domingo, 21 de novembro de 2010

KAROL >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não vi a beleza dela. Eu estava muito preocupado com o que  aconteceria comigo, com aquilo que eu perderia. Com apenas um ano e nove meses de idade, eu pensei ter aprendido a lição mais dura: nem tudo era para mim. O que antes era só meu agora era de outra pessoa, e eu tive que fazer alguma coisa para não perder tudo.

Decidi, na minha mais antiga infância, dividir território com minha irmã. Ela ficaria com meu pai; eu, com minha mãe. Ela com a espontaneidade, eu com a disciplina. Ela e seu bom humor, eu e minha seriedade. Dela, a fala; meu, o silêncio.

Quando estamos reunidos em família e alguém começa a evocar lembranças da infância, Karol — como muitos a chamam — refere-se sempre sorridente a um tempo em que eu a chamava para lutar boxe. É uma lembrança só dela, não minha, mas faz todo sentido. Logo que aquele ameaçador bebê já havia se transformado numa criança quase do meu tamanho, era natural que eu quisesse resolver nossa situação no muque, no braço. Mas o que para mim era um duelo, para minha irmã era uma brincadeira. E é impossível vencer alguém que não está competindo.

Reforcei, então, a divisão de território. À minha irmã pertenceria a simpatia; a mim, a inveja. Minha irmã ficaria com os presentes, eu, com as sobras. Para ela, o sucesso; para mim, os projetos. Ela teria amigos; eu, livros. Ela passearia, eu estudaria. Ela viajaria, eu dormiria. Ela teria namoros precoces, eu desenvolveria amores platônicos.

Quando a espiritualidade, depois a música, me tornaram mais sociável, eu ornamentei o estranho mundo das interações humanas com as imagens que tinha de minha irmã — e de minha mãe. Quase todas as mulheres que conheci — e não falo apenas das que namorei, mas de quase todas com quem convivi — eram para mim uma nova versão de minha irmã ou de minha mãe.

Uma amiga, há alguns anos, disse que eu era misógino, que eu tinha aversão e desprezo pelas mulheres. Mas como, se eu as idolatrava, se buscava encontrar em cada uma delas a minha primeira mãe, a mãe que eu tinha antes da chegada de minha irmã, a mãe só minha? Uma de minhas terapeutas também me disse, certa vez, que devia haver em mim um ódio de minha mãe. A frase soou como "deve haver, no Sol, um rio" — impossível de provar que sim ou que não. Hoje percebo que minha amiga e minha terapeuta tinham — têm — razão. Há em mim a raiva de minha mãe ter arranjado outra pessoa para tomar meu lugar. Um crime agravado pelo fato de minha irmã provavelmente ter sido concebida na época de meu primeiro aniversário. Ou seja, enquanto eu brincava ingenuamente com meus presentes de 1 ano, era tramada a minha deposição. Sim, há motivo para raiva nisso.

Que tortura ter vivido, por 40 anos, num mundo em que as mulheres ou eram concorrentes ou eram traidoras, em que aparecia sempre uma mulher (a irmã) para me roubar outra (a mãe)! Tortura que prolonguei  — ao modo de vingança— arranjando sempre uma nova paixão para me livrar da antiga namorada. Quantos anos repetindo o mesmo jogo em que eu sempre perdia e fazia todos perderem junto comigo, convidando as pessoas para infindáveis lutas de boxe!

Voltando um pouco, para seguir adiante... Quando minha segunda irmã nasceu, para mim não havia criança mais bela no mundo. Biba foi uma trégua após uma longa luta. Após eu ter sido nocauteado pelo meu próprio nascimento — a fórceps — o árbitro precisou contar até dez — dez anos — e, no décimo primeiro, veio a paz de mais um nascimento.

Em minha segunda irmã, não consegui pregar a estampa de minha primeira irmã e de minha mãe. Biba era uma mulher nova, um raro feminino no meu bolo de figurinhas repetidas. Eu via minha irmã mais nova como nunca havia visto minha irmã mais velha (e todas as outras mulheres supostamente usurpadoras) ou minha mãe (e todas as outras mulheres presumidamente traiçoeiras). Biba era uma exceção, um descanso em meu mundo de conflitos que continuaria ainda por muitos e muitos anos...

Até ontem.

Esta semana uma criança, uma moça, uma mulher recusou a estampa que eu quis lhe pregar. Recusou sem saber do que se tratava, mas recusou mesmo assim. Recusou não porque recusasse alguma coisa, mas porque simplesmente quisesse ser ela mesma e não outra pessoa. E eu fiquei com a figurinha já lambida na mão, sem ter álbum em que a pregar.

