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LEVEI ÁGUAS DENTRO DE MIM >> Nádia Coldebella

Quando eu era criança me chamavam de Nina. Eu elaborei muitas teorias que solucionaram a questão “Estamos sozinhos?”, mas logo as esqueci, pois minha cabeça de criança não retinha tanta complexidade. Porém, me recordo de que a resposta sempre era “Não, não estamos”. Eu nasci em Águas, no ano de 1965. Até hoje é uma cidade muito pequena, sem grandes prédios ou poluição, com noites de céus tão estrelados que muitas vezes tentei pegar com a mão. Então, eu esperava a noite chegar e, quando todos dormiam, subia no telhado da minha casa e ficava deitada lá em cima, observando as estrelas, esperando a prova incontestável e cabal para minhas elucubrações.

Com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais difícil e mais ridículo enganar meus pais para subir no telhado esperar por alienígenas, até porque não era adequado que moças de família - especialmente da minha, que era tradicionalíssima - tivessem esse tipo de comportamento. Auxiliada pelos gritos e castigos de meus pais, eu tentava controlar meu temperamento curioso e aventureiro. Sem nada mais útil para fazer, enfiei a cara nos livros. Aos treze anos, havia lido todos os que encontrei na biblioteca da minha escola e da minha pacata cidade. Também descobri, na casa dos meus avós, um grande baú cheio de preciosidades deixadas pelos meus tios que há muito tinham partido para a cidade grande. Foram parar na estante da minha casa, legitimamente roubados, ao lado de uma coleção de capa azul que meu pai tinha comprado de um vendedor ambulante. Quando eles eram colocados lado a lado, formavam o desenho de um céu estrelado e me remetiam a certeza de que é insensato proclamarmos solidão em um universo tão vasto.

 Apesar disso, eu me sentia muito só em Águas. Os livros me educaram, me encheram de certezas e dúvidas e aquele mundo foi ficando pequeno demais para mim. Eu questionei as ideias provincianas e preconceituosas dos meus pais, avós, amigos, tios, vizinhos e logo vi que não pertencia a Águas, que estava ali por acidente. Como podiam estar tão errados e não perceber o quão estapafúrdio eram aquelas ideias? Me rebelei contra o tradicionalismo e a continuidade, desejei romper com tudo, dar vazão a alguém que em meu íntimo nem eu sabia quem era, mas minha imaturidade levou-me a me curvar: levei Àguas dentro de mim. Para alívio da família, Nina não subiu mais no telhado e Maria Helena de Jesus Loyola foi morar na cidade grande, na casa da tia bem casada que tivera bebê. Eu tentava me encaixar, dar um pouco de paz aos meus pais e ter uma vida adulta minimamente decente. 

O que veio depois não tem muita graça e é o que todos esperam de uma moça de família. Estudei, casei, tive filhos. Fui uma boa dona de casa. Vivi uma pacata vida de classe média, viajei algumas vezes para o exterior com minha família, frequentava salões de cabeleireiro e shoppings. Me vesti bem, comi bem, aprendi a sentar e a falar baixo. Bebi socialmente, nunca fumei e, nas quintas a tarde, me reunia no clube com outras esposas para comentar sobre as ciclanas e beltranas de vida fácil. Ignorei, por anos, o fato de meu esposo ter uma amante. O suportei e a tudo o que veio junto, pois Maria Helena tinha uma imagem a zelar, filhos para cuidar e uma vida confortável que não encontraria em outro lugar.

Em 1996 e 1997, perdi, sucessivamente, meu pai e minha mãe. Eu senti suas mortes, mas não tínhamos muitos vínculos. Poucos anos depois, meus dois filhos sairam de casa para viver suas próprias vidas. Em 2007, perderam o pai em um acidente de carro. Ele voltava da viagem com que presenteara a nova amante, 20 anos mais jovem. Em respeito a família não proclamei meu alívio e fingi muito bem o sofrimento estoico que esperavam de mim, enquanto o padre listava um sem número de qualidades do meu falecido cônjuge.

Então, de repente, tudo acabou. Agora não preciso mais fingir. Todos aqueles que conheceram Maria Helena de Jesus Loyola morreram ou estão longe. Os que estão próximos são pessoas detestáveis, que mantenho convenientemente por perto para tornar palpável meu mundo confortável e perfeito. Mas não preciso mais fingir e, nesta manhã, fui invadida por um um pesar tão profundo que semeou em minha mente ideias de morte e aniquilação. É que, quando me olhei no espelho, vi Maria Helena e me dei conta de que procuro Nina. Mas Nina não estava ali, eu nem sabia onde ela estava.


Nádia Coldebella
Arte: Nádia Coldebella
Águas havia andado uma vida inteira comigo e só agora eu percebo como ela é grande, assustadora, presente em cada pessoa que conheço. Águas hipócritas, mesquinhas e turbulentas, que distorcem tudo o que os livros ensinaram à Nina que era razoável. Nina nunca pertenceu à Águas. Nina nem se sentia deste mundo. Talvez ela tenho subido no telhado antes de partir para a cidade grande e tenha encontrado a prova incontestável de suas teorias de “não estamos sós”. Ou talvez Maria Helena esteja ficando louca. Ou talvez eu.



Envelhecer  é um processo muito sensível, ligado a reflexões sobre a primeira fase da vida e a contraposição com o que pode surgir na segunda fase: as rugas, as transformações físicas, as partidas e perdas. Os sentimentos emergentes são variados e quase sempre dolorosos: nostalgia do passado, frustração dos planos não concretizados, a percepção da rápida passagem do tempo, o luto e a consciência da finitude. Se prender a regras da sociedade, valorizar apenas a juventude e negar a passagem do tempo pode acrescentar muita tristeza e ansiedade ao processo. Ao assumir um projeto de evoluir e progredir, a pessoa será capaz de “sair” do passado e viver com plenitude, semeando novos projetos e recolhendo novas experiências. É como diz Gail Sheehy, no livro Passagens - Crises previsíveis da vida  adulta: “A principal tarefa da idade madura consiste em renunciar a todas as nossas proteções imaginárias e ficarmos de pé, nus no mundo, como o ensaio para assumirmos plena autoridade sobre nós próprios”.  

Comentários

Anônimo disse…
Mais um belo texto e tu desenhas bem hein menina!
Amei Nádia!
Ana.
Leo disse…
Parabéns Nadia.
Acho que logo sai um livro em!!!
Edu disse…
Que coisa mais linda! Parabéns Nádia!
Zoraya Cesar disse…
mais um texto ABSURDO de bom, Nadia. E atemorizante. Até quando vamos deixar nossa Nina à deriva, mofando no esquecimento? Até qdo for tarde demais. Nina não mais...
Sandra Modesto disse…
" Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve"
Chico Buarque, Nina ( CD- Na carreira)
Porque quando eu li o texto me lembrei da música. Casou lindamente com o texto. Adoro a música adorei o texto.
Cristiana Moura disse…
" Vi Maria Helena mas procura Nina" Deusdocéu, que lindeza! As belezas e durezas do Tempo! Amando te ler!!!
Albir disse…
Que beleza, Nadia! Encantado.