sábado, 14 de novembro de 2015

SAUDADE DA FLORESTA,
ENCANTADOR ESCONDERIJO
>> Cristiana Moura



Ensaiava, ainda antes de abrir os olhos, um espreguiçar lento e desacelerado no amanhecer daquele domingo que seria diferente de todos os outros. Ao esticar o corpo para lá e para cá com gestos mansos e felinos, Gabriela camuflava a ansiedade pelo passeio por vir. Tomou seu café da manhã na padaria para que o dia lhe começasse com raios de cotidiano e segurança. Depositou sua ansiedade em um largo pedaço de bolo como se pudesse transformá-la açúcar adentro. Mas o que estava por vir lhe fugia ao que poderia imaginar tão apaixonada que se tornara pelo cotidiano que aprendera a tecer.

E o domingo diverso veio. E viveu. E o tempo passou em câmera lenta, enquanto passeava por entre os encantamentos da vida que, sem que ela pudesse ter domínio, naquele domingo, fugia ao que conhecia em seu dia a dia.

Foi aquele rapaz, amigo de uma amiga, que a levou secretamente ao seu esconderijo. A floresta era mágica. Enquanto caminhava, as raízes das plantas se misturavam aos seus pés e às suas próprias raízes. O som das folhas, nascido do seu encontro com o vento, se entranhava à melodia das flautas mágicas. Nem todos podiam ouvir as tais flautas. Ele podia. Contou a ela que a floresta sempre o leva para onde ele quer estar.

Enquanto ele, ao compartir com a moça dos seus segredos — seu esconderijo e seus sons —, parecia a cada respiração estar sempre esperando o momento por vir, ela queria mesmo era que o tempo parasse. O nome do rapaz prometi não revelar. Mas o significado do mesmo, não fazendo parte da promessa, vou contar a vocês: Encantador. Sim, seu nome significa Encantador.

Gabriela, que já se encantara com bolhas de sabão, com pores do Sol à beira mar, agora se encantava com o passeio pela floresta e por aquele que a guiava. Seu guia também parecia encantado pela moça. Já não tão moça, mas isso ele não sabia. Passear ao lado dele a fez sentir pingos de saudade da juventude.

Ela viveu o domingo assim, encantada. A Floresta e seus sons, o seu guia, tudo lhe acordava os sentidos. Ah, Gabriela, agora, é só saudade. Quer pisar de novo as raízes da floresta, mas não aprendeu o caminho, não pode ir só. Quando lhe perguntei sobre o moço, ela respirou fundo e me disse que não tem certeza se realmente o conheceu ou se o inventou. Parece que vão almoçar juntos qualquer dia desses. Ela me confidenciou que teme o desencantar possível de quando os olhos vêem simplesmente o que é. Ao mesmo tempo sonha em desencantá-lo para então ser vista de verdade.


Para conhecer mais sobre Gabriela:

http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/um-sorriso-numa-bolha-de-sabao.html

http://www.cronicadodia.com.br/2014/12/uma-alegria-uma-tristeza-e-maresia.html

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Gabriela e suas leves histórias... :)