quarta-feira, 3 de agosto de 2016

AQUELA SENHORA, JOÃO, QUEIJO BRANCO E MORTE
>> Carla Dias >>

Hoje ele vai morrer. Não adianta você se chocar, dizer que não, tampouco insistir que suicídio é pecado, porque ele vai morrer, só que jamais tiraria a própria vida. Ama a vida. Tem planos que deseja concretizar. Tem sonhos que deseja sonhar por um bom tempo, antes de realizá-los, porque a jornada importa.

Porém, hoje ele vai morrer.

Passando pela rua tal, esquina com a rua outra, aquela senhora simpática, de cabelos cinzas e olhos grandes chama sua atenção. Ela remexe em sua bolsa, em cidade de violência escancarada. Ele abraça a gentileza que lhe é peculiar e avisa: cuidado, minha senhora, sua bolsa está em perigo. A senhora o açoita com um olhar desconfiado, mas não da boa vontade do homem. Desconfia que ele seja um mandado de seu filho, homem metido a dizer a ela como levar a vida, e que ela está muito velha para andar por aí, desacompanhada.

Durante uns bons minutos, e depois de explicar que ele nem mesmo conhecia o filho dela, a senhora discursou sobre como anda essa juventude. Onde já se viu tanto desapego? Não querem saber de cuidar de suas crianças ou de seus velhos, apenas viverem uma eterna busca pelo sucesso e pelo prazer. Como se também não cansássemos disso, né, meu filho?

Como hoje irá morrer, dedica-se a utilizar a força que lhe resta para apertar o número 1 de sua agenda de contatos. O telefone toca, toca, toca. Quando ela atende, ele sente alívio, apesar de a morte lhe fazer a corte.

Antes mesmo que ele diga algo, ela pergunta se ele pegou a roupa na lavanderia, comprou o queijo branco? Conta que sua melhor amiga, Anamarri, teve de sair correndo do trabalho para socorrer o irmão, que passou mal na escola. E que o Sr. Osório, do apartamento de cima, tem um total de sete netos, que ela contou. Uma criançada, amor... Uma criançada que ela adora observar, no desejo de que, dia desses, algumas crianças morem na casa deles. Já estão na lista de espera para adotar. E você?

A senhora se revela uma ótima contadora de histórias, e ele se sente bem escutando ela revelar acontecimentos trágicos de família, mas com um humor ácido que não imaginava que uma senhora de aparência tão requintada pudesse ter.

Aparência é uma porcaria, ao menos do jeito que a coisa anda nos dias de hoje. Ela faz com que percamos oportunidades de conhecer pessoas interessantes. Ele concorda, envergonhado por ele mesmo tê-la classificado pela aparência. Mas ela explica que não é preciso ser tão duro consigo mesmo, que a vida não corre em linha reta. E que ele ter dado a ela a oportunidade de se mostrar como é, não como ele pensou que ela fosse, é uma forma bonita de se driblar essa mania de tentarmos decifrar o outro sem ao menos se dar ao trabalho de conhecê-lo.

Foi uma boa conversa, com uma mulher interessante. Enquanto ela falava, lembrou-se de sua esposa, tão impetuosa e independente quanto essa senhora.

Ele a acompanha até em casa, alguns quarteirões dali. A senhora agradece a gentileza, e obrigada por não ter se aproveitado da minha frágil bolsa. Sorri e entra, ele toma o caminho de casa. Tem de passar na lavanderia e comprar queijo. Também pensa em adquirir uma boa garrafa de vinho. Hoje eles saberão se estão aptos a adotar o João, menino que conheceram há alguns meses e têm visitado. Apaixonaram-se pelo moleque e o querem em suas vidas. Tem certeza de que é recíproco.

Não tem razão para não desejar a vida. Há tanto a ser feito, recebido e doado, mudado, descoberto. Há tanta vida para ele viver. Ainda assim, hoje ele vai morrer. Não foi vidente que lhe disse, frio na espinha que o avisou.

Tá aí, marido? Alô!

Estava de volta àquela rua tal, esquina com rua outra, esperando semáforo lhe dar permissão para seguir. Ao seu lado, tantas pessoas. Sorri ao se lembrar daquela senhora. Talvez por isso tenha demorado um pouco para entender o que ela, a jovem ao seu lado, disse. Como? Ela repete e ele não se sente bem, os pensamentos sobre a senhora se confundindo com a visão daquela desconhecida de olhar gélido, que se aproxima dele, coloca o braço ao redor do seu pescoço e cochicha: hora errada. Lugar errado.

Não imaginou que morreria assim. Que cairia na rua tal, esquina com rua outra, onde, meia hora antes, conhecera alguém que valia a pena se conhecer, ainda que fosse por tão pouco tempo. A moça foi embora tão misteriosamente quanto apareceu. As pessoas ao redor dele se desesperaram. Já havia quem diagnosticasse: Jesus, Maria e José! É morto!

Enquanto fecha os olhos pela última vez, pensa em Anamarri e deseja que seu irmão esteja bem, que não passe de um mal-estar. Também se lembra que não deixou a lavanderia paga, e que o queijo branco seria para o primeiro café da manhã de seu filho, já em casa, porque não quis dividir com a esposa, mas sentiu que sim, o menino se tornaria filho deles.

Há algo sobre a morte que ele finalmente compreende como protagonista do momento: ela chega quando bem entende, não quer saber se você está feliz ou triste, se conheceu alguém que vale a pena ou se desapontou, nem mesmo se João perderá o pai antes de tê-lo. Ela age como aquela que passa e surrupia a bolsa de senhoras paradas em esquinas. Como aquela, que não se sabe quem, nem mesmo o motivo, mas passa por você e lhe rouba a oportunidade que é a vida.

Hoje, ele morreu.

carladias.com

Partilhar

3 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, Carla! Que suspense!
Conseguiu me prender com a respiração alterada.

Zoraya disse...

Chega, Carla. Agora é definitivo: vou comprar um dicionário de adjetivos e sinônimos para sensacional, maravilhoso etc, pq meu vocabulário não dá conta de classificar suas crônicas.

Carla Dias disse...

Opa! Desculpe pela respiração alterada, mas que bom! Beijo, Eduardo.

Zoraya, carece não... Já fico bem feliz por você ter lido meu texto. Beijo.