sexta-feira, 8 de outubro de 2010

BOA NOITE, RICHARD >> Leonardo Marona

As cagadas começavam sempre na Lapa. E de vez em quando terminavam por lá também. Richard era sensível demais para se sentar numa mesa de bar sozinho e beber. Só fazia isso nos dias em que tentaria mais uma vez o suicídio. Mas aquele não era o dia pra isso.

Ele estava ali sentado no Arco-Íris com a amiga Simone. O Arco-Íris é a própria ironia da desgraça – a desgraça ironizando a malandragem. Richard e Simone moravam juntos e Simone não era gay como ele era, não sóbria. Uma hora ela foi no banheiro e Richard continuou ali sentado, cotovelos escorados e copo vazio, o coração espatifado cuspindo suas últimas feitiçarias sobre a mesa de toalha xadrez vermelha e branca. O problema de Richard era que ele só se metia nos piores lugares para um coração vazio e desesperado. Gostava do veneno nas veias. Daquele tipo de bicha que está sempre à espreita, mexendo a cabeça pros lados até encontrar algum depósito de paciência.

No que virou para dar uma espiada no movimento do bar, percebeu um senhor sentado de olhos fechados, um pouco esparramado na cadeira, completamente sozinho, com os braços cruzados em cima da barriga. Ficou um tempo olhando pro senhor, porque gostava de prestar atenção no fim dos tempos. E era exatamente aquilo. Nas outras mesas havia pessoas gritando, querendo ser ouvidas, e outras mandando elas falarem mais baixo, só que muito mais alto. Lá fora, porque o bar era aberto e com mesas e cadeiras de plástico, daquelas amarelas de piscina, o bafo quente tornava tudo melado e cansado. As pessoas se arrastavam pelas ruas como zumbis dos olhos furados. Iniciozinho de verão e os homens ficam iguais a baratas. Isso porque as baratas começavam a sair dos seus esgotos aos milhões, para irem se refrescar nas calçadas. E as que vinham eram daquelas que você não vê muito durante o resto do ano: umas cascudas, grandes, que levantavam as asas para se coçar, aquelas anteninhas descompassadas, pareciam te olhar nos olhos. E rápidas. Difícil acertar uma delas, mas, quando acerta, você fica pensando se não seria melhor ter esquecido, já que o barulho da quebra dos seus cascos é tão horripilante quanto aquelas patinhas subindo pelas tuas canelas. E nos dias de mais calor como aquele, homens e baratas se igualavam, não tinha jeito, acabavam dividindo o mesmo espaço. Os homens eram maiores e mais fortes, sim, mas as baratas vinham em hordas ininterruptas, subindo dos bueiros como que anunciando a mais nova e violenta revolução dos tempos contra nós.

Não que Richard gostasse delas, das baratas do verão. Mas sentia-se um pouco como elas no fim das contas. Era exatamente a mesma coisa, a mesma predisposição, os mesmos bueiros, tudo igual. Porque as baratas se escondem o ano inteiro, não podem ser vistas que causam asco e terror. Richard se sentia um pouco assim também, como se tivesse desgrudado do mural de cortiça do mundo e nada mais fosse capaz de prendê-lo de volta. Ninguém queria tipos como o de Richard rodando por aí; viravam a cara, cuspiam em cima, atravessavam a rua, puxavam os filhos, faziam o sinal da cruz, chamavam a polícia. Mas, vejam bem: nos dias quentes a vida dos homens é regida pela mesma lei das baratas; daí o desespero. Todos às ruas para se refrescar e quem sabe se roçar um pouco também. Putaria e cerveja aos borbotões. E o resto ficava com elas, com as malditas, as cascudas.

