quarta-feira, 16 de maio de 2018

CENA DE CINEMA >> Carla Dias >>


O olhar se bandeou para a cena acontecendo no outro lado da rua. Ele logo pensou em como seria levá-la para as telas de cinema. Qual seria o tom que usaria? Como descreveria o que seu olhar alcançava assim, na rotina? Qual seria a história imaginada para ela?

Decidiu que seria filme em preto e branco, com roteiro muito bem trabalhado e poucos efeitos. As cenas seriam cuidadosamente conectadas por transições sutis. Os atores seriam dirigidos de jeito em que a linguagem corporal diria mais do que um longo diálogo.

Não que ele não preze pelas palavras. Na verdade, construiria diálogos longos, talvez mais longos do que muitos costumam apreciar. Mas a eles dedicaria pausas muito bem colocadas, pontuadas por uma coreografia de gestos que lhe dessem respaldo.

Gestos. Os movimentos. Afinal, é uma cena de cinema e o olhar precisa mergulhar nela. E a sonoplastia: os pés se arrastando pela calçada, a água descendo quente e suja pela garganta, ainda assim, matando sede. Carros, burburinho, o choro de uma criança faminta e cansada. Alguém cantarolando o canto do pássaro.

Pensa na música. Violão? Violão... Música melancólica para cena descabida. Cena que revela as mazelas humanas, explora cenário inquietante, embrenha-se em realidade indigesta.

A música levaria os espectadores pela alma. Deslizaria pelos sentidos deles, que, ao encararem a tela escura, onde vai surgindo um isso e um aquilo, formando essa cena que ele observa agora.

13h58.

Escolheria os atores com esmero. As entrevistas se dariam em um pequeno café, perto de sua casa, e seria uma longa conversa sobre tudo, exceto cinema. O teste seria eles sobreviverem à curiosidade dele. A mesma que não permite que ele desvie os olhos. Para que olhar?  Cena... Não de cinema, mas de realidade leviana.

A mãe tenta acalmar a criança, mas ela não para de chorar a fome. Empanturrada de desalento, a mulher abraça sua cria, como se prometesse um futuro menos cruel, onde o quarto da sua casa não seja na calçada de avenida movimentada, onde sua vida fosse observada com indiferença. Então, ela desnuda o seio, onde a fome da criança é aliviada. Ele consegue ler no olhar dela: até quando?

O homem ao lado dele comenta “que pouca vergonha é essa. Onde já se viu botar o peito pra fora na rua? Só sabe fazer filho mesmo!”.

É que na cabeça dele, esse filme é protagonizado pela esperança. A cena que o outro sujeito assiste é diferente da que ele assiste. Ele enxerga a lei da sobrevivência aos berros, assustando uma tímida esperança. O outro vê a indelicadeza de uma nudez que em nada tem a ver com o desejo dele.

Música aumentando aos poucos, tomando conta da cena. Qual história ele contaria? Quais seriam os nomes desses personagens? Onde seria a rua deles? Qual seria a fome deles?

O semáforo sinaliza em verde. Ele atravessa a rua, refletindo sobre a cena assistida ao vivo e em dores.

Imagem: Bodegón mitificado © Angel Planells


carladias.com

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Um comentário:

Analu Faria disse...

Sensacional! Gostei muito de "música melancólica para cena descabida" e "ao vivo e em dores".