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A SENHORA DO LAR >> Carla Dias >>


Faz tudo com delicadeza. A mesa posta, as roupas bem lavadas e passadas, os brinquedos competentemente organizados, como se crianças não vivessem na casa.

Recebe com a cortesia de quem é graduada em etiqueta.

Eles a elogiam pelo requinte, por ser quem cuida de todos e de tudo, sem pestanejar, com dedicação.

Ainda mantém os cabelos alinhados, a figura impecável de quem comanda... o que mesmo? Vem-lhe esse branco, que se desapega da resposta que deveria oferecer à pergunta do convidado. Ela estava pronta, mas não saiu, e ela recebe olhares curiosos sobre esse deslize de não ter resposta para o óbvio.

Será mesmo óbvio?

Tilintares dos copos soam gritantes em sua cabeça.

Gargalhadas são como unhas rasgando a carne das paredes.

Então, tudo o que deseja é o silêncio.

Foge da sala de jantar feito espiã escolada em saídas estratégicas. Tranca-se na despensa. Abraça uma caixa de sabão em pó, enquanto tenta se lembrar do motivo de ter se tornado quem se tornou.

Imagem: cena do filme "Brazil", de Terry Gilliam.

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