Então ontem, feito fosse um pesadelo, as figurinhas todas que afixei nesses 40 anos começaram a se descolar, e eu chorei feito menino que perde o brinquedo. Entre as figuras despregadas, havia uma, a mais antiga, que me chamou a atenção. No álbum, de onde a figurinha se despegara, vi uma criança tão linda que logo pensei ser Biba, minha segunda irmã. Mas não. Era Karol.

Eu agora vejo a sua beleza. E vejo também o território dividido, com arames farpados apenas do meu lado. Vejo que ela sempre teve tudo: pai e mãe, espontaneidade e disciplina, bom humor e seriedade, amigos e conhecimento, viagem e descanso, amores e amor. E vejo, no reflexo de seus generosos olhos, que eu também tenho tudo. Vejo que, com minha primeira irmã, não perdi o que tinha, mas ganhei o que faltava: alguém disposto a brincar mesmo quando eu queria brigar; alguém agradecido por cada pequeno presente recebido, alguém capaz de apostar suas fichas em um duplo seis nos dados e, ao ganhar, sorrir e dizer: "Deus é bom para mim".

Vejo claramente, embora com os olhos embaçados de lágrimas, que a beleza fria da figura não se compara à real beleza da pessoa. E tenho vontade de ver, por trás de todas as demais figurinhas descoladas, a beleza das pessoas com que tive — e tenho — o privilégio de conviver.

Seja bem-vinda, Maninha. Seja bem-vinda a esse meu mundo novo, em que você — agorinha mesmo — acabou de nascer.

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9 comentários:

Fernanda disse...

Que grande resgate hein Edu! E essa é a maior beleza da vida, a de saber que enquanto estamos aqui sempre há tempo para crescer, para olhar pra trás, entender e seguir em frente, isso é evolução e a sua recente vivência é a maior prova disso, de que sempre há tempo para acertar os ponteiros e evoluir! Que esse seu novo mundo te traga muitas cores e risos e espontaneidade e tudo o mais que sempre existiu aí dentro de vc e que agora resurge mais vivo!

Beijão.

fernanda disse...

Me fez pensar em Paula, que quase me enlouqueceu quando veio ao mundo linda e loira. Hoje ela é a melhor parte de mim. A Paula é a minha Karol. A Karol é a sua Paula.
Bjos!

Karina Loureiro disse...

Meu irmão amado, sempre achei natural a nossa rivalidade, coisa de irmão, somos diferentes e eu aprendi a entender isso, mas do que raiva sempre tive admiração por você, não é todo mundo que tem um irmão compositor, cantor, escritor, talentoso. Eu admiro cada dia mais e mais os seus desafios, ainda mais este último de mudar, ser mais aberto, mais comunicativo, você se supera sempre. Quando falou em "nova irmã" lembrei de um livro que pedi a você - Nâo apresse o rio, lá tem uma frase que diz, quando um homem atravessa um rio, nem o homem é o mesmo homem, nem o rio é o mesmo rio, assim somos nós, mas ricos com a convivência que temos. Saiba que assim como a sua antiga irmã, a sua "nova irmã" lhe ama muito. Da sua ismã Karol

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, só para dizer que estou aqui, mas este texto é muito seu e da Karol. Eu prefiro ficar no silêncio mais contemplativo do mundo. Beijos.

albir disse...

Parabéns aos dois, que se merecem mesmo quando um pensa que não merece o outro.

Marilza disse...

Eduardo, que lindo texto. Foi importante pra vc não só a tomada de consciência como também a divisão, o compartilhamento, com tantas pessoas, dessa sua nova descoberta e consciência. Fiquei emocionada....
Bjs

leonardo marona disse...

a leveza do teu texto me faz sentir um eder jofre, borboleteando diante da realidade dura, eu que acabei de, aos 28 anos, ter minha primeira luta que não terminou em nocaute, mas está sendo contada ponto a ponto pelo árbitro, com a coisa rica e pequenina que se chama "minha irmã". obrigado por me tirar, nessa manhã de sol, essa emoção ensolarada.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Meus queridos, vontade de responder um por um... mas o tempo me escapulindo pelas mãos aqui em Fortaleza. Sintam-se lidos, (respondidos) e abraçados. :)

vanessa cony disse...

É Edu,o amor nos surpreende a cada instante e transforma o tempo passado em presente trazendo de volta todo o encantamento que nunca deixou de existir.
Eu continuo lá,nas minhas aventuras...
Agora coloco alguns dos meus textos em outro site.Boa essa diversão,né?
Beijo.