Pular para o conteúdo principal

MAMÃE >>> Nádia Coldebella

Minha primeira lembrança é a de mamãe sentada em frente ao grande espelho. Ela o herdara da bisavó e ele chegara pesado, antigo, moldado em fina prata, convocado a refletir sem piedade ou julgamentos tudo o que via. Não havendo em nosso pequeno apartamento cômodo que o comportasse, fora destinado a permanecer na sala de jantar, para a alegria de mamãe e para o estranhamento de nossas visitas pouco costumeiras. 

Em dias chuvosos ela o evitava. O cobria com um grande lençol e eu, sentada em uma cadeira da mesa de jantar, ficava imaginando se, sob aquela grande mortalha branca, estariam escondidos os gênios, fadas, elfos e toda sorte de seres mágicos que ouvia na histórias contadas por papai. Quando o lençol era retirado, iam-se com ele as doces lembranças deixadas por meu pai e eu era tomada pela concreta certeza de que, à minha frente, encontrava-se um monumental colosso, destinado a exaltar as belezas de Narciso, minha mãe. 

Ela era linda. As vezes, quando eu era criança, levantava da minha cama durante a madrugada e, na ponta dos pés, ia até a porta do seu quarto e ficava ali por muito tempo. Depois de muitos anos, percebi que ela não ignorava meu gesto, pois havia sempre uma providencial réstia de luz, que se infiltrava pelas cortinas e pousava em seu rosto, deixando-a pronta para ser admirada. O que ela não sabia era que eu, nestas vezes em que ficava ali parada, implorava a Deus para que, no dia seguinte, recebesse dela apenas um abraço, quem sabe um toque em meus cabelos. Me contentaria mesmo com um simples olhar amoroso ou uma palavra suave. Mas quando as manhãs chegavam, as esperanças que eu havia acalentado em meus sonhos noturnos desvaneciam, deixando na minha boca o acre gosto de um sentimento que eu ainda não sabia nomear.



Nádia Coldebella
Arte: Nádia Coldebella

As manhãs eram ocupadas por horas infindáveis de exposição diante de si mesma, gastas em procurar seu melhor ângulo, seu melhor enquadre, a melhor cor para seus lábios, o melhor penteado para seus cabelos ou a melhor roupa para seu corpo. Havia dias em que ela esquecia do mundo e apenas se contemplava, estonteada que ficava com a própria perfeição. 

 A pouca atenção que me dispensava era penetrada por palavras doces e ferinas como navalha afiada - que eu, tão preocupada em agradar, ainda não percebia. Foi só mais tarde que comecei a sentir os cortes em minha alma, profundos, doendo a dor daqueles que se tornam gente sozinhos. 

O tempo, porém, chegou também para mamãe. O grande espelho, que outrora refletia sua beldade, agora era implacável em mostrar as rugas e os pés de galinhas. E ela, não tendo mais a companhia de Narciso, procurava a minha, logicamente deixando claro que não compreendia como eu poderia ter nascido dela, já que nunca tinha se visto em mim. 

Nesta altura de minha vida, as suas palavras não me alcançavam. É que certo dia, quando fui ao seu quarto, não implorei. Eu entendi que aquele rosto alvíssimo, quase etéreo, era também um rosto de cera que, com o passar dos anos, pouco significado teria para mim. 





O abandono afetivo pode ser caracterizado como a falta de resposta dos pais às necessidades emocionais da criança. Este tipo de negligencia ocasiona sérias consequências para a vida psicológica e emocional - consequências que podem persistir até a vida adulta. Em casos mais graves, podem levar a déficits cognitivos e a problemas de saúde física e mental (como a depressão, por exemplo). A busca de profissionais especializados, como o psicólogo, o autodesenvolvimento, a espiritualidade e o desenvolvimento da resiliência (especialmente, se considerado o perdão) podem auxiliar, e muito, na superação de eventos traumáticos na infância.

Comentários

Karina Lopes disse…
Como sempre texto emotivo, carregado de emoções, que nós leva a refletir...parabéns Nádia, pelo texto e pelas ilustrações lindíssimas.
Mari disse…
Como psicóloga, sei o quanto este tema é doloroso pra quem o sofre. Parabéns, Nadia, pela sensibilidade ao escrever sobre estes conteúdos.
Zoraya Cesar disse…
Que coragem, Nádia, em se expor assim. E comparar o autoembevecimento da mãe a Narciso, ao abandono, foi perfeito!
"deixando claro que não compreendia como eu poderia ter nascido dela, já que nunca tinha se visto em mim". essa frase foi especial!
Carla Dias disse…
Que texto Nádia. Há uma delicadeza melancólica, um desamparo que faz parte do abandono e o torna repleto de significados, diante da vaziez de uma figura que veio ao mundo para servir ao tempo. Lindo.