sexta-feira, 5 de novembro de 2010

À PROCURA DE UMA SOLUÇÃO [Sandra Paes]

Essa semana apareceu um sinal novo no visor do computador do carro. Era ligar e começava aquele som de bip, bip e uma mensagem escrita. Cooler low. E isso se deu na hora em que, é claro, estava indo para um encontro importante e não poderia parar pra averiguar nada.

No dia seguinte, a mesma coisa. Pensei: "Preciso repor o líquido que refrigera o carro. Deve ter abaixado a tal ponto que daqui a pouco não vou ter mais ar condicionado." E, é claro, como isso seria possivel uma semana depois de ter deixado o carro na revisão?

Decidi não pensar mais e parar numa oficina especializada pra ar condicionado. Assim que parei veio um rapaz apontando para baixo fazendo sinais e balbuciando algo - como se fosse possivel entender o que ele dizia com as janelas fechadas. Claro, abri o carro, saltei e ele veio com cara de aflito me dizer que tinha que trocar a bomba de água.

E eu, que nada entendo de mecanica, pensei: "Ele precisa saber que o computador avisou.. bla bla bla." E de novo, ele retruca: "A bomba de água, a bomba de agua..." e chamou um mecânico pra ver o motor.

Aí sim, começou o sânscrito da modernidade. Eu só ouvia palavrões como rebimboca da parafuzeta, etc e tal. E eu só queria que o homem olhasse o cooler. E nada!!!

Tive que pará-lo, que falava compulsivamente com gestos e numa postura muito parecida com as dos médicos nos hospitais tentando convencer a familia de um diagnostico pra indicar um tratamento assim, assado.

E eu disse isso a ele. Ficou aborrecido e, amoado, resmungou: "Eu só estou tentando explicar." E eu tive que dizer que nada entendia de mecanica e de peças e defeitos de carros e o que é que a bomba d'agua tinha ou não com isso ou aquilo. Apenas acrescentei: "Me da o orçamento e eu vou analisar."

O número apresentado me pareceu astronômico. E, é claro, fui procurar um segunda opinião, já sabendo que passaria pela mesma via crucix. Afinal, quando não se entende do riscado, seja lá o que vão dizer, a gente fica mesmo à margem da possivel solução.

E dirigindo com cuidado à procura de outra oficina, me perguntava por que a autorizada não teria visto isso quando fiz a revisão dias antes. E alguém iria lá assumir seja la o que for?

Sinal dos tempos? Não sei. Mas me peguei numa saia justa dessas de modelo simples que lhe prende as pernas quando quer saltar do tamborete onde nos sentamos sem perceber como, num bar, à espera da mesa do jantar. O desconforto de movimentaçao e liberdade é bem semelhante.

E pra mim, que gosto de saber o que está escolhendo, tudo ficou claro. E que escolha você tem mesmo?

Liguei pra um amigo. Isso depois de ligar pra seguradora e falar sobre aluguel de um carro, pensando que teria que deixar o meu na oficina por um dia e eu precisava de um carro. O amigo pergunta onde estou e diz que vai ligar para seu mecanico pra perguntar o que fazer. Enquanto espero a resposta da seguradora que me pede quinhentos números disso e daquilo, ele liga aflito pra dizer: "Pede um reboque. Não é prudente dirigir o carro, voce pode ficar com danos maiores."

E eu vou pedir reboque de onde pra onde? Tá maluco? "Leva o carro pra sua casa e eu vou chamar o mecanico pra ir lá." Que soluçao?! E eu pensando com meus botões: -quem mandou pedir ajuda? Você não sabe que ninguem apresenta uma soluçao razoavel pra você?

A chuva começa a cair torrencialmente. Ainda mais essa. Deixo o carro nas mãos do recepcionista de outra oficina famosa e ele diz: "- Ah, voce vai ter que esperar uma hora para o diagnóstico. Não sabemos o que está acontecendo apesar da queixa apresentada pelo computador."

E eu perguntei abismada: "- Uma hora so pra saber qual é o problema?" E tive que amargar um seco ou aceita ou vai embora.

Fiquei. Sentei na sala de espera e abri um livro pra passar a tal hora um pouco mais suavemente. Não deu. Tinha lá uns gringos discutindo o destino da América, os rombos deixados pelo presidente anterior, naquele tom típico de treinador de futebol que sabe tudo sobre seleção e tal e determina com clareza como o presidente deveria fazer isso e aquilo e por que não fez, deu tudo errado.

Tentei me abstrair e eles aumentaram o tom de voz. Não estavam na sala de espera de uma oficina, estavam literalmente na varanda de suas casas preparando um churrasco, tomando cerveja e falando de futebol.

E nessa hora a hora não passa.

Até que o recepcionista me chamou pra dizer todos os “problemas”. Bomba de água era só o começo.

E eu pergunto: "Mas isso não faz parte da colocaçao?"

"- Sim, mas eu tenho que te explicar." E de novo essa mesma coisa de falar em sanscrito e em grego mecanês, como se isso fosse acrescentar algo na minha decisão.

Peço o orçamento por escrito e ele diz que não poderia dar. Percebi que teria gato nessa coisa e quando ele disse o número, duas vezes mais caro que a outra oficina, pensei: Ceus! A corrupção está em toda parte.

Ou será que sou eu que não me acostumo com os jogos de barganha dessa sociedade movida a toma-lá-dá-cá? Pode ser. E nessa brincadeira em busca de uma solução, lá se foi toda a tarde, pois voltei à oficina orginal e ao perguntar quantos dias precisavam, em tom de brincadeira, o gerente respondeu que em duas horas tava tudo pronto.

E não eu é que eu acreditei?! As tais duas horas se transformaram em quatro na maior tranquilidade. Somadas a outra hora que passei esperando na outra oficina mais os traslados, lá se foi meu dia.

E ainda querem que eu acredite em livre arbítrio? Eu só queria ter podido ir ao banco, passar no supermercado pra comprar leite e voltar pra casa para outras coisinhas.

Cheguei ao entardecer, exausta, faminta, e sem rumo.

Mais um dia que se foi à margem de minhas escolhas que, de tão escassas, me estreitam a possibilidade de encontrar soluções pra problemas que, juro, não fui eu quem criou.

Você ja pensou em enumerar quantos problemas você tem que resolver sem você os ter gerado? Ahhh... Melhor não...

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