quarta-feira, 23 de maio de 2018

ATRAVESSE... >> Carla Dias >>


Noite passada, voltando para casa, esperando o semáforo mudar de cor e me permitir atravessar.

Avistei aquele homem no meio da avenida. Desligada que sou - porque enquanto caminho até em casa, minha mente toma conta de mim e relembro, reinvento, crio e desejo o que não me cabe desejar - e acostumada ao furor das buzinas, de quando as pessoas estão ansiosas para voltar aos seus lares, bares ou arredores, não percebi antes que havia confusão ali.

Sinal verde, atravessei a primeira pista. Na segunda, as pessoas se aproximavam do homem e ele as afastava com um gesto brusco. Na calçada, muitas pessoas observavam e comentavam sobre o que entendi ao alcançar o outro lado e o sinal abrir para os carros.

O homem estava na metade do seu trajeto. Caminhava na faixa de pedestres. Um problema físico o condicionava a dar passos muito miúdos. Mas muito miúdos mesmo. Ele atravancou a passagem dos carros, colocando-se ali, diante do furor de atrapalhar o ritmo, o horário, a pressa do outro.

As buzinas enlouquecidas, os gritos: saí daí!

Houve quem se atravesse a bancar a bola de boliche desviando dos pinos, passando pelo homem a quase relar em seu corpo meio torto. Definitivamente, limitado. Claramente, um desafio para ele.

O atendente da farmácia de esquina saiu de seu posto e foi até o homem. Quem sabe uma roupa branca e um tom ligado à saúde pudesse ser menos ofensivo. Mas não foi assim. O homem balançou os braços, nervoso, distanciando o gentil moço da farmácia, que estava realmente compadecido por ele.

Pensaram que ele estava louco.

Pensei: o corpo... O homem está desafiando as limitações de seu corpo. É busca por certo conforto que a realização de uma tarefa pode oferecer.

Plateia a postos, fui caminhando em direção a minha casa, mas muito inquieta com as buzinas e os gritos.

Saí daí! Vai morrer! Idiota!

Olhei para trás e me dei conta de que o homem dera dois, no máximo três passos miúdos, miúdos. Prestei mais atenção: cada gesto que ele fazia era truncado. Seu caminhar era uma coreografia dolorosa, de movimentos minimalistas, apesar do desejo escancarado dele de se livrar das correntes das suas limitações e se esticar todo.

Agoniei-me ainda mais. Não consegui me juntar aos espectadores, até o final da cena. Demorou para que o homem atravessasse a avenida, porque eu escutava as buzinas enlouquecidas e os gritos dos motoristas, enquanto comprava laranjas no supermercado. Ele ainda estava nessa travessia, quando paguei pela minha compra.

Caminhei até em casa, o coração pesado. Estava claro para mim que aquele homem saiu da casa dele com o objetivo de encarar suas limitações e mandá-las plantar batatas. Realizar um desejo, que também era mágoa, porque quem não quer ter o direito de atravessar a avenida no tempo que o sinal verde oferece? Por conta? É simples, é básico e vivemos a nos esquecer do valor do que é tão nosso, que nem imaginamos como seria não ter isso.

Aquele homem tinha ciência disso.

Sim, o homem atrapalhou o trânsito, e havia muitas pessoas atrasadas para continuar com suas vidas. Eles as atrapalhou. Ele e seus passos miúdos, mas miúdos mesmo. Só que tem dias em que atravessar uma avenida é tarefa árdua, requer mais do que a necessidade ou o desejo de fazê-lo.

O homem atravessou a avenida, sem a ajuda de um alguém que fosse. Eu já estava em casa, quando ele atravessou a linha de chegada. Escutei as buzinas e os gritos silenciarem, assim que entrei no apartamento.

A vida é mesmo frágil, e alguns de nós são fortes, de força que faz com que atravessemos avenidas, apesar dos gritos e xingamentos.

Onde já se viu? Catarse alheia a atrapalhar o trânsito.

E não consigo tirá-lo da minha cabeça: passos miúdos, corpo tremendo, cara feia para afastar compadecidos que tendem a atrapalhar com sua compaixão amansando o que tem direito a ser raiva, ainda que por algum tempo apenas.

A falta de palavras berrando: encontro vocês do outro lado da avenida!

Imagem: The Dinky Bird © Maxfield Parrish

carladias.com



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5 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei com vontade de fazer igual a ele.

Analu Faria disse...

É incrível como não respeitamos o tempo de cada um. Duvido que cada pessoa que dirigia os carros fosse tirar o pai ou a mãe da forca. Poderíamos todos fazer um exercício de pausa, de lentidão e talvez de silêncio quando isso acontecesse, mas estamos apressados demais para isso.
Bela crônica. :)

Anônimo disse...

"A vida é mesmo frágil" é pra refletir. Valeu, Carla Dias, leitura deliciosa para começar o dia

Enio

Carla Dias disse...

Anônimo... Espero que sua vontade se transforme em realização, e que essa realização lhe faça bem. Abraço.

Analu, concordo com você. Foi triste de ver, sabe? A pressa pra cuidar de si que vai longe demais e não respeita o outro. Beijo.

Enio, ela é frágil mesmo. Nós também. Beijo.

Francisco disse...

Uau! Lendo a sua crônica pensei nela como uma parábola da vida. Podemos ter atitudes assim em diversos sentidos, mesmo não sendo compreendidos temos que avançar e não nos deixar abater. Obrigado pela reflexão.