sexta-feira, 11 de maio de 2018

QUASE... >> Paulo Meireles Barguil

Temos uma vida repleta de quases.
 
Eles se referem a situações do passado ou do presente, as quais são, a depender da perspectiva do narrador, agradáveis ou desagradáveis.
 
As ocorrências de outrora, embora não possam ser objetivamente modificadas, são passíveis de mudança subjetiva no que se refere à interpretação.
 
Um quase choroso, portanto, pode se transformar num quase risonho.
 
A recíproca, como você sabe, é igualmente verdadeira.
 
Os acontecimentos da hora também são suscetíveis dessas alterações.
 
Um relacionamento que quase terminou ou que quase não se findava: "– Se eu (não) tivesse feito ou dito aquilo...".
 
Um livro que está quase pronto: "– Falta só um capítulo...".
 
Uma viagem – de avião, metrô, ônibus, táxi, trem... – que quase (não) aconteceu: "– Foi por um triz!".
 
Uma amizade que está quase se iniciando: "– Será que eu confio?".
 
Uma aprovação no concurso que quase ocorria: "– Se eu estivesse estudado aquele assunto!".
 
Um sonho de décadas que está quase se materializando: "– Junho está aí...".
 
Entre próximos e distantes, vivemos um roteiro que é continuamente reescrito pela vida, pois ela adora uma surpresa e faz de tudo – tudo mesmo! – para evitar que alguém revele o final.
 
Com ela, não tem spoiler, mesmo que alguém, tolamente, diga: "– Eu já sabia!".
 
 
[Pôr do sol no Pico Alto – Guaramiranga – Ceará]
 
[Foto de minha autoria. 23 de agosto de 2017]


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2 comentários:

Analu Faria disse...

Li mais de uma vez. Ainda não sei se o lirismo do seu texto é tão delicado que se torna forte ou se já nasceu robusto e se tornou maduro pra ser delicado. Belíssimo!

Paulo Barguil disse...

Sua dúvida sobre esse texto é a que tenho sobre mim. ;-)