IMPERATIVO QUE EXCLUI >> Sandra Modesto


Todos os dias o caldo era o mesmo. 
 
O interfone tocava alguém atendia, a negra entrava. 
 
— É preciso limpar melhor as janelas. E a louça? Lave com força, quero brilho nesses copos, não gosto de café forte. Vê se limpa meus sapatos com mais cuidado. 
 
Coitada da empregada. Acordava de madrugada todos os dias e não sabia o que iria encontrar em casa. Marido alcoólatra. A filha que dava pra qualquer um, pra levar dinheiro pra casa, o filho que se drogava e estava preso. 
 
A empregada tem nome. Nem a autora lembrou-se da importância, as manchetes dos jornais? O delegado e os policiais? 
 
Pois é. Aos domingos Ruth (a empregada) era revistada pra entregar um caldo para que Natanael se alimentasse um pouco, nem sol ele queria tomar mais. 
 
Aqueles negros amontoados revoltados com culpas pequenas. A cor da pele: Preta. Quantas barreiras. Quantas marcas nos corpos. 
 
A família no sistema estrangulador de sonhos num país chamado Brasil. 
 
As caravanas de cidade em cidade, becos e ruelas, com essas gentes levando choros perdidos, lavando o sangue escorrido nos troncos, nas costas, sem saber as respostas das leis de quem não tinha privilégios. 
 
Sei lá. 
 
 
(O conto é uma releitura da obra de Chico Buarque, no concurso “50 Anos CEAT 2019”, publicado na PHILOS - Revista de literatura da união latina. A autora se inspirou na música As caravanas). 
 
Foto: Arquivo pessoal da autora Autor da capa: Roberto de Souza.
 
Com vocês, As Caravanas! 
 

Comentários

Laercio disse…
Um texto perfeito que escancara um país em que as caravanas passam com seus preconceitos escancarados e os cães.... Os cães apenas ladram!
Albir disse…
A tragédia nossa, de cada dia, nos dai hoje. Como diz Castro Alves, "nem são livres para morrer!"

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