quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SEM AO CERTO OU ACERTO >> Carla Dias >>

Alardearam meus sentidos: as ideias crivadas em minha cabeça-de-vento; os ideais incendiando platéia de sonhos. As mãos no bolso procurando por moedas que paguem as dívidas das culpas.

Vivendo eu esbarrei com a Logosofia.

Dizem que Logosofia é uma ciência nova, mas qual idade tem a busca pelo conhecimento sobre Deus, sobre o universo e sobre nós mesmos? Veja que não afronto a Logosofia... Estou de namoro com ela, porque não há como não desejar algo que tem, entre suas definições, “a ciência do afeto”.

Vou inaugurar uma ciência e chamá-la “nova em folha”: a ciência de pouco saber sobre e pouco se importar a respeito e tampouco querer notícias de onde. O nada é tão encantador quanto o rapaz que, silente, no seu canto de sala de estar, esparrama olhares dengosos pelo recinto e, claro, há sempre quem os pegue no ar. E o nada dura um sopro, uma piscadela, a sensação de paz reverberando dentro de nós que, segundos depois da sua passagem, já nem sabemos mais descrevê-la. E esticamos a saudade por ela durante décadas e muitas sessões de terapia com profissionais e amigos.

O nada é um milagre efêmero.

Gosto de me ocupar de quem serei um dia, mesmo ao me dar conta de que o faço há tanto tempo que me esqueci de ser quem devia no momento que era para ser e agora pareço desconjuntada. “Desconjuntada” é uma palavra que me lembra um filme sobre um cirurgião plástico que, rejeitado por uma bela mulher, decide fragmentá-la, amputando-lhe os membros. Ele crê que a privando de sua beleza, ela perceberá o quanto necessita dele. Pena que ele não compreenda que necessidade é bem diferente de amor.

O “Eu tenho um sonho...” de Martin Luther King me vem nesse agora. Eu tenho um sonho que é diferente daqueles que são platéia. Tenho um sonho que não foi definido. Começou quando comecei. Tem a biografia em cópia-carbono da minha. Pudesse dividi-lo... Mas como dividir o que não pedem? Um sonho que parece de pura benevolência às 17h58, mas às 21h33 pode se tornar pragmático. Um sonho com nuances. E nonsense.

Ontem foi aniversário de morte de John Lennon. Hoje é aniversário de morte de Clarice Lispector. Já comemorei aniversário de morte de afetos fazendo lista de desejos para se apreciar em vida. Quero ser cremada, não enterrada. Quero ser lançada e sair a passeio com o vento.

Hoje acordei nesse frenesi que nem sei... Alguém sabe? Poderia sair por aí a somar números das casas, carros nas ruas, pessoas na calçada. Somar é o tipo de coisa que faço quando estou em frenesi. E se a soma dá no número 7, eu me descabelo.

Número 7 é sagrado, li em algum lugar de numerologia e já dizia o sábio. História, religião ou ciência, lá está... Uma vez a porta do apartamento era 14 = 7 + 7. Era dia 21 (7 + 7 + 7) e eu fiquei por lá, a ver mar da janela. Esse dia foi de sorte, porque não me distraí com dissabores e o mar inundou minha alma.

Não sei ao certo o que quero dizer hoje. Ou se acerto ao dizê-lo.

Disseram-me que de amor não se sobrevive e eu dei graças. Seria triste sobreviver de amor, quando viver dele me parece muito mais divertido. Beber dele pode até matar a sede. Comê-lo pode ser muito mais prazeroso.

Nem sempre sobreviver é de se festejar.

Quando sobrevivo ao dia, ele me dói devagarzinho às portas do seu final. Não é um final feliz... É um final com máscara de oxigênio, sentimento adestrado, condição para o incondicional.

Sobreviver nos ensina o quanto viver é muito, mas muito mais interessante.

Imagem: Unprofound © Jim

www.carladias.com

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6 comentários:

PROJEÇÃO DE MIM disse...

Hj acordei fazendo reflexões, talvez o fim de ano nos deixe mais nostalgicas, sensiveis...
Vivo do amor, e não consigo ficar sem...
mas sem duvida, impossível sobreviver dele é como se fosse uma falta de ar, fome ou qualquer coisa mais que falta.
Não importa se for o amor de um filho(sempre presente), amigo ou amante...
bj

O.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Também não sei, Carla! Mas que o frenesi foi ótimo, ah, isso foi. :)

Primeira Pessoa disse...

muito legal o blog.
eu estava procurando blogs de crônicas e encontrei pouquíssimos.

a crônica é, na minha opinião, a mais injustiçada filha da literatura. insistem em rotulá-la como "menor".

vivo do ofício de escrever este gênero. podendo, dê uma olhada no meu blog:

www.cronicasderobertolima.blogspot.com

parabéns pela iniciativa do blog.
grande abraço do
roberto.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Seja bem-vindo, Roberto. Bem legal sua reflexão sobre o tempo.

Carla Dias disse...

O... Acho que quem não tem medo de encarar o amor o compreende dessa forma, não? Compreende que não há sobrevivência que o cultive e o mantenha. É preciso vivê-lo.
Beijo!

Roberto... Que bom tê-lo por aqui.

Carla Dias disse...

Eduardo... Já que é para não sabermos, que seja em frenesi!