Na verdade pouco importa, é a mesma coisa: em todo mundo os seres mais insignificantes, os que não servem pra nada, aqueles que sempre sujam e que tem o aspecto mais repugnante, os que se alimentam do lixo promovendo mais lixo e mais chances para discussões políticas sobre como controlar o lixo, portanto, mais lixo pra boca do lixo, estes estão sempre de bar em bar (de buraco em buraco, convenção em convenção, narizes que andam sozinhos, bocas tortas da divindade própria, salivantes por piedade), abundam as ruas com suas cabeças obcecadas. E são sempre os mais resistentes, os mais calejados, acostumados a correr, são os que brotam de todos os buracos, os das múltiplas patinhas, como Richard, exatamente como baratas. Os esgotos são delas, o bar é nosso e tudo é a mesmíssima coisa em diferentes proporções genéticas. E assim terminava a cerveja já quente de Richard, bem na hora em que Simone vinha de volta do banheiro com uma mulatona à tira-colo – sempre dava um jeito de arrumar surpresas, por mais que dissesse que não queria nada, que era direita. Foi o que trouxe Richard das baratas e dos homens-barata de volta pra mesa.

Simone vinha fazendo uma cara engraçada para Richard, tentando dizer-lhe algo, mas a mulatona vinha logo atrás, fazendo estardalhaço, umas tranças africanas e um vestidinho azul anil um pouco menor que sua bunda. Uma bunda que não precisava de um pau duro mas de um machado. Sentaram-se as duas: a mulatona deu um esbarrão na cadeira de Richard para sentar-se ao seu lado. Simone virou os olhos com a mão na testa. A mulatona, assim que se sentou, levantou novamente e começou a dançar um tipo de música tribal ou algo assim. Richard pediu duas cervejas e mais um copo. Ela, a mulatona, estava acompanhada de um homem branco com os cabelos brancos pintados de preto puxados para trás com algum tipo de pasta, e que dizia altíssimo de cinco em cinco que já tinha ido a dois shows dos Mutantes. Bem dizer que gritava como um santo siciliano, se é que existe um. Assim que a mulatona levantou e foi dançar, Richard se virou para Simone:

- Tua amiga?

- Cara, achei que ela fosse me estuprar no banheiro.

- Por quê?

- Foi bizarro, cara, foi muito esquisito. Eu entrei na cabine pra mijar e quando saí tava essa negrona lá na frente da pia, com um chumaço de papel higiênico na mão, meio acocorada, segurando a saia no alto, a calcinha arriada, metendo aquele chumaço na xota e olhando pra mim... Cara, foi terrível! Daí ela veio e pediu que eu segurasse o papel... O que eu podia fazer? Peguei o negócio na ponta dos dedos e ela começou a cantar, ou talvez estivesse tentando se comunicar comigo. Mas eu não entendia nada. Só deu pra ver que quando foi levantar a saia ela deixou cair um papelote de cocaína no chão. Estranhamente, depois de tudo aquilo, ela olhou pra mim como se estivesse sóbria de repente e perguntou se eu me importava... Eu falei que nem um pouco e foi só o que eu precisei falar, porque ela foi e meteu o dedo dentro do papelote e depois enfiou o dedo no nariz... E então começou a contar toda a sua vida pra mim. Jornalista, literata, mediúnica, sadomaso, queria que eu lesse a mão dela, sentiu uma energia em mim... Mas ela cantava no meio das frases, e ficava apontando o dedo pra mim, como se eu entendesse bem aquilo... E fazia um beiço, assim, ó, muito esquisito o beiço dela... E eu não conseguia parar de olhar pr’aquele beiço.

- Você é incrível – disse Richard, como se fosse a quinta vez na mesma noite.

- Como assim, incrível?

- Tá sempre arrumando história...

Simone não respondeu. Pediu mais uma garrafa e copos novos, achando que estariam lavados. Rapidamente os copos e a garrafa chegaram e então não tinham mais por que se preocupar em falar. Avançaram com os olhos baixos. Simone ainda tentou alguma coisa nova, mas era bem velha no final:

- Porra, cara! Você viu como tem gente na rua hoje?

- Tem muito mais barata. Repare bem...

- Que nojo, Richard!

- É verdade... Se você olhar bem vai ver que as noites mais quentes de verão são mais delas do que nossas...

- Então proponho aqui um brinde – disse Simone erguendo seu copo. – Às noites quentes de verão!

- Às baratas! – disse Richard sorrindo, mas com os olhos tristes e esperançosos.

Simone deu um tapinha no ombro de Richard. Os dois riram e beberam.

- Simone, aquela negona disse qual era o nome dela?

