Pular para o conteúdo principal

A GARÇA E A ENGUIA >> Sergio Geia

 


Não sei se você viu. Se não viu, corra, ainda há tempo. 
 
A notícia estava em destaque no portal UOL: “Enguia perfura estômago de garça ao ser engolida e se salva nos EUA”. 
 
Sam Davis, fotógrafo amador, engenheiro de Maryland, nos Estados Unidos, estava na floresta à cata de boas fotos. De repente, percebeu um movimento estranho. No céu, havia duas águias a seguir uma garça, talvez, prevendo boa refeição. Em terra, uma raposa buliçosa também imaginava o mesmo, e mantinha a atenção voltada para as aves. 
 
Segundo a notícia, “inicialmente, Sam pensou que a garça havia sido mordida no pescoço por uma cobra ou enguia. Mas ao chegar em casa para editar as fotos, ele viu que a cena era mais admirável: a enguia estava viva e perfurou o estômago da garça para se livrar da morte”. 
 
A foto está em bom tamanho no UOL, e dá pra perceber o pânico da garça em seu pávido olhar. Acabara de comer o alimento do dia. De repente, esse alimento traiçoeiro, vivo, rompe o seu estômago e pula pra fora em pleno voo. O fotógrafo não conferiu em terra, mas imagina que a garça logo depois tenha virado alimento de águia, ou de raposa.
 
Já tinha visto essa foto havia dias, mas hoje me levantei e o olhar dilatado da garça me consumia por dentro. Saí pra caminhar, e aquele olhar. Voltei, e o olhar. Fui tomar banho e o mesmo olhar, a foto martelando, martelando, martelando. Ela sabia o que estava acontecendo ou, se ainda tivesse dúvidas, ela sabia exatamente o que iria acontecer depois. 
 
Quando tomava café e mandava a crônica de sábado para os amigos-leitores que me acompanham e estão no meu zap, deu um estalo: pensei no homem. Será que ele pressente a chegada da morte? Nos instantes finais que antecedem a derradeira experiência de vida, o ser humano identifica o adeus? 
 
Numa live com a Nádia Coldebella para o projeto Crônica Falada, do Crônica do Dia (visite, está no fim desta crônica), narrei a história da morte de meu pai, ocorrida em 2003, e como me impressionou a cena dele sentado, lúcido, tomando chá numa cama de hospital e meia-hora depois, já sem vida. Como isso pode acontecer, meu Deus? Como alguém pode estar tomando chá e conversando, e meia hora depois não estar mais vivo? 
 
A cena até hoje me revisita. Sempre me pergunto: será que ele tinha alguma noção de morte naquele momento, com ela tão próxima? Será que ele imaginava que dali a alguns minutos, não estaria mais naquele quarto de hospital? Não me parecia. Ocorre que também nós não tínhamos essa noção e, por isso, talvez, não conseguíssemos identificar qualquer elemento diferente em seus olhos. 
 
Mas agora o olhar dessa garça me martelando, martelando, martelando... 
 
https://www.youtube.com/watch?v=mboZD7XrvGI&t=159s
 

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Acho q sim, q as pessoas sabem. Pelo menos aquelas q olham um pouco mais para dentro. Foi assim com minhas avós: uma delas previu certinho a data, exatamente um ano antes. Eu sei q é verdade porque ela falou para mim. A outra foi igual a seu pai. Melhorou, conversou e logo depois entrou em coma, dias sofridos! Ela morreu logo depois de dizerem pra ela q ela poderia parar de sofrer, q tudo ia ficar bem. Eu sei q é verdade porque eu também estava lá. Acho q o desespero é quando se tem medo. Mas se vc tiver tempo pra entender e aceitar, a vida segue seu curso, mesmo q seja para um final. Maravilha de crônica!
Profa. Celinha Marques disse…
Olá, Geia querido...Suas crônicas são incríveis... sempre com uma lição de vida! Vc falando do seu pai, também pensei no dia em que o meu faleceu, em 1973... foi assim, eu, estando com ele às 8h da manhã, dei um beijo, pedi a bênção e fui trabalhar.. meia hora depois, a metros de distância, ele morreu... tive um grande pressentimento... Bom final de semana querido acadêmico da ATL... 👏🤗💜🙏💐📖📚
Edna Kamezawa disse…
Penso que só os maís atentos podem perceber. Eu não sou essa pessoa, graças a Deus. Prefiro não saber. 🤭
Edna Kamezawa disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
branco disse…
sérginho, meu querido amigo e irmãozinho...... você é uma pessoa de, por incrível que pareça, sorte!
teve seu pai em um momento calmo, um momento de até logo que virou nunca mais e a sua sorte, você não sabia que era nunca mais.
essas lembranças morrem jamais, uma conversa com a nádia e olha goleiro te agarrando de novo, outras conversas virão e as vezes a lembrança é espontânea.
impossível não fazer analogias.... a garça que morre para que a enguia possa viver....assim é com a gente, seu pai se foi e deixou você, assim como um dia, que demore muito e muito, você estará em seus filhos....e os filhos nos netos...isso chamo de eternidade.
quanto a crônica, nada pra dizer, talento puro...sua outra sorte.....
Fran disse…
É de se pensar. Como enfermeira já vi muitas pessoas em seu último suspiro e uma coisa percebi em todas elas, uma lágrima cai de seus olhos. Se sabem que estão morrendo não sei, mas minha avó sempre me dizia que morrer dói. Sendo assim acho que quando chega o momento a pessoa sabe sim. Parabéns pela crônica uma reflexão muito importante. .
Zoraya Cesar disse…
Sérgio, só mesmo uma pessoa sensível como você para criar uma crõnica belíssima a partir de um fato extraordinário, fazendo-o se transformar num mar de sentimentos, melancolia, tristeza e reflexão. E sem cair na pieguice, ao contrário, nos chamando a pensar na vida.
Muito obrigada!
sergio geia disse…
Meus queridos, o comentário de vocês enriqueceu a crônica. Grato!