quarta-feira, 6 de abril de 2016

PASSOS >> Carla Dias >>


Há muitas coisas acontecendo. Há muitas pessoas circulando por aí. Há milhões e milhões de histórias se desenrolando nesse agora, enquanto pensamos nas muitas coisas que acontecem — com um alcance que inclui somente aqueles sobre os quais temos conhecimento — e nas pessoas à nossa volta. E os milhões de histórias, das quais sabemos tão pouco, que esse pouco se torna um parente direto do quase nada.

Assim seguimos: minimalistas flertando com superlativos.

Há o que acontece enquanto caminhamos, alheados, rumo aos lugares aos quais decidimos pertencer para sempre, amém. Ao meu lado, você caminha com mais pressa. Incomoda-me essa urgência, que sou dos contemplativos, gosto de botar reparo na rotina, de gastar tempo a apreciá-la. Já você... Ah, você...

Às vezes, seguro sua mão e puxo o freio. Você me encara como se quisesse me fuzilar por tirá-la do seu ritmo. Depois, desvia o olhar de mim, e em vez de se adequar ao meu ritmo, como metaforicamente eu pedi, ou que cheguemos a um acordo e ao sempre providencial meio-termo, você acelera e eu lhe alcanço.

Eu sempre lhe alcanço.

Sejamos claros, de clareza iluminadora: quantos passos nos mantêm distantes um do outro? Seriam os que colocam a mim na banca de frutas, enquanto você pondera sobre entressafra com o pessoal da banca de legumes?  Ou aqueles que sempre me prendem na cozinha, entre a pia e a porta de acesso à área de serviço, enquanto você desfila na sala de estar dos amigos?

Quantos passos seriam necessários para que voltássemos a nos encontrar?

Porque há muitas coisas acontecendo e ao mesmo tempo. Muitas dessas muitas coisas eu prefiro deixar do lado de fora de mim. Dentro de mim, somente coisas que permito entrar, e quando não, as que me tomam, deixando-me sem a menor chance de lutar contra, de prosperar na revanche. Coisas que me endoidecem, enfurecem meus sentidos, atrapalham minha plenitude planejada cuidadosamente, como foram os armários da cozinha, e que clareiam o recinto — esse lugar cheio de sombras que me sitia — com suas luzes extravagantes.

Como o sentimento que me habita, mas é por você que respira. Ele que se achegou a mim sem que eu tivesse vontade de recebê-lo. Bem quando eu precisava de silêncio, ele chegou aos berros. Desarrumou minha casa interna, elaborou um plano ousado e conseguiu... Arrancou-me de mim.

Fez-me vibrar por nada. Durante muito tempo. Até perder o fôlego. Até perder a hora de ir para o trabalho. Até perder a noção de tempo e espaço. Até conhecer intimamente a saudade. Até desejar o que jamais desejaria, em nome da autopreservação existencial. Até esvaziar garrafas de vinho. Pacotes de bolacha. Armário de roupas. Bolsas e bolsos de casacos. Até me apaixonar por canções de amor. Canções de dor. Canções de guerra. Longos poemas. Até me doer o silêncio durante a espera pela sua chegada, que quando acontece, mesmo que você não me ofereça nem mesmo um olhar, eu respire o alívio dessa volta.

Há muitas pessoas circulando por aí.

Aqui...

Aqui...


Imagem: A Naiad © John William Waterhouse 

carladias.com



Partilhar

4 comentários:

Lilu disse...

Estruturadamente passional. Apaixonadamente com-passado. Gosto muito.

Carla Dias disse...

Oi, Lilu.
Fico feliz que tenha gostado. :) Beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Pérola, Carla: "Assim seguimos: minimalistas flertando com superlativos."

Carla Dias disse...

Obrigada, Eduardo. Beijo.