IGNORÂNCIA >> Carla Dias >>


Como é eficaz a ignorância. Ela consegue manter um indivíduo no mesmo lugar, durante toda sua vida. Engessa a sua capacidade de fazer planos, define a hierarquia existencial desse alguém. Ignorância é produto caro aos doutores em manipulação. Não são somente as atrizes e os atores que oferecem ilusão. Na verdade, a ilusão é a roupa de domingo da ignorância. E ela, a ignorância, é bicho de estimação de muitos.

Há quem se atraque à ignorância para encarar certa preguiça em lidar com o que há em comum entre os indivíduos. Acho muito curioso aquele que escolhe ignorar deveres básicos, adotando o comportamento que o coloca como centro do universo. Ignorância atrelada à prepotência é prato ainda mais apreciável aos que sabem tirar proveito de quem se nega a aprender com a vida, ou que, às vezes, não sabe nem por onde começar este processo.

Acontece que ignorância é coisa maluca mesmo, um tipo de corrente que limita a liberdade, mas de um jeito que faz a pessoa acreditar ser acionista majoritária da verdade, enquanto vive uma mentira. É poderosa ao tomar a vida do sujeito fragilizar seu espírito, a ponto de fazê-lo acreditar que truculência é o jeito que existe para conseguir aquilo que acredita que é seu por direito. Ainda que, no processo, ele envergue, às vezes até elimine o direito do outro.

Não há problema em ser ignorante nisso ou naquilo, afinal, não nascemos com o talento – ou o desejo – de nos inteirarmos de todos os assuntos do mundo. A ignorância à qual me refiro não é a natural a todos nós, a que nos tira de um cenário para que outros brilhem. Que nos coloca em outros cenários para que possamos brilhar. Não é a ignorância que até nos permite a curiosidade e a escolha pelo aprofundamento, nos dias em que a curiosidade se encanta com assuntos inéditos à nossa percepção.

A ignorância sobre a qual falo é aquela que permite a alguns a alcançar prestígio e poder ao restringir o direito de muitos outros ao básico. Nesse balaio de restrições, a educação ganha em disparada. Tirar o direito ao aprendizado de um indivíduo, tornando a educação frágil e pobre, é alimentar a ignorância, a fim de incapacitar um povo a pensar e compreender o que é justo, e o que são os manipuladores a encherem seus bolsos e brincarem com a vida de tantos.

Educação é importante. Esporte é importe. Saúde é importante. Cultura é importante. Ignorar a importância disso tudo, atestando que primordial é a economia, é ignorar que uma economia saudável é aquela que tem como base a educação, o esporte, a saúde, a cultura. Comida na mesa? Pois é... Uma economia saudável ajudaria muito neste quesito. Mas enquanto a ignorância justificar as ações que limitam vertiginosamente esses benefícios, como se eles fossem supérfluos, continuaremos a permitir que nosso país seja guiado por adestradores de ignorantes. E eles não apenas saem ganhando com isso, mas tenho certeza de que também se divertem com a inocência adquirida do ignorante.

A ignorância alimenta espíritos blasé. Ela tem sido usada em benefício próprio de muitos, às vezes em nome de algumas loucuras que descambam em injustiça social, sexismo, censura, intolerância, preconceito, genocídio, guerra. A ignorância, nesse grau ceifador de capacidade de compreender o justo para si e para o outro, de se comprometer a se aprofundar no conhecimento sobre o que desconhece e causa desconforto, apenas cria desvios. A ignorância que foi construída para aliciar nossa humanidade, essa é preciso ser combatida com muita disposição. E uma das formas mais eficazes de fazê-lo é pararmos de dizer, apenas porque sim, que sabemos de tudo, que isso está certo e aquilo está errado, sem ao menos pensar a respeito.

Enquanto seguimos a ignorar a nossa condição de escravos da ignorância, apenas perdemos. Ganhamos nada, não.


Imagem: Papilla estelar © Remedios Varo

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Que texto elegante, Carla!Nada de panfletarismos, nada de exortações, nada de bufos de raiva nada, elegância pura e direta. Como sempre
Carla Dias disse…
Acredito que um pouco elegância no trato com a vida, e com o outro, nunca é demais. Beijos, Zoraya!

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