terça-feira, 17 de março de 2009

PALAVRAS RASCANTES >> Claudia Letti


Existem palavras e expressões que grudam, tal qual aquelas músicas que nos perseguem da manhã à noite, penduradas que ficam em nossas cordas vocais enquanto zunem na nossa cabeça. Se for uma música antiguinha ou antigona, menos mal, mas quando é um sucesso recente, ruim e popular, aí só recitando mantra pra desfazer o feitiço. Mas eu falava em palavras. Tem sempre uma palavra ou uma expressão da moda que invade todos os textos, papos, anúncios, comerciais de tv e, consequentemente, a nossa cabeça.

Há alguns anos, todos os que queriam ser executivos, empresários ou afinados com o que quer que seja isso, carregavam em suas pastas, além da papelada e dos contratos, um monte de Paradigmas (que vem do grego Parádeigma, segundo soube, e que significa "modelo"). Pois não seria tão mais fácil usar palavras como modelo ou padrão, que expressariam a mesma coisa e são muito mais simpáticas do que usar Paradigma? Mas alguém deve ter escrito um livro em defesa – ou acusação – do Paradigma e ele padronizou todo mundo na tentativa de quebrá-lo. Quebraram tanto o tal do Paradigma que hoje, de tão craqueladinho, coitado, quase nem aparece mais.

Foi antes ou depois que os Quixotescos Consultores perseguiram o Paradigma que veio a Reengenharia? Não havia por onde escapar dessa que significa(va), noves fora, reformulação. Como a Paradigma, a palavra Reengenharia também estava na maleta dos executivos, ansiosos para obter mais lucro de suas empresas. E pra fazer a Reengenharia funcionar, reinventaram a cooperação que então passou a se chamar Sinergia, que grudou por um tempo e não se sabe se realmente cooperaram entre si. No fundo, Reengenharia e Paradigma, para uma leiga como eu, parecem ser a mesma coisa, só mudaram o corte do cabelo.

Os holofotes também se voltaram para o Desenvolvimento Sustentável. O camarada não sustentava nem a si, mas sabia exatamente a hora e o local de falar de boca cheia sobre o tal. Todo mundo falava, mas fazer que é bom... E no rastro dele vieram os desenvolvimentos econômicos x ambientais x versus. E dá-lhe responsabilidade social, biodiversidade, meio-ambiente; um Tsunami (outra que grudou) de palavrinhas bonitas e politicamente corretas – expressão que também entrou na roda e pegou mais do que o “a nível de”. Até chegarmos na palavra Biocombustível, que promete ser tão efêmera quanto a moda e que um pessoal das antigas conhece por beterraba e cana de açúcar. O tal do Desenvolvimento Sustentável teve seus dias de glória e grudou. Difícil foi pegar. Até hoje.

Meio ao mesmo tempo desse desenvolvimento que parece que não se sustenta, o mundo se transformou numa aldeia global. A palavra Globalização agarrou gregos e troianos, e quem não era globalizado não inspirava respeito na sua própria aldeia. E com esta palavra vieram outras, logo atrás na passarela das contagiosas: dinâmica, interatividade, diversidade. Todo mundo sabia tudo de todos e o que acontecia lá era como se estivesse acontecendo aqui. Globalizaram tanto que, de fato, conseguiram, e uma crise que acontece lá mela tudo por aqui também. Me admira que ninguém tenha quebrado o paradigma da palavra e feito sua reengenharia para colocar outra mais sofisticada no lugar de "crise". Agora querem desglobalizar na base da Sinergia pouca meu pirão primeiro, mas a aldeia virou um grande cortiço e não vai dar pra manter cada um no seu quadrado...

Repare que estou me esforçando para não colocar no mesmo balaio as palavras e expressões old fashion, as menos elegantes do “tipo assim” (já saindo da coleção de 2009) e o “veja bem”. Nem vou falar que a velha, boa e muito útil palavra "sim" não existe mais, se transformou no “com certeza”. Também pudera, nesta crise sem ter certeza quem vai acreditar que o sim é um sim?

