maldições. Seguia o infrator sem parar, ameaçando-o com fachos acesos, não o deixando dormir em paz.

  • Megera (Μέγαιρα, a rancorosa), que personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme. Castiga principalmente os delitos contra o matrimônio, em especial a infidelidade. É a Erínia que persegue com a maior sanha, fazendo a vítima fugir eternamente.Terceira das fúrias de Ésquilo, grita ininterruptamente nos ouvidos do criminoso, lembrando-lhe das faltas que cometeu.

  • Tisífone (Τισιφόνη, a vingadora), a vingadora dos assassinatos (patricídio, fratricídio, homicídio). É a erínia que açoita os culpados e enlouquece-os.


Comentários

Anônimo disse…
uau, forte isso, hein? nem precisaria ser tanto, mas, às vezes, penso que alguns castigos poderiam se fazer presentes, para inibir alguns absurdos... todos temos algumas histórias de maldade, né?
Erica disse…
Cheguei a pensar: "Zoraya podia mata-la de Covid"... E...tcharammmm. lá estava a Covid no meio do texto kkk Mas você achou um jeito bem melhor pra ela pagar seus pecados... Com a fúria da Terra kkk Nome perfeito para a neta...
branco disse…
elogiar seu texto é tão chato....calma, eu explico, são tão bem engendrados, os fiozinhos que ligam, nada solto....por cima disso vem o talento...é impossível não se prender nos seus personagens, torcer por alguns , se apaixonar por outros.
de um tempo pra cá notei que você acrescentou uma coisa muito le3gal no quer já era legal...explico de novo...o texto vem vindo....de repente uma frase e se transforma quase em uma oralidade (aquele nada escrito, um causo contado, uma comparação feita para uma criança adulta)...e depois retoma o texto....mas tudo de maneira sutil, tão sutil que pode passar desapercebido. por exemplo, neste te3xto citação da covid sai fora do script, o conto/crônica se transforma em "mundo real" e logo depois ...bom...logo depois a gente já sabe, o talento, que em nenhu7m momento perdeu seu brilho vai fazendo histórias deliciosas.

Albir disse…
Não bastassem as ameaças atuais do planeta, agora as mitologias também me assombram. Volto ao psiquiatra para aumentar as doses.
Marcio disse…
Eu iria perguntar o que as Fúrias estavam fazendo para preencher o tempo ocioso, enquanto Oréstia orestizava a vida das pessoas próximas a ela.
Mas, aí, li a frase "As Fúrias só agiam quando convenientemente invocadas."
A partir dali, a pergunta mudou.
Por que Gaia demorou tanto a invocar convenientemente as fúrias?
Nadia Coldebella disse…
ah, os finais justiceiros!
Zoraya Cesar disse…
Gente, fico tão agradecida e feliz! Muito obrigada!


Márcio, só pra vc saber: Gaia precisou crescer e ganhar conhecimento. Nao tinha nada disso qdo era criança...

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