- Não me lembro... Acho que sim, mas não me lembro. Por quê?

- Curiosidade...

Richard virou os olhos na direção da mulatona e viu que ela estava acompanhada por várias outras pessoas, fora o dos cabelos brancos pintados de preto, todos negros e de tranças africanas. E todos estavam usando camisas parecidas, semana da consciência negra, alguma coisa assim. Dava pra se supor pelos dedos esticados pra cima e pelas testas enfezadas de consciência, não que isso significasse qualquer mudança prática. Até ali estava tudo correndo bem. Todos bebiam de pé em volta das mesas, menos Simone e Richard, que estavam sentados e olhando pros lados, um pouco incomodados por estarem olhando demais pros lados. Os garçons continuavam com seus leva-e-traz sem parar um minuto pra respirar ou pensar no túmulo florido. De repente um deles parou e disse bem alto, com um pano enxugando a testa:

- Ôch! Tem um homem morto aqui.

No mesmo segundo todos olharam na sua direção. Ele estava parado na frente da mesa do senhor que dormia placidamente com os braços cruzados em cima da barriga. Depois que falou aquilo, não sabia mais o que fazer. Então enfiou o pano no bolso e voltou pro bar, quando viu que ninguém ali sabia o que fazer. Richard ficou mais um tempo olhando, “então era por isso que ele parecia tão calmo”, foi o que pensou. A visão do senhor morto sentado não durou nem um minuto nos olhos das outras pessoas, com exceção de um outro senhor já bem passado que sentava num canto mais escuro. Todos sabiam bem como era a morte, estavam próximos dela o tempo todo, era como uma mão ruim num jogo de cartas. Aquilo poderia ser chocante no Leblon, mas na Lapa não era nada. E dali pra cima era menos que nada. Só uma pessoa disse alguma coisa: “Ah! Esse daí vivia doidão!”. Só isso.

Richard levantou da cadeira e seguiu até o balcão:

- Não seria melhor chamar alguém pra levar ele daqui?

- O senhor não me arrume póbrêma com a polícia. É só isso só... – respondeu o balconista.

- Tudo bem... Não vai ter problema nenhum.

Richard então seguiu até o orelhão na calçada, meteu um cartão telefônico e ligou pra polícia. Nem quiseram saber do morto. Mandaram ligar pr’uma ambulância e então desligaram na cara dele, que tinham mais problemas com os vivos do que com os mortos, o que fazia um certo sentido. Ele olhou pra Simone e ela continuava na mesa acendendo os seus cigarros, dos quais se orgulhava muito, mesmo que dissesse a toda hora que ia parar com eles. Richard apontou pro lado. Falou que ia procurar alguém pra tirar aquele homem morto dali. Ela apenas moveu a cabeça pra baixo uma vez e deu um forte trago.

Quando voltou à mesa, sem ter achado ninguém sóbrio àquela hora para ajudar, Richard viu que tinha um rapaz bem novo de cabelo escovado pra trás falando alto no telefone e gesticulando, a barriga pra frente dizia mais do que suas palavras; pavoneava. Era a ambulância que ele estava tentando, e mostrava o celular pros outros como se quisesse um pirulito em troca daquilo. Gritava quase engolindo o aparelho: “Tem um homem morto aqui! Vocês não vão vir? Ah, é?... Olha aqui, gente, eles disseram que eu estou bêbado e que não conseguem me entender...”. Daí mostrava o aparelho pras mesas e apontava, cambaleando.

Richard sentou de volta e ficou prestando atenção em tudo. Simone ficou no cigarro, não queria estar ali, e a quantidade de cigarros que enfiava na boca correspondia à vontade de estar longe dali. O mais calmo continuava sendo o morto. Richard gostava dos pequenos momentos, como a morte por exemplo. Estava fascinado com o semblante aliviado do senhor de mãos cruzadas. Queria bem uma rodela de cu, mas precisava se controlar ou ir pra casa sem nada. Antes de decidir qualquer coisa, a mulatona voltou.

Sentou-se no mesmo lugar, empurrando a cadeira de Richard com a bunda, esta, do tamanho de uma bacia. Olhou pra ele, mas os olhos não estavam realmente ali.