Depois desse desfile de brechó, não posso deixar de exibir uma palavra nova que, acredito, será uma tendência para a próxima estação. Dia desses, eu que não entendo nada de vinho mas fui comprar por questões circunstanciais, escutei (uma dúzia de vezes) de alguém que parece entender da bebida tanto quanto eu, a palavra Rascante. Diante da minha total ignorância, o atendente da loja gentilmente me explicou: Rascante é quando o vinho "pega" na garganta.

Ou seja, se é Rascante, já grudou.

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13 comentários:

Ana disse...

hahaha! Adorei! Aliás, se é pra falar de palavras na moda, vou dar uma de adolescente do orkut: AMOOOOO!

beijos

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Minha amiga, muito rascante essa sua crônica: bela sinergia em perfeito desenvolvimento sustestável de palavras. Com certeza, uma bela reengenharia dos paradigmas linguísticos. Merece ser globalizada. :)

r a c h e l disse...

Eu roubei o teu 'não bom'. :) Sabe como é, grudou.

Quem mandou sempre colocar as coisas nas palavras certas?

Beijo querida!

Juliêta Barbosa disse...

Claudia,

Fui ao dicionário procurar uma palavra rara para elogiar o seu texto e só encontrei o tão surrado, sim. Mas, acrescento-lhe um "Excelente com louvor".

Catuaba disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Letti disse...

Ana, eu "pego" gírias de adolescentes também, como não pegaria ouvindo todo dia, né? Mas, daí usamos meio que jocosamente... Ou Rascantemente.. ehehe Beijo guria!

Edu, Sinergia é o Crônica do Dia! *;) Bacci!

Rachel, o "não bom", eu peguei de outra amiga. E já globalizou, viu só? Beijo!

Juliêta, Acho que já fomos apresentadas por outras caixinhas de comentários, mas como é a primeira vez que você visita crônica minha preciso dizer que adorei sua presença, SIM. Obrigada e um beijo!

Carlos Verdini Clare disse...

Sei que não gosta de bebidas alcóolicas, mas te aconselho a experimentar uma taça de Merlot, produzido em Bento Gonçalves (pode ser de qualquer vinícula, desde que seja de lá), para entender o quanto a palavra "rascante" rasga a nossa garganta e nos penetra, criando raízes - e até uma certa dependência química, é verdade. Como te disse em outra ocasião, vinho não é bebida alcoólica, é o sangue de Deus! Se até o padre bebe, eu - que sou pecador - me esbaldo!

Carla Dias disse...

Tudo que gruda incomoda ou vira moda...
Adorei o texto!
Será que “simbólico” pode entrar na lista? Porque teve esse momento em que tudo era simbólico. O mais famoso dele foi o pagamento... Um pagamento simbólico é um tanto quanto rascante, não?

Letti disse...

Carlos, você errou de crônica, menino. A "Obrigada, eu não Bebo" é outra. Mas, daí, eu escrevi na crônica comemorativa aos 10 anos aqui do Crônica do Dia, que eu já bebo espumante e vinho - desde que não seja rascante! rs
beijo!

Carla, simbólico entra na lista, sim. E daria pra fazer uma crônica das atividades em moda, porque teve a época do projeto, lembra? Todo mundo tinha e não era considerado "yuppie"- essa teve seu apogeu too - se não tivesse um projeto.
beijo guria!

Rudney disse...

Claudia,
Depois que li a crônica do braço curto, eu que já era seu fã, virei "de carteirinha". Pode ter certeza que sua crônica "rascante", "agregou valor". beijão.

Letti disse...

Rudney, querido, eu sou sua fã, sempre! Eu esqueci do "agregar valor", que ótima lembrança! Acho que eu deveria ter feito uma enquete, já temos várias palavras novas - e rascantes! - que não entraram na crônica. beijo!

Lívia Moura disse...

Olá, Letti! Como pôde ver, criei meu blog recentimento. Gostaria de postar um texto seu que gosto muito: "Tem dias. E acordo sem gosto pelo bom senso. Não querendo fazer uso da razão..."

Sabe?
E aí?
Estou autorizada?

Grande abraço!

Lívia Moura disse...

Obrigada, Cláudia! Depois dá uma olhadinha. Gosto muito dele. Bjs