Pular para o conteúdo principal

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS – PARTE II >> Zoraya Cesar


Foi difícil encontrar a loja. Maybelline Oceahn não conhecia Paris o suficiente para andar rápida e confiantemente. E a Le Gnome Grognon* ficava nos fundos de um beco, discreta e escondida – fato deveras incomum em se tratando de Fadas, sempre tão esfuziantes, brilhantes, ‘tilintantes’... 

‘Fome’, roncou seu estômago. Só maçã não vai me sustentar, decidiu. Comprou dois croissants e uma pequena garrafa de vinho, estava na França, oras, às favas com o regime. Comeu e bebeu vorazmente. Agora sim, hidratada e alimentada, estava pronta para encontrar a Fada Branca – que nada tinha de ‘boazinha’. Ao contrário. Talvez por viver há tantos anos entre franceses, Sleigh Beggey assimilara algumas características deste povo. A impaciência com estrangeiros sendo uma delas.

O portão verde, de madeira, dava acesso a um pequeno caminho de tijolos, ladeado por arbustos e flores. Ao final, uma porta de cor lilás, guardada por um gnomo de pedra, cuja feição emburrada dava nome ao lugar. Maybelline pediu-lhe licença, consciente de que, no mundo, mesmo os objetos têm
vida. Entrou.

Como sói acontecer no que concerne a Fadas, o ambiente era delicado e de bom gosto. A loja recendia a jasmim; nas prateleiras, os produtos que fazem a festa de leigos e curiosos: bolas de cristal, incensos, baralhos... Os produtos e encantamentos verdadeiros, porém, eram armazenados nos fundos da loja, somente para iniciados, não para turistas. 

Ela aguardou, sabendo que estava sendo observada, e que a notória má-vontade francesa de Sleigh Beggey era especialmente contundente no que se referia a Feiticeiras.

Imagine uma Fada. Diáfana, esvoaçante, sutil. Agora esqueça isso. A Fada Branca era gorda, corpulenta, exuberante. Os cabelos brancos, curtos e cacheados, eram divididos por uma grande mecha roxa. Enormes anéis enfeitavam seus dedos rechonchudos. E dizem que bruxas é que são esquisitas, pensou Maybelline, afastando o pensamento maldoso de que já vira Fadas mais magras. Curvou a cabeça e disse:

- Saúdo as Fadas que protegem a vida nos campos. Agradeço à Sleigh Beggey por permitir que eu entre em seu território – e estendeu-lhe o cacho de uvas. 

- Até que enfim, uma Feiticeira com bons modos. – A voz, musical e suave, contrastava com sua opulência física.

Maybelline sentiu enorme alívio. Fadas podem se expressar em qualquer idioma; se desgostam de alguém, no entanto, fingem-se de tontas. O fato de Sleigh falar português era bom sinal. 

 - Me diga, por que você? Nem parece muito esperta e ainda não atingiu o último nível. Ouvi dizer que já andou em más companhias. 

A Feiticeira não se importou com a rudeza, e engoliu a ofensa contra sua inteligência. Esperara pior recepção. 

- Como sabe, Eoland vem ajudando pequenos agricultores franceses a não dependerem dos agrotóxicos da Notsaint. Alguém nessa firma, que mexe com Magia Negra, vai sugar toda a essência de Eoland na noite desse All Hallows Eve. E, há muito tempo, plantei violetas aqui na região, por isso ela confia em mim. 

Maybelline teve vontade de acrescentar que fora chamada porque Fadas não têm forças contra Magia Negra, mas conteve-se. O orgulho é um mau companheiro. 

- E precisava vir de tão longe? – realmente, Sleigh Beggey ia direto ao ponto.

-Sim. As Feiticeiras daqui estão vigiadas. Se Eoland tentar entregar sua essência a qualquer uma delas, será morta antes de chegar perto. Os matadores levarão mais tempo para perceber minha presença.

A Fada Branca deu-lhe as costas e foi para os fundos da loja. Voltou, pouco tempo depois, com uma sacola de pano cru.

- Uma violeta plantada pelas Fadas do Norte, amarela, a cor preferida de Eoland, e o encantamento para chamá-la. Artemísia, colhida na minha horta. Um galho de carvalho do Cemitério de **. Doze pequenas lanternas com pilhas de longa duração. Mais alguma coisa?

Nada, agradeceu. Despediu-se e foi embora. Não havia necessidade de mais palavras. Sleigh Beggey fizera sua parte, cabia a Maybelline Oceahn continuar a partir dali. 

Acordou no dia seguinte, 31 de outubro, nervosa e amedrontada. Se falhasse, não só Eoland – a quem deveria proteger – morreria, como ela, Maybelline, poderia ficar com seqüelas permanentes. Uma de suas colegas enlouquecera combatendo um ataque de santería forte demais para ela. 

Feiticeiras não voam em vassouras nem misturam, em caldeirões ferventes, asas de morcego e rabos de lagartixas. Não existe hocus-pocus, mas muito estudo e prática, além de uma boa dose de coragem, para lidar com energias, tantas vezes, aterrorizantes. 

Passou o dia consultando manuais, misturando seus pós, arrumando seus apetrechos e revendo sua estratégia. Preparou o chá de artemísia com Florais, para melhor se conectar com o Sagrado Feminino. Energizou seus cristais com Reiki. E orou muito, pois a primeira coisa que vacila durante uma obsessão é a Fé. O medo não desapareceu, mas ficou sob controle. 

Às seis da tarde rezou o Angelus e entrou em meditação. Quando despertou, horas depois, estava pronta. A Batalha Ritual iria, efetivamente, começar. 

* O Gnomo Resmungão

A 3a e última parte continua em 20 de novembro. Prometo.

Comentários

Erica disse…
Ah, Zoraya... Fala sério... Terceira parte... Voce é uma bruxa! Kkk
Anônimo disse…
Além de bruxa, deve ter morado em Paris em encarnações passadas, hehehe...
Ana Luzia disse…
Três Partes?!?!?! NÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Zô, eu sei que seu talento desenvolveria esta história em um livro, ou talvez um roteiro de cinema, mas não aguento esperar mais duas semanas!!!!

estou enfeitiçada...

beijos!
Anônimo disse…
Argh! a história vem em pílulas... temos que esperar, ou tomar cicuta!
Aretuza disse…
Vou fazer mandinga pra essa terceira parte sair logo!!!
Alexandre Durão disse…
Legal, Zoraya. Aumentando nossos conhecimentos sobre o que ocorre nos becos escondidos, por detrás das portas verdes, ao fim de corredores obscuros. Aguardamos o desfecho. Por favor, nos surpreenda. Beijos.
Carol disse…
Continuo gostando dessa história em que uma bruxa é um ser normal, como todo mundo. Nada de fantasias absurdas. Aguardo curiosa o final, mas ja´valeu, tá muito bom.
Zoraya disse…
Valeu, Pessoal. Desculpem a 'pegadinha', mas dia 20 é a última parte, prometo. Beijos fantasmagóricos a todos.
albir silva disse…
Fico por aqui, enfeitiçado, esperando. Você também não dá alternativas.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …