quinta-feira, 14 de outubro de 2010

GENTILEZA >> Fernanda Pinho


“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo” – Shakespeare

Fico pensando em como deve estar desgostoso o senhor José Datrino, lá do céu. Ele, que ficou famoso como Profeta Gentileza e foi o propagador da filosofia "gentileza gera gentileza" ,deve estar tendo dificuldade em encontrar os frutos das sementes que plantou. Porque, gente, reconheçamos, ser gentil está mais démodé do que usar pochette.

E eu, graças a Deus, estou por fora, pois acho gentileza o máximo. Não abro mão de desejar feliz aniversário a ninguém - e levo tão a sério que sei de cor as datas de aniversário de todas as pessoas das minhas relações; faço o impossível para comparecer sempre que me convidam (e se não posso ir, nunca deixo de me justificar); não deixo ninguém esperando; não saio discordando só para causar polêmica; respeito os horários dos outros; não deixo ninguém mudar de planos por minha causa; sempre falo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "muito obrigada" (faço questão do "muito"); só me recuso a fazer um favor para alguém se realmente não estiver ao meu alcance (e nesse caso eu tento indicar quem possa fazer); sempre retorno as ligações; sempre respondo aos e-mails; e jamais me dirijo a alguém adotando um tom autoritário. E aí você pode estar pensando: "vantagem nenhuma, você não faz mais que sua obrigação". Exatamente, eu também acho. Isso é o básico, o arroz com feijão que sustenta esse detalhe que faz toda a diferença para que tenhamos uma vida melhor: a gentileza. E o que me desespera é perceber que nem do arroz com feijão as pessoas estão dando conta. As pessoas querem estar certas, querem mostrar o quanto são poderosas, o quanto são inteligentes. As pessoas querem cumprir metas, mostrar o quanto são competentes, o quanto são esforçadas. As pessoas querem ficar ricas, mostrar o quanto são espertas, o quanto são melhores que os outros. E quanto a ser gentil? As pessoas não se preocupam com isso ou, sendo otimista, se esqueceram desse detalhe - nem foi por mal - devido à falta de tempo.

E quando falo "as pessoas", me incluo também já que, embora eu faça meu arroz com feijão, vivo mordendo a isca dos sem-educação e grosseiros de todos os tipos. Não raramente me vejo gastando energia num embate com alguém que tenha me tratado sem o mínimo de gentileza. O que ganho com isso? Nada. Apenas a frustração por não ter conseguido ser gentil, mesmo com aquela pessoa que não merecia. Porque o que eu entendo é que a gentileza que gera gentileza é aquela indiscriminada. É ser gentil sem olhar a quem. Do resto, a vida se encarrega.

Como aconteceu com meu pai, há cerca de dois anos. Numa madrugada de chuva torrencial, indo de carro de Belo Horizonte a Juiz de Fora, ele parou na estrada ao ver uma ambulância estacionada no acostamento. Perguntou ao motorista o que estava acontecendo e este lhe explicou que o veículo tinha estragado, ele precisava seguir viagem e não sabia o que fazer. Meu pai, então, desceu do carro. Deu uma olhada no motor da ambulância e, como viu que não poderia fazer nada, levou o motorista até a cidade onde ele deveria chegar e o ajudou a encontrar um mecânico que pudesse voltar com eles até a ambulância. Três meses depois, passando pela mesma estrada, meu pai sofreu um acidente gravíssimo. Foi levado para a Santa Casa de uma cidade próxima e, devido ao estado em que se encontrava, só poderia ser transferido para um hospital em Belo Horizonte de ambulância. Porém, de acordo com as normas esdrúxulas da Santa Casa em questão, uma ambulância deveria se deslocar de BH até a tal cidade para buscá-lo. Possibilidade inviável, logicamente. A viagem demora cerca de duas horas e meia, o que significa que levaria, no mínimo, cinco horas para que meu pai fosse atendido num hospital daqui. E assim teria sido se um motorista da Santa Casa não tivesse entrado no ambulatório e visto meu pai na maca. Tratava-se exatamente do mesmo motorista que meu pai havia socorrido meses antes. Ele peitou seu próprio chefe e todo o hospital. "Esse cara me ajudou um dia e eu vou levá-lo agora, e de qualquer jeito", ele disse. E trouxe.

Meu pai ficou um mês internado mas sobreviveu porque foi atendido a tempo pelo melhor hospital que temos em Belo Horizonte. O que poderia não ter acontecido se, naquela madrugada chuvosa, ele não tivesse marcado a resposta certa no teste que a vida lhe aplicou. Desde então, fiquei mais vigilante às respostas que eu dou aos testes que a vida me aplica e sei que só existe uma resposta certa: gentileza.

www.blogdaferdi.blogspot.com


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19 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fiquei emocionado, Fernanda. Grato por essa crônica tão gentil. :)

albir disse...

Infelizmente, Fernanda, essa semente não tem encontrado terreno muito fértil. Mas você tem razão - não desistamos!

Carla Dias disse...