- Olha, uh, ih, ê... Sou Karla Kiss: jornalista, cantora, macumbeira, mãe e santa.

- Prazer, Karla. Me chamo Richard.

Então Richard entendeu o que Simone queria dizer quando falava dos beiços da negona. Porque ela os fez saltar pra frente como um trampolim. Não estava entendendo mais nada em volta. Estendeu as duas mãos na frente de Simone, no caminho derrubou um copo vazio no chão. O homem que falava dos Mutantes estava na outra mesa olhando. Ele se levantou quando o copo estourou no chão. Estavam aparentemente juntos, ele e a mulatona, mesmo que um estivesse em Marte e o outro em Plutão. Ele sentou novamente.

- Uh, ó, então, você vai ler a minha mão e vai dizer a verdade – Karla disse pra Simone.

- Karla, já me disseram que eu não devo fazer isso. Que faz mal pra mim.

- Vai logo!

- Tudo bem – e pegou uma das mãos de Karla Kiss. – Olha, você é muito sincera, viu? E isso pode te atrapalhar um pouco a vida. Você é impulsiva, vai ter um problema de saúde que vai te incomodar por uns três anos, quando você tiver com 58, por aí...

Karla parecia fascinada. Com a mão que tinha sobrado, sem desviar o olhar de Simone, apalpou o pau de Richard, que sentiu alguma coisa estremecer na espinha, mas ficou quieto. Não fazia muita diferença pra ele. E Karla encontrou apenas duas bolinhas tímidas espremidas na cueca. Até que uma hora o negócio cresceu automaticamente e Richard teve que disfarçar e segurar o riso. Dobrou uma perna na outra, esbarrou na mesa e então disse que precisava ir ao banheiro.

Na mesma hora o sujeito que acompanhava Karla Kiss e falava dos Mutantes disse alto: “Merda. A prótese tá me doendo”. E se levantou com um murro na mesa e um dedo lá dentro da boca. Seguiu Richard até o banheiro.

No que entrou, Richard foi direto desabafar na privada. Mijava rápido demais. Tinha trauma de banheiro público. Pobre Richard. Terminou e, já na pia, viu que o fã dos Mutantes estava bem ao lado, lavando alguma coisa na segunda pia. Primeiro Richard viu o homem através do espelho. E foi aí que sentiu que ia desmaiar. Isso porque era o mesmo homem que falava dos Mutantes e acompanhava Karla Kiss, mas agora ele tinha a boca completamente murcha, como se lhe tivessem arrancado o queixo fora com um tiro de rifle e então houvesse sobrado apenas um buraco ali, nenhuma expressão, só os olhos que, mesmo antes, não diziam muito. Ele murmurava qualquer coisa com a pia. Richard prendeu os olhos nele com o choque. Ficou ali com a boca aberta, olhando pro sujeito, que lavava sua dentadura. “Que foi?”, o sujeito perguntou calmamente, rindo um pouco, nem pro lado ele olhou. “Não conhece? Nunca viu? Ameba...”, e encaixou a dentadura de volta. “Se pega comendo alface estragado, sabia?”. Ele não devia ter mais idade do que Richard. Um pouco menos de cabelo, mas devia estar também na casa dos cinqüenta. Assim que olhou para Richard, este teve que se apoiar na pia pra não desabar.

- Aconteceu alguma coisa, irmão? – perguntou o sujeito, e ao falar seriamente parecia agora ter cem anos, as palavras saíam abafadas e como um cuspe acatarrado da sua boca.

- Não... Nada... Só um pouco tonto... Mas já passa.

- Porra, cara... Essa prótese é que tá me dando umas enganchadas aqui atrás, ó – e o sujeito se aproximou com a boca bem aberta e puxou com o indicador as pelancas que sobravam para mostrar o problema a Richard.

Richard caiu no chão, praticamente desacordado. Muito sensível pra noite: Richard. O sujeito então enfiou as mãos nos seus bolsos pra ver se achava alguma coisa, quinze reais e umas moedas, um baralho de mulher pelada, então saiu do banheiro e deixou Richard sentado na privada tampada.

