quarta-feira, 20 de abril de 2016

BOLETIM: AMO >> Carla Dias >>


Calou-se ao encará-la. Ela a quem ele corteja com o olhar. Pensou que daria o próximo passo, que diria a ela o verbo conjugado em declaração do que ele traz no engasgo: amo.

Pensou que renunciaria à condição de companheiro de trabalho, conquistando um espaço afetivo nessa jornada comercial que dividem com devoção.

Ausente da companhia dela, ele que é moço que não desvela emoções que nele latejam, permite-se ser tomado pela provocação desses sentimentos. Senta-se na confortável poltrona da varanda. Observa árvores e pássaros e ventos e silêncios. Encanta-se com a lua e imagina coisas.

Não gosta de pensar que imaginar coisas seja o mesmo que sonhar acordado. Sabe que imaginar coisas é o mesmo que sonhar acordado ao imaginar coisas sobre ela.

Imaginou uma viagem por todas as capitais do mundo. Ela sorrindo com os lábios e os olhos. Ele sentindo o corpo dela estremecer ao observar a paisagem cobiçada pelo antigo desejo de conhecê-la. Refestelando-se um na carne do outro. Comprazendo-se um na existência do outro.

Discutindo... Porque o drama existe na vida de quem a vive.

As discussões sempre a levavam a alfabetizá-lo, valendo-se da candura para abordar reprimendas. Ele a aliciava com o despudor da solidão. Um verbalizava o que deixava o outro desconfortável. Algumas coreografias eram criadas para a exaltação do que os unia. Apesar de ignoraram o quê. Havia entre eles o conforto de não se importar com o desconforto. Não se o olhar de um navegasse no do outro sem censura.

Imaginava beijo, abraço, desavenças, reconciliações... Adorava reconciliações, porque elas permitiam que abraçassem a fragilidade e reverberassem a crueza dos seus predicados.

A varanda é cenário recorrente da imaginação dele. Soubesse ela das vezes em que se deitaram naquele chão para trocar confidências e sacanagens. Bebericar vinho, café, palavras inéditas.

Soubesse da dedicação dele em fazê-la feliz.

Há nela a sombra dos que vivem a ruminar lamentos. Sobriedade a define e ele gosta disso. Acredita que há nela o que ser descoberto. Imagina-se descobrindo.

Calou-se ao encará-la. Assustou-se com a realidade de nudez pálida. Abismou-se com a ousadia a buscar por espaço. Libertar a imaginação para dizer a ela todos os sentimentos que acumulou é uma coisa. Estar na presença dela, e pousar o olhar sobre a maciez de sua tez, desqualifica-o para o posto de aventureiro.

Questiona um relatório e ela explica o motivo de estar certo. Ele sabe que está certo. Sorri e pede desculpas pelo inconveniente.

A voz dela é a que ressoa em sua cabeça. Ela já não diz. Ele escuta. Tornou-se habilidoso em imaginá-la, como se ela vivesse em um filme a se repetir em sua memória inventada.

Imagem: Seated Woman © Stanton Macdonald-Wright

carladias.com



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4 comentários:

Zoraya disse...

A Rainha do lirismo em ação novamente. Sem dramas, sem melodramas, e com a dor pungente do vazio e da solidão. Carla, cada vez melhor!

Carla Dias disse...

Zoraya... Obrigada por mais uma leitura e o comentário tão delicado. Beijos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, Carla... e quem nunca amou assim? :)

Carla Dias disse...

Quem não se rende ao amor, Eduardo.