Ai, Fernanda... A gentileza é um milagre cotidiano, mas que quem faz acontecer somos nós, os seres humanos. Concordo com tudo o que você disse. Bjs!

Samara disse...

Gentileza não devia ser surpreendente, devia ser hábito. Eu me revolto com algumas coisas as vezes: hipocrisia, injustiça, preconceito, má educação e ignorância (e nem precisa ser comigo, aliás, se for comigo capaz de eu nem ligar) fazem eu me esquecer da gentileza de vez em quando, mas parte de mim acha isso justo. Devo trabalhar isso, tem coisas, ou melhor, pessoas, que não valem a pena.

Vinicius Machado disse...

Fernanda, a maior verdade é: Gentileza gera Gentileza. Com certeza.

Desde de pequeno a minha vó ensinou: Só faz para os outros o que queres que faças contigo!
E para a felicidade de todos, não sou masoquista! Então, procuro sempre fazer o que está ao meu alcance para ajudar, pois, do mesmo jeito que ocorreu com seu pai, sei que quando puderem retribuirão.

E aos “estressados” de hoje, eu desenvolvi outra filosofia de vida: Let it be, deixa estar. Tem gente que está em um dia tão ruim, está frustrada com tanta coisa que acaba descontando em um amigo, desconhecido. E as vezes, cabe a nós deixarmos elas gritarem e espernearem o bastante até que elas se acalmam, sabe? Tipo criança mesmo...tem que deixar por para fora.
Hoje em dia é tão difícil ter tempo para nós mesmos, para relaxar, resolver problemas pessoais que acaba acontecendo de coisas bobas nos tirarem do sério.
Claro que cada um tem que se controlar, mas, como você disse: Gentileza gera Gentileza!

Marilza disse...

Acho que gentileza e educação veem de berço. infelizmente muitos não tem nem um nem outro.
Existem palavrinhas mágicas q derrubam qq gesto grotesco so que essas palavrinhas andam muito em desuso.

Fernanda disse...

poxa, tbém fiquei emocinada!
seu pai teve a resposta da vida, de que gentileza gera sim gentileza :)

beijos, belo texto!

fernanda disse...

Quando leio palavras, assim, tão gentis, volto a crer que nem tudo está perdido. Muito obrigada, queridos =)

Fernanda Gonçalves disse...

Parabéns, Fernanda, pelo belíssimo texto. Ler uma crônica assim, tão cheia de coisas boas e de verdades essenciais deixa um gostinho bom para continuar a tarde.

Muito obrigada por compartilhar.
Abraços

Jujú disse...

Ai amiga, lindo texto...verdadeiro que só! Eu penso exatamente como vc. A coisa que mais me irrita no trânsito, por exemplo, é o fato das pessoas não ligarem para os outros. Fecharem cruzamento, não darem passagem NUNCA, não dar seta, e por aí vai! E eu tb me irrito tanto quando caio nas armadilhas de gente mal educada! E aqui na imobiliária as pessoas são mal educadas 95% do tempo! Aff...

Mas não devemos desistir, né? Afinal como aconteceu com seu pai, acho que tudo que fazemos volta na mesma intensidade para nós, então que sejam coisas boas!

Amo-te!

Beijocas

Kika disse...

Mais um texto lindo e tão cheio de verdades.
Que todos o leiam, é o meu desejo.
:)
beijos

Laís Bastos da Silva disse...

Ferdi, concordo com você, acho que é o mínimo que podemos fazer é ser gentis com os outros, ganhamos muito com isso. Exemplo disso é seu pai, que história linda ! beijão

fernanda disse...

Muita obrigada, meninas. Acho que histórias assim não podem ficar guardadas, né? Beijos!

Jaque disse...

Fernanda, lindas palavras!

Helô Passarelli disse...

Olá! Parabéns pelo post (e pela história). Eu trabalho com o público, e sei muito bem como anda a 'educassão' desse país, a começar pela (falta de) gentileza. Um gesto tão simples, e tão caro pra alguém sair por aí distribuindo né! Hoje, no dia mundial da gentileza, espero que o Brasil seja incluído nesse 'mundial'.
Abraços!

Helô Passarelli disse...

Ah sim, e ainda comentei deste post no meu blog,na ultima postagem de mesmo tema!

http://helopassarelli.blogspot.com/2010/11/hoje-e-dia-mundial-da-gentileza.html

Abraços!

Ananda Zambi disse...

Em certas ocasiões, eu tenho até vergonha de ser tão gentil. Gentileza gera gentileza e gente lesa gera gente lesa!

Maik Oliveira disse...

Que maravilha de post, Fernanda, e que exemplo esse do seu pai, histórias assim, são mais do que necessárias na rede.Se me permitires gostaria de levar esse post para constar no post de Sociologia Hoje do curso de ciências sociais da Universidade Estadual de Santa Cruz..ficarei imensamente grato!
www.sociologia-hoje.blogspot.com

Anônimo disse...

Parabéns, Fernanda, pelo belíssimo texto.