sexta-feira, 10 de setembro de 2010

PEQUENAS EPIFANIAS DE UM FINAL DE INVERNO RIGOROSO DESGOSTOSO DE ROBERTO CARLOS >> Leonardo Marona

Por te falar eu te assustarei e te perderei.
Mas se eu não falar eu me perderei,
e por me perder eu te perderia.

(A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector)


“no ponto de ônibus”

verdade

- você diz sempre a verdade?
- de qualquer modo eu diria que sim.

gripe

- sempre que eu me gripo meu nariz fica um saco.
- engraçado, sempre que eu me gripo meu nariz continua um nariz.

frases

- há frases ridículas quando ditas aos vinte e poucos anos...
- esta, por exemplo?


"sonho revelador"

um cientista maluco Prêmio Nobel
havia descoberto que de fato a pele humana
era alguns milímetros cúbicos menor
que o volume corpóreo que ela cobria,
e assim ele chegou à conclusão de que as pessoas
só eram totalmente verdadeiras nuas,
de modo que a maioria vestiu mais um casaco.

“e você, que tipo faz?”

todos fazemos tipos.
eu faço o tipo desatento
ou tipo woody allen.
adoro o tipo woody allen.

sei que as mulheres gostam.
depois que descobri isso
me concentrei no tipo woody allen.
às vezes faço tipo hemingway.
o problema do tipo hemingway:
não é muito bom com as mulheres.
mas é ótimo com animais selvagens.
de todo modo, algumas mulheres...

“o intelectual”

Aqui no parque existe um chafariz desativado onde os filhos das prostitutas vêm apanhar sol e gripe fugindo dos preservativos usados e objetos infectados cortantes aparentemente com sucesso pelo meu ângulo de visão ausente de vista.

Dia desses estava eu sentado às margens do tal chafariz mais uma vez o truque dos óculos de sol forjando uma presença solene comumente confundida com artrite.

Estava com este mesmo caderno de anotações no qual escrevo agora tentando em vão endireitar pensamentos preconcebidos quando duas dessas pequenas criaturas mais felizes do que eu pobre animal envelhecido passam um já com bastante verme na barriga e cueca vermelha de náilon o outro com aparência abatida e um pedaço de pau na mão.

Este último tão tristemente e com olhar beatífico então olhou para mim e disse:

“ô barbudo pára de estudar um pouco ô!”

“perdi meu caderno de anotações”

envelhecer é ainda
o único paradigma,
o que prova
que evoluímos pouco
e a coragem é uma lenda.


"o erro do significado"

o significado
de uma palavra
dura o tempo
que você souber
persistir no erro.

o significado
de um amor
dura o tempo
de uma dúvida
bem concebida.

o significado
de uma amizade
dura o tempo
que dois puderem
dizer não juntos.

o significado
de um deus
dura o tempo
que um homem
precisar de outro.

o significado
de um poeta
está nas palavras
que não existem
no seu poema.

o significado
de um poema
está na falta
do que não há
nas palavras.

o significado
de um erro
dura o tempo
da frase certa.

o erro somos nós.


“poesia e queda”

o tempo
é a areia
do homem.
dessa areia
uns poucos
– loucos? –
fazem castelos
onde se perdem
pelos corredores.
a poesia é sempre
a diluição do tempo.
a poesia será sempre
a queda de um castelo.

“liev tolstói”

que fetiche
ter nascido
no mesmo dia
em que morreu
Ivan Ilitch.

“celsius”

não existe febre,
é pura consciência
gelatinosa de cismas.
eu bem que gostaria,
mas não sei carregar
duas almas suicidas,
muito mal carrego
minhas próprias muletas.
a vida é um gatilho
que implora ajoelhado
por olhos sujos de pólvora
e um último suspiro
das ampulhetas.


“frase de um jogador de sinuca na Lapa”

a genialidade não anula a medula.


“amigos com sede no bar"

- É como comparar Picasso com Van Gogh...
- Mas eles não viveram na mesma época.
- Tá bom, Picasso e Dali...
- Não, o Picasso é muito melhor.
- Você diz isso sem dúvida alguma?
- Não, mas eu digo isso quase com certeza...


"hai kai"

tudo que é bom
dura pouco.
tudo que é pouco
durepox.

“ladainha”

uma pessoa imbecil
que se comporta como uma pessoa imbecil
não passa de uma pessoa imbecil.

agora...

uma pessoa atenta
que se comporta como uma pessoa imbecil e atenta
para se infiltrar no mundo das pessoas imbecis
pode ser o que bem quiser.

“Fusca Bar”

- O Tchekhov é o escritor que eu li que tem maior intimidade com a natureza.
- Que tipo de intimidade?
- Sexual.

“falação & felação”

Acontece que aquela famosa máxima do Rei Roberto Carlos – “eu tenho tanto pra lhe falar / mas com palavras não sei dizer” – não passa, infelizmente, na maioria dos casos, de uma grande cascata. Uma forma cínica de camuflar a falta de emoção com lirismo barato. Sei muito bem que alguns amigos e muitas donas de casa me julgariam mal por isso, mas não é possível ceder, depois de pensar com um pouco mais de atenção; seria vergonhoso, apesar de fácil.

Mas o que ocorre de fato é que, quase sempre, há muito pouco para se falar e menos palavras ainda para se dizer. Mas existe a vontade, esse dragão sem garganta, essa louca vontade de mergulhar na superfície, de encontrar um espelho indiferente, uma cápsula para a beleza com a qual até os livos já se aborreceram, e que portanto tornou-se anacrônica e teatral.

Talvez seja por isso que Roberto Carlos atinja em cheio os corações enregelados das melancólicas donas de casa, bonitas na sua tristeza roxa debaixo dos olhos, prateadas de perdão, debruçadas em sonhos fadados e pilhas de roupas sujas, que elas lavam desde o começo dos tempos, enquanto o outro lado sente que não vale mais a pena deixar de se enganar.


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