Quando acordou, Richard lavou o rosto e viu que tinha sido roubado. Saiu do banheiro coçando a cabeça e assim que olhou pra sua mesa viu Simone dançando com as mãos pro alto junto aos negros de tranças e camisas parecidas. Dançavam em roda e batiam um a cabeça nas costas do outro, cabeça subindo e descendo, de vez em quando davam umas espalmadas na testa e então jogavam as mãos pro alto outra vez. A música era africana. Simone estava bem animada com um dos negros. Ele a pegava por trás, pela cintura, e ela ria com a cabeça de lado e a franja de qualquer maneira esparramada sobre os olhos. Richard ficou olhando de longe. Pediu uma cerveja no balcão e se escorou. Não achou nem Karla Kiss nem o sujeito da chapa que fisgava ali atrás. Mas a cerveja o dizia muita coisa: às vezes a bebia com uma certa expressão de dor; eram os dias ruins. Outras vezes bebia sem sentir nada; estes os dias de ilusão. Ou então poderia bebê-la com carinho; dias de paixão então seriam. Desta vez era com dor. Coçava a cabeça e balançava a perna. Foi quando chegou a polícia.

Entraram dois, aquilo era o velho oeste pra eles, mãos nos coldres, botinadas espaçadas, limpando os dentes com a língua, fazendo uns barulhos esquisitos com a boca, olhando pros lados como se esperassem o medo. O problema é que eles não sabiam o que era o velho oeste. O mundo enlouquecia no ritmo das botinas nos azulejos. No que a polícia se fez perceber, a música ficou baixa e os negros se espalharam nos cantos mais escuros, automaticamente botando a culpa toda na história. A cena. Foram os dois policiais até o balcão, se apoiaram nos cotovelos e perguntaram pro balconista do velho que disseram que tinha morrido ali. Ele apontou para o senhor de olhos fechados na cadeira. Eles então seguiram até lá. Deram uns chutes no morto, sua perna foi arrastada um pouco mais pra fora da cadeira. Um deles o estapeou na cara uma dezena de vezes, para ver se dali vinha algum espasmo, se ele pelo menos golfava. Quando o mesmo já estava praticamente espancando o morto com a palma aberta, o outro o cutucou com o cotovelo e mostrou a saída com o queixo. Seguiu até a porta ainda olhando para todos ali dentro, ainda esperando sua dose de culpa para descarregar no nariz e nas costelas do primeiro revolucionário que se manifestasse. Rapidamente seu parceiro se dirigiu para o mesmo lugar. Conversaram meia dúzia de códigos e então sumiram na escuridão.

Gradativamente o bar foi retomando seu ritmo natural. Simone ajeitava os cabelos e ouvia a conversa sobre alienação cultural do negro líder da semana de conscientização negra, quando avistou Richard encostado no balcão. O morto continuava ali, um pouco menos digno, com os cabelos desgrenhados e a língua pra fora devido aos tabefes, as pernas esparramadas. O morto tinha caído do céu e por azar era novamente um bêbado. Um senhor se levantou do canto do bar, estava também ele já bem alto, carregava um ramalhete velho de rosas vermelhas, bem murchas. Foi até o morto, se agachou na frente dele e ficou um tempo segurando sua mão. Pareciam conversar alguma coisa. Então, com muito esforço, o deitou no chão. Apoiou sua cabeça num dos isolantes térmicos onde as garrafas eram enfiadas para não esquentar. Esticou suas pernas e cruzou seus braços sobre o peito. Exatamente no cruzamento dos braços, enfiou uma rosa. Fez o sinal da cruz três vezes, se levantou e voltou a beber ao lado do seu ramalhete.

Simone veio até o balcão. Pediu mais uma cerveja e olhou para Richard com o cigarro no bico. Ele pediu um isqueiro pro balconista e acendeu o cigarro de Simone.

- Simone, preciso de 50 paus.

- Você sempre precisa de um pau, Richard querido.

- Não, é sério... Fui roubado no banheiro.

- Isso é que dá ficar pagando boquete em banheiro de bar. E então, como é?

- Como é o que, mulher?!

- Boquete sem dente...

- Não fode, Simone. Você pode me emprestar ou não?

