segunda-feira, 25 de abril de 2016

HERÓIS E NABABOS >> André Ferrer

O esporte que faz a cabeça de crianças e jovens, o nosso esporte nacional, tem os dois pés na malandragem. Exemplos contraindicados à formação cidadã fatalmente constituem a alma brasileira. Muito da nossa concepção de mundo fica, portanto, reduzida em termos de símbolos botequinescos.

O futebol e a sua cultura da malemolência ilustram os mais variados discursos, da sala de estar aos palanques oficiais. Tanta informalidade, assim, torna quase impossível não considerar o futebol como algo à parte nos Jogos Olímpicos.

Aliás, o que de fato maravilha nas Olimpíadas é a característica de alto rendimento presente em quase todas as modalidades. No meio de tantos milésimos de segundo, concentração e disciplina, o futebol parece mais um objeto estranho. Não há termos plausíveis de comparação e, neste aspecto, os jogadores de futebol são verdadeiros nababos ao lado dos atletas.

O primeiro medalhista dourado da natação brasileira está fora das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Uma segunda medalha de ouro até poderá surgir na piscina, mas não pelos braços de Cesar Cielo. Na última semana, logo depois da prova que o desclassificou, o nadador surgiu aos prantos na TV e na Internet.

Inevitavelmente, ele foi bombardeado com palavras de otimismo e incentivo. Nas suas vistosas bancadas ou nos rodapés dos noticiários digitais, um batalhão de comentaristas tratou logo de abraçar o nadador exatamente como está acostumado a abraçar jogadores de futebol em plena secura de gol. Todos equivocados. Cheios de boa intenção, mas equivocados. Não pelo ato em si, mas pela forma levemente despreocupada e até festiva empregada naquele discurso “bola pra frente”. Com certeza, uma das metáforas mais usadas neste botequim de dimensões continentais. Algo que todo infeliz dá lá o seu jeitinho de encaixar em qualquer contexto.

A grande sutileza, nisso tudo, está no fato de que, na vida de um atleta de alto rendimento, o próximo domingo no “Maraca” pode, eventualmente, não acontecer no próximo domingo, mas só dali a quatro anos. Tempo, muitas vezes, que supera os anos restantes para o fim de uma carreira. Desejar força para um atleta de alto rendimento é diferente de fazer o mesmo para um jogador de futebol.

Em termos gerais, a reação diante da desclassificação de Cielo — seja do público, seja de formadores de opinião — revela um grande engano brasileiro. Escancara os nossos equívocos, como nação, a respeito de esforço, prêmio e mérito.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Boa reflexão, André! :)
Tem um livro muito bom a respeito da nossa mentalidade futebolística, VENENO REMÉDIO - O futebol e o Brasil, do José Miguel Wisnik
http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11050