Pular para o conteúdo principal

BIPOLARIDADE CRÔNICA >> Clara Braga

O fato do dia das mães estar chegando me deixou um pouco reflexiva, já que esse vai ser meu primeiro dia das mães com meu filhote no colo. E nesses dias eu, que não sou muito fã de frases clichês mas uso todas as que conheço, me peguei pensando no clichê máximo da maternidade: ser mãe é padecer no paraíso. Não é possível que alguém tenha definido que maternidade é padecer, embora seja uma verdade, como todo bom clichê, achei injusto dizer que é apenas padecer. Maternidade é muito mais que isso.

Ser mãe é se perguntar como em pleno século 21 as músicas principais dos brinquedos infantis ainda são dona aranha e brilha brilha estrelinha, mas mesmo assim cantar mil vezes ao dia pra ver seu filho sorrir.

É desejar que ele durma pelo menos 30 minutinhos para você dar uma adiantada nas suas coisas, mas 15 minutos depois que ele dormiu se perguntar se ele não vai acordar logo, pois bate uma saudade.

É sonhar constantemente com o dia que ele vai dormir a noite toda para você descansar um pouco mais, e quando finalmente chega o dia que ele dorme, você acorda pelo menos umas duas vezes para checar se está tudo bem!

É rezar para ele não estranhar o dia que você tiver que voltar a trabalhar para não ser mais difícil do que o normal, e depois que ele ficar tranquilo se sentir mal porque parece até que ele não sentiu sua falta.

É ficar ansiosa para a introdução alimentar e depois ficar triste por não ser mais tão necessária na alimentação dele.

É sofrer para dar vacina e sofrer mais ainda porque perdeu a data da vacina.

É jurar que nunca vai amamentar deitada até que chega a noite que ele acorda de hora em hora e na sexta vez que você precisa levantar você é vencida pelo cansaço.

É achar um absurdo quem dá papinhas industrializadas para os filhos até chegar o dia que você está na rua, não conseguiu resolver tudo dentro do tempo previsto, não tem nada pronto para ele comer e ele começa a chorar de fome. Nesse momento, uma farmácia vai aparecer milagrosamente a sua frente e papinhas de vários sabores saltarão felizes para os seus braços.

É falar que seu filho vai aprender a dormir no berço, até você descobrir que colo vicia não só para quem ganha, mas para quem dá também. E no final você aprende que nem tudo que vicia é ruim

Enfim, poderia falar por horas, mas o que disse já foi o suficiente para eu chegar à conclusão que gostaria: ser mãe é mesmo muito mais do que padecer no paraíso, e por isso tomei a liberdade de mudar o clichê de uma forma que fique mais real para mim: ser mãe é ser diagnosticada com bipolaridade crônica e não desejar trocar esse diagnóstico por nada nessa vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …