domingo, 5 de setembro de 2010

SPAM EMOCIONAL >> Eduardo Loureiro Jr.

Há falas e gestos que você jura que são dirigidos para você, que têm seu endereço certinho, mas que não são realmente para você. É o spam emocional.

O termo spam ainda não está no Aurélio nem no Houaiss. Refere-se àquelas mensagens de pessoas ou empresas desconhecidas que recebemos diariamente, aos montes, em nossa caixa de e-mails. São, de maneira geral, ofertas de produtos, iscas de fraudes e ataques disfarçados de vírus. Algumas mensagens são obviamente spam, facilmente detectáveis pelo sistema de triagem do próprio provedor de e-mail e que deletamos sem mesmo abrir a mensagem para ler. Outras são mais sutis, tentadoras, fazem a gente pensar que são dirigidas diretamente para nós, e não para centenas de milhares de destinatários.

Lembro de um amigo que, durante uma fase de carência afetiva, me ligou muito animado porque havia recebido mensagem de uma antiga paixão — Patrícia — com fotos.

— Você abriu? — perguntei ansioso.
— Ainda não. Fiquei tão nervoso que não consegui — respondeu meu amigo.

Mentira. Ele não abriu porque é um romântico platônico, que prefere imaginar a ver. E, se o romantismo platônico é um perigo em quase todos os casos, quando se trata de spam pode ser a salvação, afinal quem não teve uma antiga paixão chamada Patrícia e adoraria matar saudades vendo umas fotos de tempos atrás? Expliquei para o meu amigo do que se tratava — não sem alguma pena por desfazer sua ilusão amorosa — e ele me agradeceu, triste e contrariado, ainda mais carente.

Se fosse só uma questão de e-mails, a coisa não estaria tão mal. Mas o spam está espalhado no nosso dia-a-dia, já existe há muito e muito tempo, bem antes do computador e da internet. O spam emocional é da época do "Era uma vez...", embora não aconteça "em um reino distante" mas bem pertinho da gente.

Sabe quando uma pessoa insiste para que você compre algo que ela já comprou e adorou? "Você tem que aproveitar essa promoção. É incrível. E acaba amanhã, viu?" Spam emocional! "Como assim?", perguntará a leitora. "É só uma amiga me dando uma indicação. Ela me conhece. Pensou em mim quando soube da promoção." Pensou em você e em metade da torcida do Flamengo. Ela está espalhando essa tal promoção como um vírus. Ela disse que, "se fosse você", iria lá na loja imediatamente? "Disse", responde, desconfiada, a leitora. Pois, sempre que ouvir de alguém "Se eu fosse você...", pode transferir a mensagem para a caixa de spam. Sai desse corpo, mensagem, que ele não te pertence.

Também óbvio para um observador razoavelmente atento é o spam emocional entre estranhos no meio da rua. O que tem gente com mensagem de raiva, reclamação, difamação, impaciência, indignação e vitimização nas filas, nos bares, nas festas e nas paradas de ônibus é uma grandeza. Tudo spam emocional. Nada daquilo, nenhum grama daquela carga é seu, caro leitor. Você está recebendo — não em sua caixa de e-mails, mas em sua caixa toráxica, no seu peito, no seu coração — mensagens não solicitadas de conteúdo impróprio ou duvidoso, fraudes, vírus. Não pense duas vezes. Não abra. Delete.

E não é só estranho que lhe manda spam. Amigos e familiares desavisados podem lhe repassar os spams mais incríveis. Reclamação é spam. Cobrança é spam. Conselhos que você tem que seguir são spams. Fofoca, então, nem se discute: é spam! Não receba nem passe adiante.

E fique atento, caro leitor, porque nem todo spam é coisa ruim. Existem spams de beleza. Feito a moça branca, de cabelos dourados, pernas esculturais, vestidinho floral semitransparente, pés delicados em artesanal sandália. Moça que passa ao seu lado, olha em seu olho e lhe sorri, irresistível em sua beleza tímida, fazendo com que você pense que é o eleito, o escolhido, o privilegiado, o príncipe escolhido para serem felizes para sempre. Ah, meu amigo, é spam. Falo com tristeza, mas é spam. A moça é branca, dourada, escultural, semitransparente, delicada, sorridente, bela e tímida para centenas de milhares. Você não é o único destinatário de sua mensagem tentadora. Você é mais um na cadeia do spam. Não se deixe prender. Resista à tentação de dar uma espiadinha, tire a mão do mouse para evitar clicar no link azulado.

Sei que meu alerta não adianta, que o leitor e a leitora vão mesmo é usar o que digo contra mim, afirmando que eu é que estou fazendo spam, que é direito de todos se indignar (com a política, com os impostos), que comentar os acontecimentos do dia não é fofoca e que é preciso acreditar em contos de fadas e amores à primeira vista. Tudo bem, leitor e leitora, não me importo. Já que não podem, vocês mesmos, deletar esta crônica, mudem de site. Fico feliz de que tenham começado a retirar o spam de sua vida, mesmo que à minha custa.

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5 comentários:

albir disse...

Não mudei de site, Edu, e ainda consegui idendificar mais meia dúzia de spams a partir de suas dicas.

fernanda disse...

Acabo de concluir que eu não apenas abro spams emocionais, como os repasso. E já que eu repasso spam dos ruins, vou repassar sua crônica também, que é pra compensar :P

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Meia dúzia, Albir?! Você é um spam killer. :)

Fernanda, seu mérito é transformar spams recebidos e repassados em textos preciosos. :)

kris disse...

Beleza de "spammer" que tu és! :D

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kris, tá explicado o sucesso do spam: o povo gosta dos spammers. :) Brigadim pelo carinho.