Simone tirou uma nota de 50 e deixou no balcão. Richard a meteu no bolso imediatamente.

- Olha, acho que eu vou indo... A gente se vê em casa?

- Um dia desses eu me mato de vez, ouviu, Richard... E vê se não vai fazer merda de novo que eu não sou a tua mãe,combinado?

- Aquele negão ali tá te olhando sem parar...

Smack. Richard deu um beijo na sua comadre e saiu dali. Era o que lhe restava àquela altura: um taxista rumo a Copacabana. As noites bebidas em dor maior terminavam sempre lá. E não era mais ele próprio quem escolhia isso. Tinha se tornado seu próprio dado viciado. Parou na frente dos arcos, onde um grupo de taxistas conversava debaixo de uma nuvem de gordura. Bebiam latas de cerveja, uns jogavam dominó, dois ou três estavam num canto fumando um baseado, mais uns quatro destrinchavam seus churrasquinhos no espeto. Richard ficou tentando adivinhar qual era o carro da vez. Viu um latino de cabelos encaracolados, mangas de camisa dobradas no alto, a camisa aberta no meio, queixo quadrado, ria alto. O tipo de Richard. O tipo michê.

Richard se aproximou com masculinidade, não queria nenhum tipo de antecipação da outra parte. Perguntou quanto ele cobrava até a Help. O latino disse que até o Leme dava 25 paus. Mas Richard queria só um.

Entrou no táxi, não era o primeiro na fila, mas os outros taxistas já estavam muito velhos pro horário, então foi mesmo com o latinão do queixo quadrado. No que o carro arrancou, durante uns cinco minutos, apenas os olhos se mexeram. Richard tentava o retrovisor, mas o latinão era burro demais para sutilezas. Tinha que ser à sua moda.

- Te dou 15 reais pra chupar teu pau – fuzilou Richard.

- Qual o teu nome, cara? – rebateu o latino sem se incomodar com a proposta.

- Richard. E o teu?

- Richard? Nome de bicha mesmo.

- Você topa ou não?

- Só se tu deixar eu gozar na tua boca.

Era o suficiente. Richard rapidamente escorregou para o banco da frente e passou com os dedos os cabelos para trás das orelhas. Avançou na braguilha do latino, que ria discretamente. O táxi continuava vagarosamente pela pista da direita. Demorou uma reta pro pau do latino levantar. Era como se, a cada pau endurecido, Richard renascesse sob outra forma. Mas o latino gostava mais de mulher do que de homem, então tratou de gozar o mais rápido que pôde. Mas antes de gozar, arrancou pelos cabelos a cabeça de Richard de cima do seu pau e então enfiou novamente com força até o final, afim de engasgá-lo com a porra. Era como uma saraivada numa fetichista com prendedores nos mamilos. Richard de fato foi obrigado a devolver a porra numa golfada trêmula. De resto se lambuzou durante mais alguns minutos. Pagou os 15 da chupada e os 25 da corrida, convidou o taxista para beber alguma coisa, ele disse que precisava primeiro se limpar, tudo bem, estou ali naquele bar com o toldo puxado, logo ali, do lado da Help, tudo bem então, te encontro lá.

E lá foi Richard, esperando o latino, as baratas, a morte, o prazer, as desculpas, as próteses, os protestos, os ataques fulminantes de paixão e todas as outras coisas do mundo nos mesmos lugares, mas já não havia mais tempo para compreender a dose brutal que nos faz seguir aos tropeções pelas linhas frágeis da emoção repentina, já era tarde, Richard, e tudo o que você queria era ser tratado como um Oscar Wilde ou um Jean Cocteau, mas não existem mais aqueles antigos eunucos do amor intelectual, a parte do mundo que lhe cabia, ele queria agora, e não teria, agora ou nunca, nunca mais, mesmo depois de cada giro que dava em torno de si mesmo para lugar nenhum.


Partilhar

2 comentários:

Graça Carpes disse...

Retrata de forma clara os “arco-íris” da vida.

Anônimo disse...

a crueza com que vc. descreve situações verdadeiras e que nos recusamos a "enxergar", dá calafrios.
Bom.
MM