segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

ENTÃO É NATAL >> Albir José da Silva


Ninguém precisa me dizer da falta de originalidade deste título. Mas nesta época não quero novidades e essa versão gravada pela Simone é bem exemplo disso. Todos os anos eu a ouço dezenas de vezes e todos os anos espero por ela tão logo dezembro se anuncia.

Quero as repetições de praxe: a música de sempre, os parentes e os amigos de sempre — mesmo que alguns in memoriam — a árvore empoeirada e a comida de sempre, os abraços e as palavras de sempre. Quero as carências de sempre.

Quero as carências que unem, que jogam todos os humanos no mesmo barco. Embora muito se fale em religião e os motivos da festa sejam religiosos, não é a religião que une. A religião divide porque os homens se dividem em religiões. A magia está em que todos se esquecem das fronteiras de sua religião. Os sorrisos e cumprimentos destes dias dispensam saber a quem se dirigem. Uma couraça se rompe e ensaiamos reconhecer uns nos outros a fragilidade humana. O fechamento de um ciclo e a abertura de outro nos obriga a refletir sobre o que estamos fazendo aqui.

Refletimos sobre como foi o nosso ano, mas também como foi o ano dos amigos, dos cariocas, dos paulistas, dos mineiros, dos brasileiros, dos terráqueos, enfim. Refletimos sobre como será dois mil e dez, não só para nós, mas sabendo que o nosso futuro e o dos outros estão entrelaçados. Sabemos nesta época que o que acontecer com o vizinho vai nos afetar. Depois esquecemos e só cuidamos do próprio umbigo. Esquecemos que uma contaminação, por exemplo, não vai se contentar com um único umbigo.

Quero continuar pensando tudo isso em dezembro. Mas, em janeiro, que eu não me esqueça das promessas, das dietas e das ninharias de Copenhague.

Ninharias, mas são o que temos. A camada de ozônio não está grande coisa, mas é a que temos. Os animais estão alguns extintos, outros ameaçados, mas são os que temos.

Os humanos, como sempre, muitos miseráveis, poucos locupletados. Mas são o que temos. Ou são o que somos.

Mas voltemos a Lennon e Simone. E à festa cristã, pro rico, pro pobre, o ano termina, harehama, e nasce outra vez, hiroshima, meu amor, o que você fez, nagasaki, mururoa, copenhague, hare!



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2 comentários:

Carla Dias disse...

Ah, Albir... Crônica da necessidade de se reconhecer humano. Com todas as arestas.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir: gostei da elegância e do humor da sua escrita — de sempre. :)